Atenção Plena Correta (samma-sati): entenda um dos 8 elementos do caminho de Buda para a liberdade

Há alguns dias, num post sobre “mindfulness”, foi citada a preocupação com a prática da Atenção Plena Correta e como ela estaria sendo desvirtuada em nossos tempos, mas a melhor maneira de não a desvirtuarmos é entendermos o que ela significa. O próprio Buda Shakyamuni diz que o entendimento correto é a base para a Atenção Plena Correta. E ele a usou num ponto nobilíssimo de seu ensinamento: um dos oito elementos para o fim do sofrimento e o Nirvana é justamente a Atenção Plena Correta – ou, como é conhecido mais formalmente, o Nobre Caminho Óctuplo. Como muitos sabem, o Buda proferiu Quatro Nobres Verdades sobre a vida e o caminho para o despertar, e a Quarta Nobre Verdade é justamente a revelação do Nobre Caminho Óctuplo, sendo a Atenção Plena Correta a sétima.

Samma-sati” é a palavra original do Pali de onde veio “Atenção Plena Correta” (ou mindfulness, como se usa muito em inglês). Essa palavra aparece em vários sutras e textos budistas, tem parentesco com uma série de culturas e escolas de sabedoria orientais, e vem sendo “importada” para o Ocidente, inicialmente (imagina-se) com o mesmo sentido original. Abaixo há uma pequena seleção de 3 textos básicos que podem nos ajudar a falarmos a mesma língua que os grandes mestres dessa ciência e arte usaram nos ensinamentos.

Observação da tradução: o significado de “correto” talvez não dê conta de tudo que palavra “samma” significa, e inclusive pode carregar um sentido de dogma que ela não tem (como se alguém dissesse o que é correto e o que não é). Então talvez seja importante sabermos que “samma” também traz sentidos como “coerente“, “coeso“, “completo” e “integral“, exigindo do praticante que também esteja atento para a própria atenção, para que reconheça nele esses aspectos nobres e superiores.

Seguem os 3 trechos.

1

“Bhikkhus, suponham que ao ouvirem, ‘A moça mais bonita deste país! A moça mais bonita deste país!’ uma grande multidão de pessoas se aglomerasse. Agora, aquela moça mais bonita do país dançaria com muita graça e cantaria de forma melodiosa. Ao ouvirem ‘A moça mais bonita deste país está dançando e cantando! A moça mais bonita deste país está dançando e cantando!’ uma multidão ainda maior se aglomerasse. Então, surgisse um homem que valorizasse a vida e temesse a morte, que desejasse o prazer e abominasse a dor. E alguém lhe dissesse, ‘Bom homem, você tem de carregar esta tigela cheia até a borda com óleo por entre essa grande multidão e a moça mais bonita deste país. Um homem com uma espada levantada irá segui-lo bem de perto, e se por acaso você derramar uma gota que seja, nesse mesmo instante, ele cortará a sua cabeça.’

“O que vocês pensam, bhikkhus, aquele homem não irá prestar atenção na tigela com óleo e irá permitir ser distraído por aquilo que está acontecendo no exterior?”

“Não, venerável senhor.”

“Eu citei este símile, bhikkhus, para transmitir uma idéia. A idéia é a seguinte: A tigela cheia até a borda com óleo representa a atenção plena no corpo. Portanto, bhikkhus, assim é como vocês deveriam praticar: ‘Nós iremos desenvolver e cultivar a atenção plena no corpo, fazer dela o nosso veículo, a nossa base, estabilizá-la, nos exercitarmos nela e aperfeiçoá-la por completo.’ Assim é como vocês deveriam praticar.”

~ Samyutta Nikaya XLVII.20, Sedaka Sutta (do site Acesso ao Insight)

2

“A última palavra de Gautama, o Buddha, foi Sammasati – Recorda-te. Numa única palavra, tudo que é significativo está contido. Sammasati: Recorda qual é o teu espaço interior. Simplesmente recorda-te. Não há nada a alcançar. Tu já és aquilo que tens procurado em todas as tuas vidas, de diferentes modos, seguindo diferentes caminhos. Mas jamais olhaste para dentro. Apenas por alguns segundos, senta-te de olhos fechados para te lembrares, para recordares onde estiveste, que profundidade foste capaz de alcançar; qual é o sabor do silêncio, da paz; qual é o sabor de desaparecer no Supremo… Olha para dentro. E sempre que tiveres tempo, já conheces o caminho… Continua a ir para o espaço interior, de modo que o teu medo de desaparecer seja deixado de lado e comeces a lembrar-te da linguagem esquecida… SAMMASATI”.

~ Bhagwan Shree Rajneesh, o Osho

3

“O que é sammasatiSati significa sustentar na mente ou trazer à mente. Sati é o estado de lembrar, o estado de estar lembrando, o estado de não escurecimento, o estado de não-esquecimento. Sati significa sati que a Faculdade Espiritual, a sati que é a Força Espiritual, Sammasati, a Sati que é o Fator da Iluminação, que é um Fator do Caminho e que está relacionada com o Caminho. Isso é o que se chama sammasati.”

~ dos textos de Abhidhamma, como citado pelo Ven. P. A. Payutto, traduzido do Thai (para o inglês) por Dhamma-Vijaya [Vbh.105, 286]

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

4 Comentários

  • Todos os 3 trechos, falam de perto e são motivadoras. Fico com o trecho relatado por Osho:” Continua a ir para o espaço interior, de modo que o teu medo de desaparecer seja deixado de lado e comeces a lembrar-te da linguagem esquecida… SAMMASATI”.”

    “Recorda-te”.
    Olha para dentro (há muito a ser visto com atenção plena). Se ajudar, atente para:

    AS NOVE CONSCIÊNCIAS DO BUDISMO. Os cinco primeiros tipos são: percepções sensoriais obtidas diretamente pelos cinco órgãos dos sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato. Da sexta à nona consciência: estão as funções perceptivas da mente. A sexta consciência: é o poder que integra os cincos sentidos e faz um julgamento de forma inclusiva. Por exemplo, diante de um objeto bonito, mas de péssimo odor, temos a tendência de rejeitá-lo imediatamente. A sétima: denominada manas em sâncrito, representa o poder do pensamento. Em vez de criar um julgamento sobre o que foi percebido pelos cinco sentidos, nessa consciência procuramos encontrar uma certa ordem à luz das experiências vividas e das circunstâncias externas. Em outras palavras, é nessa consciência que existe a manifestação da razão, que é característica apenas dos seres humanos. Como resultado dessa consciência, manifestam-se os valores, conceitos e princípios que herdamos de outras pessoas, como nossos ancestrais, e o que aprendemos no dia a dia ou desenvolvemos pela busca de conhecimentos. Assim, por meio dessa consciência, manifesta-se a característica do ego, da discriminação, do auto apego etc. A oitava: consciência é chamada de alaya, em sânscrito, e corresponder ao que a psicologia moderna denomina deinconsciente. Na consciência alaya, que significa repositório em sânscrito, acumulam-se todas as experiências vividas na forma de ações, pensamentos e palavras, do passado ao presente, ou seja, o carma. Dessa forma, mesmo que uma pessoa não se lembre do que fez em um passado próximo ou distante, tudo fica registrado nessa consciência e, de acordo com a lei da causalidade, não pode escapar da manifestação dos efeitos de todas as causas acumuladas. Por fim, a nona: consciência, denominada ampla em sânscrito, significa imaculada. Ela encontra-se na parte mais profunda da vida humana, livre das impurezas que o indivíduo possa trazer como resultado de suas ações passadas e acumuladas na oitava consciência.

    Nota: Nitiren Daishonin elucida essa nona consciência como sendo o próprio estado de Buda, que se estende eternamente do infinito passado ao infinito futuro na vida de todas as pessoas.

    Boa sorte, Norma

  • Olá!

    Chamo-me André Amorim e pesquiso, em minha tese de doutorado, a atenção plena (mindfulness) voltada ao ambiente laboral. Gostaria de pedir a colaboração de vocês divulgando amplamente (por email ou no site), caso possível, o link que remete ao questionário online da pesquisa (ver abaixo). O único critério para participar é estar trabalhando.

    https://docs.google.com/forms/d/1f7Jmw31N56ztwiCrr2tRpjwq69VzCaI43xbc69sXDhk/viewform

    Agradeço imensamente a colaboração!
    Em caso de qualquer dúvida, favor entrar em contato.

    Respeitosamente, 
    André Amorim

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