“Deus não morreu, ele se tornou dinheiro, e o banco tomou o lugar dos padres”: Giorgio Agamben [ENTREVISTA]

Se você acha que esses tempos de crise política, econômica e moral já ultrapassaram as fronteiras até mesmo “do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder“, as palavras abaixo, de “uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo”, podem ajudar a ver e entender o que está acontecendo. O filósofo político italiano Giorgio Agamben, autor de “Homo Sacer” (1995) e “O Reino e a Glória” (2007) e tradutor (para o italiano) da obra de Walter Benjamin, vê um fenômeno novo no mundo: a democracia que não existe mais como era definida em Atenas, e, como ele diz, o fato de que “as formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história”.

Num outro trecho, de três relacionados abaixo, ele diz que que “Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito, manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo”.

Refletindo sobre as palavras de Agamben, é fácil notar que não apenas as estruturas institucionais são geridas ideologicamente pelo dinheiro, mas nós mesmos, em nosso dia-a-dia e em nossas principais decisões de vida, temos hoje a crença férrea e a devoção inquebrável pelo dinheiro. A maioria acha que não, mas tem, e mesmo nos círculos onde a felicidade é moeda de alto valor, o dinheiro ainda se sobressai como prioridade. Traz à lembrança o poema de Han-Shan que foi publicado aqui: “Tudo o que vejo são tolos / empilhando mais e mais alto ouro e grãos”, Han-Shan (POEMA).

A entrevista foi concedida a Giuseppe Savà e publicada no jornal italiano Ragusa News, há um mês. A tradução é de Selvino J. Assmann, professor de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e tradutor das obras de Agamben para a editora Boitempo. Para ler a entrevista completa, acesse esse link no site do Instituto Humanitas Unisinos.

No primeiro trecho abaixo, Agamben fala dos tempos de crise que vivemos há decênios e que se tornou nosso modus operandi comum:

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. ”Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a idéia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro. Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro. O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania ), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

(Giorgio Agamben)

Em outro trecho, ele explica o que considera ser um “fenômeno novo”:

“Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.”

(Giorgio Agamben)

Num terceiro trecho, ele faz uma comparação alarmente com o modo de operação das liberdades atuais com a época do Fascismo:

“Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmaras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmaras não é mais um lugar público: é uma prisão.”

(Giorgio Agamben)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Quanta insanidade no mundo: vivemos como coisas, coisas perecíveis que se julgam autocontroladas. E, pior: que se julgam no controle das outras coisas humanas, de todos os seres viventes, do espaço natural e mesmo do tempo.

    A ideia do capitalismo como religião é mesmo coerente: devoção, louvor, dogmas – tudo isso é constante no universo do capital, das organizações empresariais, do trabalho.

    Nossa liberdade, cadê? Se acordo e vou ao trabalho; se almoço, pensando no trabalho; se passo a tarde trabalhando e, à noite – e inclusive dormindo – o trabalho é imagem constante em meus pensamentos, não sou trabalhador livre, mas escravo de minhas próprias atividades. Aliás, minhas?

    Nada contra o trabalho em si. Mas, definitivamente, nada a favor de se deixar levar pelo poder do capital, para o qual (o capital) vendemos nossas potencialidades, nossa energia, nosso tempo (limitado!) de vida.

    Vejo tantas pessoas – e me incluo nesta lista – aceitando cada vez mais e mais tarefas. Para todos nós (apenas se inclua se você se considerar partícipe desta loucura), um pouco mais de dinheiro no final do mês justifica este abraçar infinito de tarefas. Que loucura!

    É, hoje comecei mesmo o dia contrariado. :-)

    • Contrariedade saudável! :)

      O que pode ser melhor do que estar “contrário” a essa religião do dinheiro?

      “Não é boa medida de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente””.
      ~ J. Krishnamurti

  • Nando… considero altamente saudável ser contrário a esse tipo de capitalismo pernicioso que vê o homem como consequência e não como o autor do processo histórico. Assassinaram o “Ser” pelo “Ter” e, de tal forma, que o humano se perdeu… e perdeu a noção de sua característica fundamental, respeitada pelo próprio Criador – a liberdade. Somos escravos de status, de coisas, de conceitos errados.Vivemos numa falsa democracia que é sim, pior do que o Nazismo,porque dominou as mentes não só de um povo, mas de todo o mundo que se diz civilizado. A pirâmide de valores está invertida.Portanto o saudável é vivermos – dentro do possível – na contramão dessa inescrupulosa e doentia pretensa civilização, que está pondo a perder a humanidade e o planeta.Buscar Deus é uma opção que ainda existe, e que salvará do “nada caótico” a humanidade e a própria terra.

  • Oi Nando… Só queria te falar que tu postastes um link duas vezes.;;; quando escreves para acessar ”esse link no site do Instituto Humanitas Unisinos” o link dá novamente no poema Zen de Han-Shan.

    A proposito, otimo texto…espero ver a entrevista logo…

  • O $ é o Santo Graal que proporciona quase tudo .O lucro deve ser sempre crescente , senão é sinal de fracasso…em nome dele se reorganiza relações entre capital/trabalho de forma a precarizar cada vez mais o trabalhador .

    Quase nada detém o poder do $ , apenas aqui e ali se vê contrariado , mas a grosso modo sai vencedor em todas as esferas de poder em que atua .

    Alguns idealistas não se submetem , mas são exceções .

    Um profunda mudança deverá vir de FORA desse mundo , e deverá ser em breve….esse sofrimento de bilhões de seres há de ecoar nas consciências de fora daqui…

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