McMindfulness: artigo de professor-monge alerta para a simplificação utilitária da “atenção plena”

McMindfulness” é uma expressão que altera criticamente a palavra “mindfulness” (atenção plena) e que denota uma espécie de comoditização mercadológica da atenção plena, assunto de um alerta que Ron Purser, professor de Gestão, Doutor em Liderança pela San Francisco State University (EUA) e também monge budista da linhagem coreana Taego Zen , faz num interessante artigo publicado esta semana no site HuffingtonPost, intitulado “Além do McAtençãoPlena” (Beyond McMindfulness). A importação e assimilação do que se refere como mindfulness, ou “atenção plena” em algumas traduções, é um passo enorme para a evolução da visão de mundo materialista cartesianista, mas ele vem “com uma sombra“, como diz Purser.

Mindfulness” é uma palavra inglesa aparentemente sem parentesco oriental, mas está conectada de fato e é originária da Índia antiga, mais precisamente da tradução do termo em sânscrito smrti ou do termo Pali sati. Citando um texto do Budismo Theravada, o Abhidhammattha Sangaha, a Wikipedia diz que “a palavra sati deriva da raiz que significa “lembrar“, mas como um fator mental significa presença de mente ou atenção ao presente, ao invés de uma faculdade da memória”. A palavra é parte do ensinamento do Buda histórico, é a sétima via do Caminho Óctuplo, que Buda instruiu seus discípulos como prática para o fim do sofrimento e para a iluminação – samma-sati, ou “atenção correta”.

Do artigo de Purser:

“Desacoplar a atenção plena do seu contexto ético e religioso Budista é compreensível como um movimento para transformar tais treinamentos em produtos viáveis para o mercado aberto. Mas a corrida para secularizar e comoditizar a atenção plena em uma técnica vendável pode levar essa técnica ancestral a uma infeliz desnaturação, já que nasceu para muito mais do que aliviar uma dor de cabeça, reduzir a pressão sanguínea ou ajudar executivos e se tornar mais focados e produtivos”.
~ Ron Purser, trecho de “Beyond McMindfulness”

A crítica direta central é ao uso instrumental, principalmente o corporativo:

“Ao invés de aplicar a atenção plena como um meio para acordar os indivíduos e organizações das raízes prejudiciais da cobiça, da vontade doente e das ilusões, está sendo remodelada em uma técnica terapêutica banal de auto-ajuda que pode na verdade reforçar as mencionadas raízes prejudiciais.”~ Ron Purser, trecho de “Beyond McMindfulness”

Purser fala de “social dukkha“, ou o desajuste ou sofrimento social que as corporações causam, mas talvez isso seja menos fundamental que o dukkha pessoal, digamos assim (na verdade, acho que esse é o único dukkha). Qual a motivação íntima para que a atenção plena seja praticada? Ou descoberta? Ou revelada? Ou aceita? Os caminhos e revelações da atenção plena são infinitos.  Mas uma prática de mindfulness só pode ser liberadora e verdadeira se não estiver a serviço de um objetivo produtivo ou compensatório do ambiente corporativo. “Quando a prática é compartimentalizada dessa maneira, a interconectividade com os motivos pessoais é perdida“, diz Purser.

É difícil generalizar, e eu particularmente ainda não tive contato com workshops ou outras formas de treinamento corporativo centradas na atenção plena (no Brasil). Além disso, entendo que o alerta do artigo seja dirigido apenas a uma parte dessas iniciativas. Podemos discutir se alguma prática de atenção plena pode ser verdadeiramente ensinada e aprendida com profundidade no ambiente corporativo, mas me parece bem-vindo que algumas pessoas possam ser introduzidas à prática ali e, a partir de então, se desenvolvam e se aprofundem em outros lugares. O mais importante é que o alerta pode contribuir para o entendimento e para a transmissão e preservação da prática em si, assim como à essência de sabedoria de onde ela vem – assim como o Yoga e outras práticas de meditação também precisam dessa preservação e transmissão.

Para ler o artigo completo de Ron Purser e David Loy, clique aqui (em inglês).

» Esse alerta tem semelhança com o post “A Estátua de Buda na Sala de Beckham“, publicado aqui em 2011, e que trata da comoditização das estátuas e ornamentos budistas nos ambientes caseiros modernos, não como uma consequência da prática ou da devoção da cultura, mas como compensação ou artigo capitalista “espiritual”.

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Compartilhado por Lulu Camargo.
Foto de Andreas Feusi (licença de uso BY-NC-ND de Creative Commons).

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

11 Comentários

  • É o que nos alerta também o Chögyam Trungpa Rinpoche, no livro “Além do materialismo espiritual”:

    “Estamos aqui para aprender um pouco sobre espiritualidade. Eu confio na qualidade autêntica desta busca, mas é preciso questionar sua natureza. O problema é que o ego consegue transformar todas as coisas visando ao seu uso próprio, inclusive a espiritualidade. O ego está constantemente tentando adquirir e aplicar os ensinamentos da espiritualidade em benefício próprio. Os ensinamentos são tratados como uma coisa externa, externa a “mim”, uma filosofia que procuramos copiar. Na realidade, não desejamos identificar-nos com os ensinamentos ou vir a ser os ensinamentos. Assim, quando o nosso mestre fala em renúncia do ego, tentamos imitar essa renúncia. Cumprimos as formalidades, fazemos os gestos apropriados mas, na verdade, não queremos sacrificar parte alguma do nosso modo de vida. Tomamo-nos atores habilidosos e, ao mesmo tempo que brincamos de surdos-mudos com o verdadeiro significado dos ensinamentos, encontramos algum conforto fingindo seguir o caminho.”

  • Concordo com você. Também me parece muito bom o fato de que pessoas possam ser introduzidas à prática e, a partir de então, possam se desenvolver em outros lugares. Ao disseminar ideias sempre haverá o risco da antropofagia.

  • Ótimas análises, tanto a sua, quanto a do artigo em inglês. Mas, para não ficar apenas elogiando, gostaria de levantar um ponto de discordância e dizer que, na minha opinião, todo dukkha é necessariamente social, por que embora o meu sofrimento seja responsabilidade pessoal minha, ele afeta mais pessoas além de mim. O sofrimento não se manifesta apenas na forma de depressão e apatia, mas também como raiva, conflito e destruição.

    Talvez a minha discordância seja muito mais uma questão gramatical do que essencial, mas acho importante mesmo assim fazer essa colocação. Saudações para todos que tiveram a paciência de ler meu comentário.

    • Oi Samuel. Permita-me discordar da sua discordância, rs.

      Dukkha pode ter infinitas consequências e reflexos no universo, mas, em essência, é sofrimento, e isso é individual, da experiência de cada um. Se a solução do dukkha é individual (compreensão e desapego), a causa última também é individual. Buda diz que “tudo é insatisfatório” (insatisfatório no sentido mesmo de dukkha), então tudo que você experimenta passa por isso, inclusive as relações que tem – acho que é a isso que você se refere como “social”, certo? (porque o que seria social exatamente se não o aspecto relacional?). Se todos sofremos, naturalmente há uma percepção de sofrimento coletivo, mas essa não é a causa nem a solução última. Diz o cânone que, na experiência dos Budas e Aharants, é cessado dukkha.

      ABS.
      Nando

  • A verdade é a soma de todas as contradições. Assim, acredito, que cada pessoa vai buscar intuitivamente o alimento necessário para o seu momento espiritual, e o momento espiritual do planeta Terra, no momento, é muito focado no ter. Para poder suportar a busca pelo “ter” algumas pessoas vislumbram no mística espiritual um suporte para poder passar pelo seu momento. Uma pessoa que já atingiu a consciência de que é um espírito imortal vai utilizar seu conhecimento para ser.

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