A pergunta de 64.000 dólares: Em quantos momentos você realmente se conectou consigo mesmo na vida?

“Deveríamos sentir que é maravilhoso estar neste mundo. Que fantástico é ver vermelho e amarelo, azul e verde, roxo e preto! Todas essas cores nos foram dadas. Sentimos calor e frio, experimentamos doce e amargo. Temos essas sensações, merecemos elas. Elas são boas.

 

Então o primeiro passo para perceber a básica bondade é apreciar o que temos. Mas então devemos ir mais fundo e mais precisamente em direção ao que somos, onde somos, quem somos, quando somos e como somos como seres humanos, para que possamos tomar posse dessa bondade básica. Não é realmente uma posse, mas, de qualquer maneira, nós a merecemos.

 

A bondade básica está muito intimamente conectada com a idéia de bodhichitta na tradição Budista. Bodhi significa “desperto” ou “acordado” e chitta significa “coração”, então bodhichitta é “coração desperto”. Tal coração desperto vem de ser capaz de ver o estado da sua mente. Pode parecer um grande feito, mas é necessário. Você deveria investigar a si mesmo e se perguntar quantas vezes você tentou se conectar com seu coração, inteiramente e verdadeiramente. Quantas vezes você se deu as costas, porque tinha medo de poder descobrir algo terrível sobre si mesmo? Quantas vezes você teve vontade e disposição de olhar para o próprio rosto no espelho, sem ficar constrangido? Quantas vezes voc&e tentou se proteger lendo um jornal, assistindo televisão ou simplesmente indo fazer outra coisa. Essa é a pergunta de sessenta e quatro mil dólares: Quanto você se conectou consigo mesmo durante toda sua vida?

 

A prática de sentar em meditação, como discutimos no capítulo anterior, é o meio para redescobrir a bondade básica, e para além disso, é o meio para desperto este genuíno coração dentro de você. Quando você senta na postura da meditação, você é exatamente aquele homem ou mulher nus que falamos anteriormente, sentando entre o céu e a Terra. Quando você se dispersa, você está tentando esconder seu coração, tentando protegê-lo saindo da sua presença. Mas quando você está sentado ereto mas relaxado na postura da meditação, seu coração está nu. Seu ser inteiro está exposto – para você mesmo, antes de tudo, e para os outros também. Então através da prática de sentar parado e seguir sua respiração conforme ela acontece e se dissolve você está se conectando com seu coração. Simplesmente se deixando ser, como você é, você desenvolve simpatia genuína por você mesmo.”

 

~ Chögyam Trungpa Rinpoche, em “The Collected Works of Chögyam Trungpa: Shambhala: The Sacred Path of the Warrior – Vol 8”, pg 33

Vai ser difícil experimentar (e confirmar) a bondade básica que está na essência do ser humano com pesquisas com ratos em laboratórios ou eletrodos no cérebro. Mas com meditação, e o coração desperto, como este grande mestre tibetano explica, é possível.

Esse livro do Chögyam Trungpa (“A Trilha Sagrada do Guerreiro”) é tão rico que dá pra separá-lo todo em pedaços de pequenos parágrafos e ler cada pedaço com contemplação e cuidado. São temas que tratam de praticamente todos os aspectos do caminho. O trecho acima é exatamente anterior a um outro já reproduzido aqui, “Meditação, coragem verdadeira e coração aberto: lições do caminho do guerreiro de Chögyam Trungpa“. Onde este termina, aquele começa. É parte do capítulo 4, “Medo e Destemor” (Fear and Fearlessness), o anterior falava mais do “autêntico coração da tristeza” e da coragem de viver com coração aberto, este (que é anterior na ordem do livro) trata de quantas vezes realmente nos damos ao contato conosco, íntimo, curioso e profundamente revelador. Quem gostou desses trechos, recomendo comprar essa preciosa obra.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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