Ram Dass e a falácia da mudança: “Podemos tomar nossas vidas exatamente como são neste momento”

“Podemos tomar nossas vidas exatamente como são neste momento; é uma falácia pensar que nós necessariamente vamos ficar mais perto de Deus mudando a forma de nossas vidas, abandonando isso-e-aquilo, ou mudando nossos empregos, ou de cidade, ou o que for… doando nosso aparelho de som, ou cortando nosso cabelo, ou fazendo o cabelo crescer, ou fazendo a barba, ou… Não é a forma do jogo; é a natureza do ser que preenche a forma. Se eu sou um advogado, posso continuar sendo um advogado. O que eu faço é meramente usar ser um advogado como um caminho de voltar a Deus”.
~ Ram Dass, em “Words of Wisdom” (8/1/2014)

Ultimamente quando há uma frase que fala em “Deus” aqui parece que há uma apologia a alguma religião, a um monoteísmo, mas não há. Se você notar, o sentido do que fala o mestre Ram Dass (de “Love, Serve, Remember”) é quase o mesmo de muitas psicoterapias integrativas, ou seja, não guarda obrigatoriamente uma conexão com uma visão teológica ou religiosa. É uma mensagem que pode ser abordada pelo ângulo puramente psicológico (embora tenha a intenção de ser essencialmente maior que isso). O esforço e a meta de mudar a si mesmo geralmente esconde ilusões que não levam o ser humano onde ele pensa que vai chegar — seja esse objetivo chamado de “Deus”, de plenitude, liberdade, felicidade, etc.  E pode revelar, ao contrário, uma tensão e ignorância de si mesmo, uma meta de “fugir” do que se é e manter a sombra perpetuamente na escuridão. Mesmo se houver uma mudança a ser aspirada e realizada, como diria o psicólogo americano Carl Rogers (1902-1987), “o curioso paradoxo é que só quando eu me aceito como sou, então eu mudo” (This Is Me, 1961).

Há alguns outros posts aqui no blog que tratam deste assunto com outros enfoques, por exemplo:

» “Enquanto não somos capazes de acessar a vida agora, vamos acumular sofrimento emocional”: Eckhart Tolle

» O ensinamento direto de Nisargadatta Maharaj: “Não é o que você faz, mas o que você para de fazer que importa”

» “O problema é você, a solução é você”, por Swami Dayananda

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

5 Comentários

  • Olá, estou lendo o site há pouco tempo, e tirando proveito de muito, aprendendo e elevando o autoconhecimento. Voces poderiam listar livros para que possa ler mais? Por fim, declaro que curti muito o Dharmalog. Obrigada pela elevaçao intelectual que voces oferecem

  • Olá.
    Encontrei o blog “por acaso” pesquisando uma possível solução para o meu problema. Há alguns meses pensei estar enlouquecendo quando só o que sentia era medo e um niilismo sem fim. Uma amiga bastante iluminada conversou comigo por horas e concluiu que eu havia despertado, só não havia entendido/percebido isso. Foi um grande alívio quando essa amiga me explicou sobre o despertar, como se um elefante tivesse sido tirado das minhas costas, e passei a pesquisar bastante sobre o assunto. Durante essas pesquisas entendi a importância do autoconhecimento, do conhecimento da nossa essência, porém é nesse ponto que travo e o medo volta. Eu não tenho uma vida própria, minha vida foi anulada por uma mãe esquizofrênica que suga a minha energia diária e um pai que só faz atormentar. Quando acordo e estou sozinha, me sinto leve, feliz e em paz, mas quando “os problemas” se levantam da cama, a energia inteira muda.
    Tenho lido sobre pessoas que ao despertar passaram a sentir um amor condicional por completos desconhecidos,enquanto eu não consigo deixar de odiar a minha família; pessoas que conseguem continuar com seus trabalhos, enquanto eu larguei o meu; pessoas que mantêm seus relacionamentos normalmente, enquanto eu não tenho a mínima paciência com quase ninguém; pessoas que nem acreditam como a vida se tornou fácil e que milagres passaram a acontecer, enquanto eu estou enterrada em dívidas e só “rezando” por um milagre que me tire dessa vida. A única semelhança que tenho com essas pessoas, é o fato de estar cada vez mais ligada à natureza, mas ainda sim sou dependente de tecnologia. Enfim, isso tudo me faz questionar se eu realmente despertei ou se só descobri a verdade. Não sei se estou sendo clara aqui, mas penso que da maneira que minha vida está, eu nunca conseguirei descobrir a minha essência e ao invés de eu rir a toa e me sentir plena, eu passo dias a fio com uma angústia que não é de um ser desperto, penso eu.
    Será que tenho salvação???

    • Oi Lorena, sim, claro, que todo mundo tem salvação. Difícil dizer o que se passa com você à distância e com apenas um relato, mas parece que você está experimentando alguma confusão interna. Um contato com um terapeuta (que de alguma maneira inclua o despertar dentro da sua prática) pode ser proveitoso, pode ajudar a recuperar o equilíbrio para que você possa se engajar num caminho e numa prática espiritual (caso você ainda não tenha uma) e trabalhar sobre si mesma e seu despertar. Ou talvez sua própria amiga tenha alguma recomendação nesse sentido.

      Particularmente eu não conecto uma experiência de niilismo e medo sem fim com o despertar, e também não com a busca por salvação, pois o que o despertar geralmente revela é que a pessoa já está salva, sempre esteve (o que não exclui o prosseguimento natural da vida, e evolução do espírito e o aperfeiçoamento humano, entre outras coisas). Então eu teria um pouco mais de calma antes de classificar isso como aquilo. É possível que você tenha dado algum passo significativo, mas também parece que há experiências a serem melhor percebidas e endereçadas. Mas tenha consciência que estou falando à distância, em teoria, com todas as limitações presentes.

      Em que cidade você está? Talvez alguém que leia o blog ou eu mesmo tenhamos recomendações de práticas e/ou terapeutas pra você.

      Um abraço e namastê,
      Nando

  • Tudo isto trata de afirmar sua inocência, de ceder espaço a realidade, mostrando-se como um não sábio, alguém que deve sempre aprender. No fundo, este é também o ideal do amor e do serviço desinteressado – desapegar-se dos usos e reconhecer o coração que brilha ante a própria contextura da vida, quando não mais envolto nos padrões de convivo com o mundo e os saberes que se fazem intrusos no viver quando carregam ideologias que negam os momentos! Bem disse Allan Kardec quando interpelado sobre quando a humanidade seria feliz: quando ela não for mais padronizada , respondeu ele; ou seja: quando aceitarmos as diferenças e deixarmos de criar padrões para a realidade, permanecendo, assim, em um contínuo diálogo com o mundo, e, portanto, apreendendo mais rapidamente a sabedoria da escola do universo! Abrir os olhos só é realmente possível quando nos desapegamos, ou seja, relativizamos o mundo material a nossa volta e o mundo racional dentro de nós, o que gera a união com a esfera perceptiva da vida, no chamado coração (aquela sabedoria que não julga antes de ver, e que, quando bem limpa, clara, libera seus mecanismos passionais, suas energias de forma continua e imparcial, indistinta (incondicionada a objetos específicos, a usos padronizados))… Todos falam que o tudo no mundo é relativo, entretanto, quem realmente vive isso? Só relativizaremos de fato quando compreendermos quem somos e assim possamos acompanhar os processos da vida, sem simbólicos apegos às impressões e situações! Algo que é explicitado no texto de Janneti sobre a MEDIUCRIDADE HUMANA E A VERDADE DE SI MESMO, e um dos que se chama O AMOR e trata deste como sendo o Sentimento de Eternidade!

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