O Profeta de Khalil Gilbran: “Vossa alegria é a tristeza desmascarada, e como poderia ser diferente?”

A alegria é a melhor coisa que existe“?, como compôs Vinícius de Moraes em seu “Samba de Benção”? O filósofo e poeta libanês Khalil Gilbran (1883-1931), considerado o terceiro poeta que mais vendeu em toda a história (atrás apenas de Shakespeare e Lao-Tsé), tem uma visão diferente sobre esse verso e escreveu um capítulo inteiro do seu clássico “O Profeta” para esse tema: “Sobre a Alegria e a Tristeza“, que segue abaixo como traduzido por Bettina Becker (LP&M). O livro de 1923 conta a história do profeta Almustafa, que viveu numa cidade estrangeira chamada Orphalese por 12 anos e está prestes a embarcar em um navio de volta pra casa, quando é parado por um grupo de pessoas com quem discute muitas questões da vida e da condição humana — cada capítulo contém um dos diálogos.

Citações da cultura popular à parte, o tema que Gilbran aborda aqui é a dualidade sempre presente na mente humana, temas queridos do Yoga, do Budismo e do Taoísmo, por exemplo. O Tao Te King possui vários trechos que abordam esse tema, como o seguinte, no segundo capítulo (Auto-Cultivo), na tradução da Wikisource:

Sob o céu:
Quando reconhecemos o que faz o belo ser belo / Surge o feio!
Quando reconhecemos o que faz o bom ser bom / Surge o mal!
Por isto: O ser e o não-ser / Surgem mutuamente
O fácil e o difícil / Complementam-se
O longo e o curto / Condizem
O alto e o baixo / Convivem entre si
O som e a voz / Casam-se
O antes e o depois / Seguem-se.

~ Tao Te King, Capítulo 2

Outros dois trechos já foram publicados aqui da mesma obra: o primeiro é “Sua dor é o quebrar da concha que contém sua compreensão”, por Khalil Gilbran (12/07/2011) e o segundo Então o lavrador disse “fala-nos sobre o trabalho”, e Khalil Gilbran respondeu (09/09/2011).

“E uma Mulher disse: Fala-nos da Alegria e da Tristeza.

 

E ele respondeu:

 

Vossa alegria é a tristeza desmascarada. E o mesmo poço de onde surge vosso riso esteve muitas vezes cheio das vossas lágrimas. E como pode ser diferente?

 

Quanto mais profundamente a tristeza escava o vosso ser, mais alegria ele pode conter. Não é o cálice que leva o vosso vinho o mesmo cálice que foi queimado no forno do oleiro? Quando estiverdes felizes, olhai no fundo dos vossos corações e vereis que na verdade estais chorando pelo que foi vosso prazer.

 

Alguns dizem: “A alegria é maior que a tristeza”, e outros dizem: “Não, a tristeza é maior “. Mas eu vos digo, elas são inseparáveis. Elas vem juntas. E quando uma está sozinha convosco na mesa, a outra está dormindo na vossa cama. Observai que estais suspensos, como uma balança, entre vossa tristeza e vossa alegria. Apenas quando estais vazios é que estais parados e equilibrados.

 

Quando o guardião do tesouro vos levanta para pesar o seu ouro e a sua prata, as necessidades fazem vossa alegria ou vossa tristeza se elevar ou baixar…”

 

~ Khalil Gilbran, em “O Profeta”, caítulo “Sobre a Alegria e a Tristeza” (tradução de Bettina Becker)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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