“Ocupa-te do reino do coração e o resto te chegará”: o conselho definitivo de Claudio Naranjo

O que seria “ocupar-se do reino do coração“? É uma expressão espiritualmente profunda e deve ser vista com bons olhos e grandes aspirações por muita gente, mas realmente o que significa? Se eu quiser sair desta tela agora e ir “me ocupar do reino do coração?”, o que eu faria? Como me comportaria, o que sentiria? Há algo que eu deva fazer?

A pergunta do jornalista Victor Manuel Amela, do jornal espanhol La Vanguardia, foi a última de uma entrevista concedida em janeiro de 2012 pelo médico psiquiatra chileno e fundador do SAT Claudio Naranjo ao jornal de Barcelona, em estilo curto, quase pingue-pongue: “Um conselho definitivo”? Ao que Naranjo respondeu: “Ocupa-te do reino do coração e o resto te chegará por consequência”. A entrevista completa está no site do LaVanguardia.com, “Ocúpate del reino del corazón, y lo demás te llegará“.

Esta semana trouxe dois discursos do mestre budista Chögyam Trungpa (1939-1987)sobre o viver com coração em dois posts (1 e 2), mas o próprio Claudio deu uma pista na entrevista, ao responder sobre a saída para a educação. “Integrar intelecto, amor e instinto, nossos três cérebros. Abraçar os três de verdade: neste momento, o intelecto eclipsou o amor e demonizou o instinto”.

Não tenho intenção de dar uma definição precisa e conclusiva a respeito, apenas de suscitar a percepção de algo que seja verdadeiramente ocupar-se do reino do coração. E talvez com isso desconfundir, deixar de perceber isso como uma coisa que não é – um tipo de bondade, uma felicidade auto-imposta, um conceito de amar – e ocupar-se mais de fato do que é. Nesse sentido, é muito útil uma frase citada pelo poeta Ralph Waldo Emerson: “Não procure fora de você” (do latim “Ne te quaesiveris extra”).

Abaixo, uma parte traduzida da entrevista:

Você chegou a conhecer perfeitamente a si mesmo?
No centro da cebola, se vais tirando cascas e mais cascas, não há semente, não há nada!

O que significa isso?
Que a única coisa que existe são os outros. Antes eu me isolava em minha torre de marfim, mas hoje vejo os problemas do mundo…

Quais são?
Todos derivam de uma estrutura patriarcal profunda, de modo que todos se diluiriam se educássemos as crianças de outra maneira.

Como, exatamente?
Integrando intelecto, corpo, emoções e espírito, para sermos mais amorosos, mais livres: mais sábios. Mas para isso é fundamental primeiro que eduquemos os educadores.

Temos uma educação não-amorosa?
Intelectual demais, institucional, individualista, patriarcal e pouco humanística. Nossa sociedade segue sendo machista e depredadora. Já dizia Cícero: “Cada senador é sábio, mas o Senado é um idiota”.

Solução?
Integrar intelecto, amor e instinto, nossos três cérebros. Abraçar os três de verdade: neste momento, o intelecto eclipsou o amor e demonizou o instinto.

Devo deixar-me levar por meu instinto?
Se ele te arrasta, não és livre; trata de te aliar ao teu instinto.

Que paixão domina o mundo hoje?
A vaidade. Se expressa na pulsão pelo sucesso econômico, pela supremacia tecnológica, pela confusão entre valor e preço…

Para onde caminha o mundo?
Muitos são os chamados…, mas muitos também são os surdos. Há um pulsão de transformação certa, mas para por acender a luz e ver em tua própria escuridão.

E seu chegar a acendê-la, o que verei?
Saberá tudo que está pulsando, que tudo vibra… Se buscas o eu, acabarás esbarrando com a ausência do eu; o transformador é sentir o ser. Se isso acontece, terás dias piores ou melhores, mas recordarás o sabor do ser.

Um conselho definitivo?
Ocupa-te do reino do coração e o resto te chegará por consequência.

[Claudio Naranjo em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, publicada em 17 de janeiro de 2012: “Ocúpate del reino del corazón, y lo demás te llegará“)

Para ler a entrevista completa, visite este link no site do La Vanguardia.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

12 Comentários

  • “(…) neste momento, o intelecto eclipsou o amor e demonizou o instinto.” Que frase fantástica! É o resumo do comportamento humano atual. Colocar o amor meio de ladinho, escondidinho e a razão triunfante. Mas “triunfante” entre aspas, pois as pessoas realmente não sabem viver – em paz – sem amor! E demonizar os instintos, como fazemos isso! Como se a raiva e o medo, por exemplo, fossem de todo ruins e não tivessem suas utilidades. Mas na hora do sexo tudo se mistura: amor, instinto, até intelecto! Vai entender…

  • “E seu chegar a acendê-la, o que verei?
    Saberá tudo que está pulsando, que tudo vibra… Se buscas o eu, acabarás esbarrando com a ausência do eu; o transformador é sentir o ser. Se isso acontece, terás dias piores ou melhores, mas recordarás o sabor do ser.”

    Essa recordação me dá muita força, minha vontade diminuiu mas deslumbro ela no canto dos olhos um pouco todo dia … buscando mantê-la acesa.

    Ótima entrevista, fortes vibrações de amor em vossos corações amigos.

  • Isso me lembra outras duas citações que acho que se harmonizam com a questão do “matar o EU” e a de ver os problemas do mundo:

    “Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas vos serão acrescentadas.” (Evangelho segundo São Mateus)

    “Além disso, não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós.
    O labirinto é conhecido em toda a sua extensão. Temos apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus.
    E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos.
    Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência.
    E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo.” (Joseph Campbell)

  • Uma mudança de paradigma é necessária para que se passe a ver a vida não como algo externo que nos acontece, algo que vem de fora para dentro, mas sim para ver e acima de tudo viver a vida como ela é, como nós somos, nós somos a vida, ela acontece em nós, através de nós. Todos estamos conectados e quando essa mudança de paradigma for generalizada despertaremos para a nossa essência de puro amor.
    http://paulorenatoconsultor.blogspot.pt

  • Especialmente, quero agradecer quem me envia este boletim.Aprecio muitíssimo tantos temas que nos compõem no caminho do conhecimento e auto-conhecimento dos mistérios que somos.
    Muitas belezas vislumbramos quando nos hospedamos no momento que nos convida a olhar para nós mesmos! Obrigada a você que me oferece e proporciona sempre, tal sabedoria!

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