Nascemos do nada e morreremos para o nada? O monge Thich Nhat Hanh explica o entendimento do Buda

O nascimento e a morte não são reais, são noções, é o que o monge Zen-Budista vietnamita Thich Nhat Hanh explica, baseado nos ensinamentos do Buda. Mas como entender isso? Thich Nhat Hanh explica no trecho abaixo, do livro “No Death, No Fear” (do inglês, “Nenhuma Morte, Nenhum Medo”), traduzido por Leonardo Dobbin. Ele fala coloquialmente, da maneira clara, cita Lavoisier, dá exemplos diferentes da vida de entes queridos que se foram e de ondas de rádio e televisão, mas não é fácil.

Segue abaixo o trecho.

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DE ONDE VIEMOS? PARA ONDE VAMOS?” [TRECHO]
por Thich Nhat Hanh

No meu eremitério na França há um arbusto de japônica, marmelo japonês. O arbusto usualmente floresce na primavera, mas em um inverno que foi muito quente os brotos vieram antes. Durante a noite uma frente fria veio e trouxe com ela gelo. No dia seguinte enquanto fazia meditação caminhando, notei que todos os brotos no arbusto tinham morrido. Reconheci isto e pensei: “Neste ano novo não teremos flores suficientes para decorar o altar do Buda”.

Poucas semanas depois o tempo esquentou novamente. Enquanto andava em meu jardim, vi os novos brotos na japônica manifestando uma outra geração de flores: “Vocês são as mesmas flores que morreram no frio ou são diferentes?” As flores responderam para mim: “Thay, não somos as mesmas nem somos diferentes. Quando as condições são suficientes nos manifestamos e quando as condições não são suficientes nos escondemos. É tão simples quanto isso.”

Isto é o que o Buda ensinou. Quando as condições são suficientes as coisas se manifestam. Quando as condições não são mais suficientes as coisas se retiram. Elas esperam até o momento certo para elas se manifestarem novamente.

Antes de dar a luz a mim, minha mãe havia ficado grávida de outro bebê. Ela o perdeu e aquela pessoa não nasceu. Quando eu era pequeno costumava perguntar: era meu irmão ou era eu? Quem estava tentando se manifestar naquela época? Se um bebê foi perdido significa que as condições não eram suficientes para ele se manifestar e a criança decidiu se retirar de forma a esperar por melhores condições. “É melhor eu me esconder, voltarei em breve, meu querido.” Temos que respeitar sua vontade. Se você vê o mundo com estes olhos, sofrerá muito menos. Foi meu irmão que minha mãe perdeu? Ou talvez eu estava quase por vir mas eu disse: “Não é a hora ainda.” Portanto me retirei.

Nosso grande medo é que quando morrermos nos tornaremos nada. Muitos de nós acreditam que nossa existência inteira é apenas o nosso tempo de vida, começando no momento que nascemos ou fomos concebidos e termina no momento que morremos. Acreditamos que nascemos do nada e que quando morremos nos tornaremos nada. E, portanto, estamos cheios do medo da aniquilação.

O Buda tem um entendimento muito diferente de nossa existência. É o entendimento que nascimento e morte são noções. Elas não são reais. O fato de pensarrmos que são verdadeiras cria uma poderosa ilusão que causa nosso sofrimento. O Buda ensinou que não há nascimento nem morte; não há vinda nem ida; não há igual, e não há diferente; não há eu permanente, não há aniquilação. Apenas achamos que há. Quando entendemos que não podemos ser destruídos, estamos libertos do medo. É um grande alívio. Podemos desfrutar da vida e apreciá-la de uma nova maneira.

O mesmo ocorre quando perdemos nossos entes queridos. Quando as condições não estão certas para suportar a vida, eles se retiram. Quando perdi minha mãe, sofri muito. Quando temos apenas 7 ou 8 anos de idade é difícil pensar que um dia perderemos nossa mãe. Ao final crescemos e todos perderemos nossas mães, mas se soubermos como praticar, quando a hora da separação chegar você não sofrerá muito. Rapidamente você perceberá que sua mãe está sempre viva dentro de você.

No dia que minha mãe faleceu, escrevi no meu diário. “Um sério infortúnio da minha vida chegou.” Sofri por mais de um ano depois de sua passagem. Mas uma noite, nas terras altas do Vietnã, estava dormindo na cabana de meu eremitério. Sonhei com minha mãe. Vi-me sentado com ela e estávamos tendo uma conversa maravilhosa. Ela parecia jovem e bonita, seu cabelo esvoaçante. Era muito prazeroso sentar lá e conversar com ela como se nunca tivesse morrido.

Quando acordei eram duas da manhã e eu senti fortemente que nunca havia perdido minha mãe. A impressão que ela estava ainda em mim era muito clara. Entendi então que a idéia de tê-la perdido era apenas uma idéia. Era óbvio naquele momento que minha mãe estava viva em mim.

Abri a porta e sai. Toda a colina estava banhada pela luz da lua. Era uma colina coberta com plantações de chá, e minha cabana estava localizada atrás do templo, no meio da colina. Andando devagar na luz da lua através da plantação, percebi que minha mãe estava ainda em mim. Ela era a luz da lua me acariciando assim como fazia frequentemente, muito carinhosa, muito doce…maravilhosa!

Cada vez que meus pés tocavam a terra, sabia que minha mãe estava lá comigo. Sabia que este corpo não era só meu, mas uma continuação viva da minha mãe e do meu pai e dos meus avós. Todos os meus ancestrais. Estes pés que eu via como meus eram na verdade nossos pés. Juntos minha mãe e eu estávamos deixando pegadas no solo.úmido.

Daquele momento em diante, a idéia que eu tinha perdido minha mãe nunca mais existiu. Tudo que eu tenho que fazer é olhar para a palma da minha mão, sentir a brisa no meu rosto ou a terra sob meus pés para me lembrar que minha mãe está sempre comigo, disponível a qualquer momento.

Quando você perde um ente querido, você sofre. Mas se souber como olhar em profundidade, tem a chance de perceber que a natureza dele é a do não nascimento e não morte. Há manifestação e há a cessação da manifestação. Você tem que ser muito perspicaz e muito alerta para reconhecer as novas manifestações de uma pessoa. Mas com a prática e com esforço você pode fazer.

Portanto, pegando na mão de alguém que conheça a prática, faça uma meditação caminhando com ela. Preste atenção em todas as folhas, as flores, os pássaros e gotas de orvalho. Se puder parar e olhar profundamente, será capaz de reconhecer seu amado se manifestando novamente e novamente em muitas formas. Você novamente abraçará a alegria da vida.

Um cientista francês, cujo nome era Lavoisier, declarou, “Nada se perde, nada se cria”. “Nada nasce, nada morre.” Embora ele não praticasse como um budista, mas como um cientista, ele descobriu a mesma verdade que o Buda. Nossa natureza verdadeira é de não nascimento e não morte. Apenas quando tocamos nossa verdadeira natureza podemos transcender o medo de não ser, o medo da aniquilação.

O Buda disse que quando as condições são suficientes, algo manifesta e dizemos que existe. Quando uma ou duas condições falham e a coisa não se manifesta do mesmo modo, então dizemos que não existe. De acordo com o Buda, para qualificar algo como existente ou não é errado. Na realidade, não existe uma coisa que exista totalmente ou não exista totalmente.

Podemos ver isso muito facilmente com a televisão e o rádio. Podemos estar em uma sala que não tem televisão ou rádio. E enquanto estamos nesta sala podemos pensar que os programas de rádio ou TV não existem naquela sala. Mas todos sabemos que o espaço da sala está cheio de sinais. Os sinais desses programas estão em todo lugar. Precisamos apenas de uma condição a mais, um aparelho de TV ou rádio, e muitas formas, cores e sons aparecerão.

Seria errado dizer que os sinais não existem porque não temos um aparelho para receber os sinais e manifestá-los. Eles apenas parecem não existir porque as causas e condições não eram suficientes para fazer os programas se manifestarem. Portanto naquele momento, naquela sala, dizemos que eles não existem. Não é porque não percebemos algo que podemos dizer que ele não existe. É apenas nossa noção de ser e não ser que nos faz pensar que algo existe ou não. Noções de ser ou não ser não podem ser aplicadas a realidade.

É como a noção de abaixo e acima. Dizer que elas existem é também errado. O que está abaixo de nós está acima de outro, em algum lugar. Estamos sentados aqui e dizemos que acima é a direção acima de nossas cabeças e pensamos que a direção oposta é abaixo.

Pessoas praticando meditação sentada no outro lado do mundo não concordariam que o que chamamos acima seja assim porque para eles é abaixo. Eles não estão sentados sob suas cabeças. As idéias de abaixo e acima também significam estar acima de algo ou abaixo de algo, e essas idéias não podem ser aplicadas a realidade do cosmos. Estes são apenas conceitos para nos ajudar a nos relacionar com nosso ambiente. Elas são conceitos que nos dão um ponto de referência, mas elas não são reais. A realidade é livre de todos os conceitos e idéias.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

11 Comentários

  • Ainda precisamos dos conceitos para traduzir o mundo em que vivemos e o Mestre acima é grande tradutor e sinalizador de nossas ilusões. Lindo texto.

    Por enquanto, seguindo a cartilha de Veríssimo: “Meu Rei: morrer é a última coisa que eu quero que me aconteça!” :)

    (seguindo com um pé na realidade e outro … não!)
    Norma

  • Texto instigante! Desperta da ilusão do “indivíduo limitado” que aí sim se auto-limita e egocentriza, que custa a observar a realidade única, universal e atemporal. Textos como esse nos fazem entender o “real conceito” (?) do coletivo.
    Obrigada por compartilhá-lo!

  • Se buda tivesse tanto poder assim, eu teria levitado ao seu chamado, mas meu Deus é único e me prendeu no solo,quanta ilusão de algo que domina suas mentes ,mas provida da minha rejeitei seu chamado e dispensei sua imagem de saciedade com seu abdome crescido,em um canto pelas ruas, mas nenhuma alma se animou em resgata-la,e assim rolou pelas ruas sem ninguém se animar a pegara, até que o lixeiro a pega e leva embora

    • Não sei se entendi, Maribel. Parece um pouco criptografado. Mas o Buda que tem poder é a natureza dele que está em você, não algo deificado lá fora, único ou não.

      PS: O abdome crescido é um símbolo que não existe no Budismo clássico, essa é uma adaptação da cultura chinesa e possui características que não são as que tratamos muito aqui.

      Saudações.

    • Oi Maribel,

      Eu não teria mais nada a acrescentar ao reply do Nando. Simples e abragente.
      Talvez, comentar contigo, que o Budismo que professo, por exemplo, não tem imagens representativas. Apenas um objeto de devoção: Um pergaminho (Gohozon) sobre o qual Nitiren Daishonin escreveu:”Nunca procure o Gohonzon em outros lugares. Ele somente pode habitar no coração das pessoas comuns como nós (…)
      (END, vol.I, pág. 325)
      Essa compreensão é o que o budismo chama de iluminação.

      Boa Sorte, Norma

      Obs.: Por uma associação que a tua frase:”mas nenhuma alma se animou em resgata-la,e assim rolou pelas ruas”, me trouxe a lembrança do hábito de se presentear com ‘pets’, comprados por impulso, como se não fôssem seres vivos, princ. nessa época. Então, independente da religião abraçada, lembrem-se: “Abandono…A espécie pode ser diferente, mas a dor é a mesma.”
      Nac.

  • Ótimo texto. Estou estudando sobre religioes e achei fascinante este tipo de pensamento. Nunca havia pensado assim. Minha família por parte de pai são budistas, mas nunca tive vontade de conhecer.

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