O ensinamento direto de Nisargadatta Maharaj: “Não é o que você faz, mas o que você para de fazer que importa”

srinisargadattamaharajOs ensinamentos do sábio indiano Sri Nisargadatta Maharaj (1897-1981) são discursos potentes sobre a Verdade mas também podem soar  enigmáticos a quem entra em contato pela primeira, apesar da clareza e de serem notavelmente diretos, como no trecho abaixo, parte do seu mais famoso livro, “Eu Sou Aquilo” (I Am That, 1973). Um dos maiores gurus de Advaita Vedanta do Século XX, advaita significando do sânscrito “não-dois“, ou Não-Dualismo, uma filosofia que afirma que tudo é um único Grande Ser (“Brahman”) e que nossa verdadeira identidade (“Atman”) está neste Grande Ser, Sri Nisargadatta foi um sábio simples que ensinava acima de tudo a percepção pura de si mesmo, fazendo com que essa auto-realização dissolva o principal problema da existência humana: a ignorância. A ignorância de nossa verdadeira identidade, Brahman,  que é trocada equivocadamente por nossa identidade com o corpo e as coisas impermanentes, gerando ações equivocadas em vida e o sofrimento em suas mais variadas formas.

Em “O caminho da realização: Parte um“, capítulo do livro “Eu Sou Aquilo” (“I Am That”), Sri Nisargadatta faz exatamente isso, frisando esse mesmo ponto de diversas maneiras diferentes. Há frases fortes a que o Ocidente não está muito acostumado a ouvir, como “nada que você faça mudará a si mesmo“, ou então “pare a mente e simplesmente seja“, mas durante todo o livro elas são permeadas com ricos esclarecimentos, como o que também está nesse trecho e fala sobre o trabalho na natureza, ou outro em que fale sobre  o estado de testemunha. Ainda assim, sem experiência e sem descanso na mente, é muito difícil compreender frases como “somente quando a própria idéia de mudança é vista como falsa e abandonada, o imutável pode surgir“, ou o próprio título do livro, “eu sou Aquilo“.

É um trecho para se ler e reler várias vezes, se aprofundar, buscar compreender e viver.

A tradução é de  Swami Sunder Svarupo.

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EU SOU AQUILO” [TRECHO]
por Sri Nisargadatta Maharaj

Onde está a necessidade de mudar o que quer que seja? A mente está mudando de alguma forma todo o tempo. Olhe para sua mente desapaixonadamente; isso é o suficiente para acalmá-la. Quando ela estiver quieta, você pode ir além dela. Não a mantenha ocupada todo o tempo. Pare-a, e simplesmente seja. Se você der descanso à mente, ela se centrará e recobrará sua pureza e força. O pensar constante a faz decair.

Nada que você faça mudará a si mesmo, pois você não precisa de nenhuma mudança. Você pode mudar sua mente ou seu corpo, mas isso é sempre algo externo a você que foi mudado, não você mesmo. Por que se importar com toda essa história de mudança? Realize de uma vez por todas que nem seu corpo, nem sua mente e nem mesmo sua consciência é você e mantenha-se de pé sozinho em sua verdadeira natureza além da consciência e inconsciência. Nenhum esforço pode levá-lo lá, somente a clareza do entendimento. Não tente reformar a si mesmo, simplesmente veja a futilidade de toda mudança. O mutável mantem-se em mutação enquanto o imutável espera. Não espere que o mutável o leve ao imutável – isso jamais acontecerá. Somente quando a própria idéia de mudança é vista como falsa e abandonada, o imutável pode surgir.

As atividades da maioria das pessoas é sem valor, senão destrutiva. Dominado pelo desejo e medo, eles não podem fazer qualquer coisa de bom.

Os gurus estilizados falam de madurez e esforço, de mérito e aquisições, de destino e graça; tudo isso é mera formação mental, projeções de uma mente viciada. Ao invés de ajudar, eles obstruem. Não corra para a atividade. Nem aprendizagem nem ação podem realmente ajudar.

Não é o que você faz, mas o que você para de fazer que importa.

A atividade não é ação. Ação é oculta, desconhecida, inconhecível. Você pode somente conhecer o fruto. Ação não leva à perfeição; perfeição é expressa na ação. Há uma diferença entre trabalho e mera atividade. Toda a natureza trabalha. Trabalho é natureza. Natureza é trabalho. Por outro lado, a atividade é baseada no desejo e no medo, no desejo de possuir e desfrutar e no medo da dor e aniquilação. Trabalho é pelo todo para o todo, atividade é para si mesmo e por si mesmo.

Sua mente está estagnada nos hábitos de avaliação e aquisição, e não admitirá que o incomparável e o inobtível estão esperando eternamente dentro de seu próprio coração por reconhecimento.Tudo que você tem a fazer é abandonar todas as memórias e expectativas. Apenas mantenha-se pronto em total nudez e vazio.  Não faça nada, apenas seja. Apenas sendo tudo acontece naturalmente. Seja nada, saiba nada, tenha nada. Esta é a única vida que vale a pena ser vivida, a única felicidade que vale a pena ter.

Você não pode fazer nada. O que o tempo traz, o tempo levará embora. Este é o fim da Yoga, realizar independência. Tudo o que acontece, acontece na e para a mente, não para a fonte do “Eu sou”. Uma vez que você realize que tudo acontece por si mesmo (chame a isso destino ou vontade de Deus, ou mero acidente), você permanece como testemunha somente, compreendendo e apreciando, mas nunca perturbado. Você é responsável somente pelo que você pode mudar. Tudo que você pode mudar é sua atitude. Aí mora a sua responsabilidade.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

22 Comentários

  • MARAVILHOSAMENTE VERDADEIRO, PRINCIPALMENTE QUANDO PENSAMOS NOS ESTADOS DE HUMOR (ANSIEDADE&DEPRESSÃO), A META ÚLTIMA DA TERAPIA COGNITIVA PROTOCOLADA PARA TAIS SINTOMAS, OU SEJA, DEIXAR DE ESTAR ANSIOSO E DEIXAR DE SER DEPRESSIVO.

  • A questao é que n da pra saber o que a gente pode mudar e o que ja passa a ser forçação de barra. E ai entra de novo (ou so permanece, uma vez que nem chega a sair) o medo de errar.

    “Pensando naqueles que fracassaram, vemos que, por sua pressa, todos eles, sem exceção, forçaram situações.”

    (Meishu-Sama)

  • CHEGO A CONCLUSÃO DE QUE NADA DEVO VER, NADA DEVO OUVIR,NADA DEVO SEGUIR,SE QUISER ME ENCONTRAR,SE QUISER ME CONHECER,SE QUISER ME TRANSFORMAR.SOU O OUVINTE E O MESTRE.SÃO MEUS INTIMOS DIÁLOGOS QUE SE MOSTRAM REVELADORES.SÃO OS MEUS PASSOS
    QUE PERCORRERÃO O MEU CAMINHO.

  • Profunda sabedoria. Compreender estas palavras e vivenciá-las é encontrar a felicidade verdadeira. Oxalá eu possa chegar perto desta maravilhosa compreensão. Obrigada por postar mais um alimento precioso para nossas almas.

  • “Seja nada, saiba nada, tenha nada. (…)
    Tudo que você pode mudar é sua atitude. Aí mora a sua responsabilidade.”

    (No mundo virtual, utilizar-se do expediente de escrever um texto TODO em Caixa Alta é considerado uma enorme falta de educação. Há moderadores que nem se dão ao trabalho de ler o coment. Saem deletando de ante-mão.
    É como se a pessoa estivesse gritando/brigando. Portanto, estou gritando, para EU mesma ouvir, pois só falo por mim:

    MESTRE! ARRASOU COM ESSA 2 FRASES. NADA MAIS HÁ A SER DITO!

    mas eu ( :/ ) ainda PRECISO facilitar a vida (a minha) e ir de Neti Neti. (Nac♥)

    “neti neti” é expressão que vem do sânscrito e que significa algo como “não isto, não aquilo”. Seu objetivo é mostrar ao indivíduo que a Verdade não é aquilo que ele vê, ouve, sente ou pensa. Naturalmente, todas as coisas palpáveis, assim como todo o mundo material, correspondem em alguma medida a uma categoria específica de realidade — aquela que inclui contas para pagar, salada para o almoço e o descanso no fim do dia. Mas a Verdade não é isto e não é aquilo. http://en.wikipedia.org/wiki/Neti_neti

    ++++++++

    Quando você pergunta constantemente dentro de você “quem sou eu? Quem sou eu?”, você não está esperando por uma resposta. Sua mente lhe dará muitas respostas, todas essas respostas devem ser rejeitadas.

    Sua mente dirá: “Você é a essência da vida. Você é a alma eterna. Você é divino”, e assim por diante. Todas essas respostas têm que ser rejeitadas: neti neti — a pessoa tem que continuar dizendo: “Nem isto nem aquilo”.

    Quando você tiver negado todas as possíveis respostas que a mente pode dar e arquitetar, quando a pergunta permanecer absolutamente irrespondível, um milagre acontece: de repente a pergunta também desaparece.

    Leia mais: http://www.palavrasdeosho.com/2010/10/neti-neti.html#ixzz2KJV3VtXp

    Grata pelo Poste e Boa Sorte, Norma

    • Acho que a pergunta que devemos fazer é:

      QUE SOU EU? – Ao invés de QUEM SOU EU?
      Na verdade, acredito, que todos somos apenas uma “função” em nosso Planeta e Universo.
      Mas, nesse nosso mundo de tribulações, difícil é encontrarmos o nosso verdadeiro desígnio cósmico.

  • O único meio apontado por Nisargadatta é a afirmação\vivência contida na expressão “Eu Sou”, que ele afirma ter sido o método por ele utilizado para a iluminação. O mesmo que Ramana Maharishi “Quem sou eu?”, da mesma linha do vedanta. Ambas, a afirmação e a pergunta, levam a mente ao contato com sua natureza “Ampla como o espaço”. O caminho budista do Dzogchen, muito mais sistematizadoo e gradativo conduz à mesma direção, com o apoio do conceito\verdade do Vazio de realidade inerente a todos os fenômenos, pelo qual os objetos\fenômenos não se opoem à subjetividade “Eu Sou” para o estado de unidade expresso pela afirmação “Eu Sou Aquilo”.

    • Flor, você me fez sorrir (amorosamente) e isso foi muito BOM!
      Sou sua seguidora, recebo os postes do seu Blog em minha inbox e a minha ‘leitura’ dos seus pp textos (tb a escolha dos assuntos abordados/dicas), coments e entrelinhas. me levam à uma conclusão, a um sentimento diferente do expresso por vc acima :)
      Você (se caso necessário) só necessitará de um Instante (sagrado?).

      Há ‘qualidades’ já tão pertinentes a própria pessoa, que ela própria não conseguem distingui-las separadas do conjunto, do seu sistema. Mas elas estão lá. Atuantes e visíveis. Afinal, a energia (sempre) chega primeiro…

      Fiquem todos bem e Boa Sorte!
      Norma

  • Norma, como fico feliz em saber que acompanha meus textos! Afinal de contas, sempre fica uma incógnita, ‘como será que as pessoas estão recebendo isso’. Fico realmente muito grata!

    Que estes instantes sagrados de reflexão e meditação sempre estejam presentes em nossas vidas, porque são eles que nos impulsionam a fazer algo novo, assim acredito.

    Abraços,
    Paz,
    Flor

    • Oi Nando! Que legal que tu acompanha o Páprica! Fico duplamente feliz! :)

      Se não me falha a memória também cheguei nesse texto do Campbell através do Terra Mística. Ai me bateu uma saudade e fui reler o Poder do Mito, pois não achei o Reflexões sobre a arte de viver em lugar nenhum. Entrei em contato com a editora Gaia e realmente, para a minha tristeza, o livro está esgotado. O que é uma pena!

      Dharmalog está aqui na minha barra de favoritos! :)

      Abraços,
      Paz,
      Flor

  • maravilhoso ensinamento. Nisargattada fala da retidão da mente para descobrir o imensuravel dentro de nós. esse homem não sabia nem ler direito não era um intelectual, não tinha nenhuma especialização. Então ele é um exemplo que para atingir a paz do ser, não precisamos de conhecimento externos-no precisamos estudar a nossa mecanica, simples!

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