“Aqui é tudo, não há nenhum lugar a ir, toda existência culmina neste momento”: Osho aqui e agora

osho-aquietudoO tempo, esse mistério, esse transe, essa obviedade, esse domínio, essa ignorância (?). É um grandiosíssimo tema, que praticamente todos os grandes autores e mestres e filósofos trataram, superficial ou profundamente, de Alan Watts a Eckhart Tolle, de Heidegger a Dogen Zengi. E também tratou o célebre mestre indiano Osho (Bhagwan Shree Rajneesh, 1931-1990), com seu provocativo e singelo estilo, como no trecho abaixo, que está publicado em vários livros, um deles sendo “Tantra: The Supreme Understanding: Discourses on the Tantric Way of Tilopa’s Song of Mahamudra” (Rebel Publishing House, 1997).

Talvez a profundidade de “não há nenhum lugar a ir, aqui é tudo” escape à compreensão humana cotidiana (talvez não, né, escapa, estou sendo bonzinho). Vivemos suspensos na grande era do tempo, onde representações como dia, noite, amanhã, segunda-feira, terça-feira, sábado, ano que vem, são 7 e quinze, dois minutos, uma hora, 10 anos, tenho 19, 25, 31, 50… regem a vivência humana como se fossem algo além do que são. Alan Watts usa ótimas palavras, poderosas palavras, para transmitir a encrenca em que nos metemos com essa busca pelo domínio do real através do tempo: “Nós vivemos em uma cultura totalmente hipnotizada pela ilusão de tempo, na qual o chamado presente é sentido como uma pequena linha entre o ‘todo poderoso’ passado causativo e o ‘absurdamente importante futuro’. Não temos presente. Nossa consciência está quase completamente preocupada com memórias e expectativas”. O todo poderoso passado causativo e o absurdamente importante futuro. O todo poderoso passado causativo e o absurdamente importante futuro. O todo poderoso passado causativo e o absurdamente importante futuro.

Onde estamos neste momento? Querendo ler rápido esse post? Há algum outro site que vou logo na sequência? Há outra tarefa que deve ser feita já já? Estou prestes a desistir? Ou estou em paz aqui e agora, com minha respiração tranquila e completa? Ou talvez eu esteja com alguma pressa sutil (ou nem tanto), respiração rasa, sensação de escassez que não se sabe de que exatamente? Tenho a expectativa que algum texto possa me salvar de algum passado que “me prende” ou me faz sofrer? Essas palavras do Watts não são para amanhã, nem nunca serão.

Mas agora (onde mais? quando mais?), as palavras de Osho:

“Para mim, existem dois tipos de pessoas: as que perseguem seus objetivos e as que celebram a vida. Os que perseguem objetivos são loucos. Aos poucos, eles estão enlouquecendo – e estão gerando sua própria loucura. E a loucura tem a sua própria força; lentamente eles se afundam nela – assim, ficam completamente perdidos. O outro tipo de pessoa não é um perseguidor de objetivos; ela não persegue absolutamente nada; ela celebra a vida.

E isso ensino a vocês: sejam os que celebram, comemorem! Já existe muita coisa – as flores vicejam, os pássaros cantam, o Sol está no céu – celebre a vida! Você está respirando e está vivo e tem consciência: festeje! Com isso, de repente, você relaxa; aí não há mais tensão, não há mais angústia. Toda a energia que se houver transformado em angústia se torna gratidão. Seu coração passa a bater embalado por uma gratidão mais profunda – isso é oração. Orar é exatamente isso, um coração batendo com profunda gratidão.

Não é preciso fazer nada para isso. Apenas entenda o movimento da energia, o movimento sem motivação da energia. Ele flui, mas não em direção a um objetivo, ele flui como uma celebração. Ele se move, não em direção a um gol, se move por causa de sua própria energia transbordante.

Uma criança está dançando e pulando e correndo por toda parte; pergunte-a, “Onde você está indo?”. Ela não está indo a lugar algum – você vai parecer tolo pra ela. Crianças sempre pensam que adultos são tolos. Que pergunta tola, “Onde você está indo?”. Há alguma necessidade de ir a algum lugar? Uma criança simplesmente não consegue responder sua pergunta porque é irrelevante. Ela não está indo a lugar nenhum. Ela vai simplesmente dar de ombros. Vai dizer, “nenhum lugar”. Então a mente orientada-a-objetivos pergunta, “Então porque você está correndo?”- porque para nós uma atividade é relevante apenas quando leva a algum lugar.

E eu digo a você: não há nenhum lugar a ir. Aqui é tudo. Toda a existência culmina neste momento, converge para este momento. Tudo o que existe está fluindo para este momento – é aqui, agora.

Uma criança está simplesmente desfrutando a energia – ela tem demais. Ela está correndo, não porque tem que chegar a algum lugar, mas porque tem energia demais, tem que correr.

Aja desmotivadamente, apenas como um transbordamento de energia. Compartilhe, mas não negocie; não faça barganhas. Dê porque você tem; não dê para ter algo em troca – porque então você estará na miséria.”

Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho (1931-1990), em “Tantra: The Supreme Understanding: Discourses on the Tantric Way of Tilopa’s Song of Mahamudra”

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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