Manter-se ocupado é uma forma de preguiça: Sogyal Rinpoche e a evitação das nossas questões reais

Sogyal Rinpoche

Há três meses foi publicado aqui no Dharmalog um texto do rabino brasileiro Nilton Bonder que tratava da incapacidade de parar como uma forma de depressão, mas a incapacidade de parar pode ser algo além disso. O mestre budista Sogyal Rinpoche, em seu “Livro Tibetano do Viver e do Morrer” (Palas Athena), diz que encher nosso dia com inúmeras atividades é, pasme, uma forma de preguiça: a “preguiça ativa“, que seria típica do Ocidente (no Oriente, ele diz, o mais comum é as pessoas não fazem nada mesmo). Com essa diferença: ele não se refere exatamente a uma “incapacidade de parar”, mas à atitude ativa de “atrolhar nossas vidas com atividade compulsiva“, o que traz uma nuance notavelmente diferente. Por essa compreensão, estamos enchendo os dias com movimento supérfluo, e nossa incapacidade de parar seria então uma consequência dessa compulsividade.

A preguiça, segundo Rinpoche, seria de enfrentar as questões reais de nossas vidas. E de questões reais evitadas o mundo está cada vez mais cheio. Mas quais são as questões reais? Evitamo-las tão bem que sequer sabemos mais quais são. Enchemos nossos dias tão bem que está tudo bem evitado — até a próxima crise, pelo menos.

Mas trás dessa ativa compulsão de criar movimento, por trás dessa preguiça ativa, obviamente deve haver alguma motivação mais profunda. Ninguém sai por aí criando movimento compulsivo à toa. E como Rinpoche aponta, essa motivação tem a ver com não deixar nenhum tempo para as questões reais. Então seria a evitação pura e simples das questões reais, ou de algo que está envolto nelas, e que será trazido à consciência se dermos tempo a isso. A profundidade desse algo pode ser o próprio “obscurecimento ôntico“, uma expressão que é normalmente usada para se referir à ignorância do próprio ser, à ignorância de nós mesmos — mas isso vamos explorar num post subsequente.

Eis o texto de Sogyal Rinpoche:

“Quantos de nós somos varridos pelo que eu chamo de “preguiça ativa”? Há naturalmente diferentes espécies de preguiça: a Oriental e a Ocidental. O estilo Oriental consiste em ficar à toa o dia inteiro ao sol, não fazendo nada, evitando qualquer tipo de trabalho ou atividade útil, tomando chá e fofocando com os amigos.

A preguiça Ocidental é bem diferente. Consiste em atrolhar nossas vidas com atividade compulsiva, de maneira tal que não exista nenhum tempo para enfrentar as questões reais.

Se nós olharmos para nossas vidas, veremos claramente quantas tarefas supérfluas, chamadas de “responsabilidades”, são acumuladas para preenchê-la. Um mestre as compara com o “serviço de limpeza em um sonho”. Nós dizemos a nós mesmos que queremos colocar nosso tempo em coisas importantes da vida, mas nunca há nenhum tempo. A simples atividade de levantar de manhã, já há tanto a fazer: abrir a janela, arrumar a cama, tomar banho, escovar os dentes, dar comida pro gato ou cachorro, lavar a roupa de ontem, ver se tem açúcar ou café, sair pra comprá-los, fazer o café da manhã – a lista é infinita. E há as roupas para escolher, passar e dobrar. E o cabelo? E a maquiagem?

Perdidos, assistimos nossos dias serem enchidos com ligações de telefone e projetos pequenos, com tantas responsabilidades — ou deveríamos chamar de “irresponsabilidades”?”

Sogyal Rinpoche, “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” pags. 19 e 20

Esse livro foi publicado originalmente em 1992, quando não tínhamos smartphone e tampouco qualquer tipo de telefone celular para acesso popular, quando não tínhamos YouTube, Facebook, Instagram, quando não tínhamos sequer Internet nem acesso aos livros que não fossem da nossa livraria local, e a televisão a cabo tinha apenas começado. Porque uma dimensão enorme das “irresponsabilidades” às quais nos dedicamos hoje é justamente essa fauna de distrações, que contribui todo o movimento compulsivo e consome tempo de viver.

Em outro trecho do mesmo livro:

“Nossas vidas parecem nos viver, possuindo seu próprio momentum bizarro, parecem nos carregar; no final sentimos que não temos escolha ou controle sobre ela. Claro que nos sentimos mal por causa disso às vezes, temos pesadelos e acordamos suados, pensando: “O que estou fazendo com minha vida?”. Mas os medos duram apenas até o café da manhã; logo pegamos a mala e estamos de volta onde começamos.

Lembro do santo indiano Ramakrishna que disse a um de seus discípulos: “Se você gastar um décimo do tempo que você devota a distrações, como ir atrás de mulheres ou ganhar dinheiro, à prática espiritual, você estaria iluminado em alguns anos!”. Havia um mestre tibetano que viveu na virada do século, um tipo de Leonardo da Vinci dos Himalaias, chamado Mipham. Diziam que ele tinha inventado um relógio, um canhão e um avião. Mas assim que completou cada um deles, destrui-os, dizendo que teria sido somente a causa de mais distração.”

Sogyal Rinpoche, “O Livro Tibetano do Viver e do Morrer” pags. 19 e 20

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

7 Comentários

  • Nando, esse texto veio num dia perfeito. Num dia que eu achava que não estava sendo produtiva porque não estava fazendo “coisas”. Agora posso aproveitar minha “pausa” tranquila.

    Amor e luz

  • Realmente a carapuça serviu é o meu número é a pergunta que não quer calar como nos nos paramos como deixar de correr atrás do tempo com medo que ele vá embora e que tenha faltado algo a fazer. Eu sei que um dos caminho é tranquilizar a mente que sem dúvida é nossa inimiga número 1 . Mas esse é o questionamento como olhar para o que deveria ser visto . Um grande abraço gratidão pelo texto lindo.

    • Oi Maria,

      O texto do Sogyal tem algumas dicas implícitas, como por exemplo questionar o que é realmente necessário e o que é supérfluo. Realmente. Com sinceridade. Com essa vontade que você mostra de parar de correr atrás do tempo com medo. Aí será necessária a decisão de soltar os supérfluos, ao menos um pouco, o que começaria a quebrar a compulsão das ocupações, e que por sua vez abrirá espaços de tempo pra você. As pausas. E aí a vida pode começar a fluir. As questões essenciais podem aparecer.

      Há mais maneiras de fazer isso, mas de início não há muita saída a não ser colocar sua atenção mais diretamente sobre o que está acontecendo, observar, e criar os espaços.

      Namastê
      e boas pausas pra você,

      Nando

  • Olá Nando. Muito interessante o texto assim como o ponto de vista. Obrigado por disseminar tais conhecimentos. Um abraço.

    Identifiquei um erro de digitação:

    “Nossas vidas parecem nos viver, possuindo seu próprio momentum bizarro, parecem nos carregar; no final sentimos que não temos escolha ou controle sobre ela. Claro que nos SENTIMENTOS (sentimos?) mal por causa disso às vezes, temos pesadelos e acordamos suados, pensando…”

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