“Paradoxalmente, a capacidade de ficar só é a condição da capacidade de amar”: Erich Fromm

“A concentração é bem mais difícil de praticar em nossa cultura, em que tudo parece agir contra a capacidade de concentrar-se. O passo mais importante no aprendizado da concentração é aprender a ficar só consigo mesmo, sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem beber. Na verdade, ser capaz de concentrar-se significa ser capaz de ficar só consigo mesmo — e esta capacidade é precisamente uma condição da capacidade de amar. Se me ligo a outra pessoa porque não posso suster-me por meus próprios pés, ele ou ela podem ser um salva-vidas, mas a relação não é a de amor. Paradoxalmente, a capacidade de ficar só é a condição da capacidade de amar. Quem quer que tente ficar só consigo mesmo descobrirá quão difícil isso é. Começará a sentir-se inquieto, nervoso, ou mesmo a experimentar considerável ansiedade. Estará disposto a racionalizar sua má vontade em continuar com essa prática pensando que ela não tem valor, é simplesmente tola, toma muito tempo, e assim por diante. Observará também que lhe vêm à mente todas as espécies de pensamento, que tomam conta dele. Ver-se-á a pensar em seus planos para o resto do dia, ou numa dificuldade no trabalho que tem a fazer, ou aonde ir à noite, ou em qualquer número de coisas que lhe encherão a mente — em lugar de permitir que ela se esvazie. Seria útil praticar uns poucos e muito simples exercícios como, por exemplo, sentar-se em posição repousada (nem espreguiçada, nem rígida), fechar os olhos e tentar ver em frente deles uma tela branca, tentar remover todos os pensamentos e imagens que interferem, tentar acompanhar a própria respiração; não pensar a respeito dela, nem forçá-la, mas simplesmente acompanhá-la — e, ao fazê-lo, senti-la; tentar, além do mais, ter o senso do seu “Eu”; eu = mim mesmo, como o centro de minhas forças, como o criador de meu mundo. Dever-se- ia, pelo menos, fazer esse exercício de concentração todas as manhãs durante vinte minutos (se possível, mais) e todas as noites antes de deitar-se. “.
~ Erich Fromm, em “A Arte de Amar”, pg 84

A solidão é a doença do nosso tempo“, disse recentemente Thich Nhat Hanh. Para uns, a evitação do estar sozinho pode se manifestar ao ligar a tevê para que ela fique falando sozinha e “dar a impressão de ter alguém em casa”, para outros na necessidade de programar um encontro no fim-de-semana para evitar que se fique sozinho em casa no sábado ou domingo, ou ainda qualquer evento esportivo ou cultural “porque se não ficaria em casa sem fazer nada”, para outros ainda talvez se manifeste ao acessar o celular ininterruptamente para evitar o silêncio ou o vazio (assista Louis C.K. falando disso), ou mesmo buscar numa relação conjugal o preenchimento do desconforto de estar sozinho. Há várias maneiras de sentir e evitar, das menores às maiores, e talvez a mais moderna de todas seja estar ocupado — “estamos ocupados e ficamos ocupados o dia todo para nos conectarmos, mas isso não ajuda, não reduz a quantidade de solidão em nós”, diz Thich Nhat Hanh.

Nesse trecho o psicólogo, sociólogo e filósofo alemão Erich Seligmann Fromm (1900-1980) também parece estar falando de algo parecido com a meditação. Além de começar falando em “concentração“, também fala a respeito de “muito simples exercícios como, por exemplo, sentar-se em posição repousada (nem espreguiçada, nem rígida), fechar os olhos e tentar ver em frente deles uma tela branca, tentar remover todos os pensamentos e imagens que interferem, tentar acompanhar a própria respiração“. A concentração pode ser um aliado na meditação, já que a mente do homem ocidental parece estar cada vez mais errática e dispersa, mas não há um real medicamento para essa evitação (da solidão) a não ser enfrentá-la, ficar a sós naturalmente. Com tudo o que aparece. Fromm fala em “ficar só sem ler, sem ouvir rádio, sem fumar, sem beber”, e a gente pode adicionar “sem TV, sem Internet, sem celular, sem cachorro, sem gato” etc. Isso caso quisermos sermos capazes de amar.

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Foto de Caleb Roenigk (licença de uso BY Creative Commons)

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

15 Comentários

  • Nossa, que coincidencia incrivel. Hoje comecei a ler este livro depois de anos na estante. A arte de amar pede que saibamos viver e ser felizes na nossa propria caverna, antes de darmos amor aos outros. Fica a licao dificil, de se conhecer profundente e nos amarmos como somos. Adorei o posr, nando! Inspirador!

  • E quando nossa própria companhia não nos perturba, quando conseguimos descobrir o prazer de estar a sós consigo, o amor por si mesmo é tão pleno que não precisa buscar compensações de qualquer tipo.

  • Tal como escrevo neste post, http://paulorenatoconsultor.blogspot.pt/2012/09/nao-fazer-nada.html o não fazer nada é muito difícil para a maioria das pessoas porque isso implica ficarem consigo mesmas, mergulhadas em si e isso acarreta o medo do desconhecido, porque a maior parte das pessoas não se conhece de verdade, desconhece essa luz imensa de paz e amor que é a sua essência. Quanto melhor se conhecer deixa de se focar em receber para se focar em partilhar.

  • faço um trabalho diário de conscientização: a importância de saber ficar só. confesso que vacilo muitas vezes, mas volto…por que me parece natural. é uma conquista. esses textos alimentam e fortificam essa convicção.

  • Quem não tem autoestima não pode ter condições de estimar ninguém. Quem não tem amor próprio como poderá ofertar amor se não consegue amar a si mesmo. Se não consegue conhecer a si mesmo como poderá compreender seus semelhantes. O homem que consegue conquistar o mundo, mas não conseguiu conquistar a si mesmo não conquistou nada!
    Não confundir a capacidade de ficar só com sigo mesmo com o estado de solidão que pode ser por abandono, por decisão própria ou por doença psico emocional que são estados patológicos da psique. Santo Agostinho relata em sua filosofia cristã um estado de “Solilóquio”, uma espécie de automonólogo, um diálogo com a própria consciência a introspectar-se ao eu psíquico.
    Estabelecer um estado de religiosidade que demande uma atitude reveladora, consciente e autodeterminada livre de crenças agrilhoantes é o verdadeiro caminho para se buscar o autoconhecimento, recuperar o amor próprio e a autoestima e marcar um alegre encontro com sigo mesmo. Espiritualidade é na sua essência uma filosofia de libertação diametralmente oposta à condição de religiosidade que escraviza com dogmas e leis canônicas.
    “Se queres ser plenamente livre, primeiro liberte a sua consciência e abra as portas do coração!”

    Comentário do prof. Antônio Luiz em 07/11/2013 – SBS – prof.antonio_luiz@hotmail.com

  • Interessante, mas sem extremismos. Não vivemos eternamente sozinhos, ou fora da sociedade. Muito válido como desintoxicação nos dias atuais e pós-modernimo ou contemporâneo tardio.

  • Muito legal mesmo as postagens, tenho tentado trilhar o caminho, agradeço muito poder ler essas postagens e poder reforçar ainda mais confiança diante dos meus medos, me fez ver como ainda tenho tentado fugir de mim mesmo inconscientemente. Como diz Jesus “Estreito é o caminho que conduz a vida”. Muito Obrigado!

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