Futilidade, conflitos, sensação de desperdício: os sinais do progresso em nossa prática, por Dzongsar Jamyang Khyentse

Muitas vezes, quando pessoas dedicadas ao crescimento espiritual se deparam com crescentes sensações e eventos aparentemente “negativos” em seus caminhos, ficam confusas ou mesmo desapontadas, e é essa percepção que o lama budista butanês Dzongsar Jamyang Khyentse Rinpoche explora num dos trechos de seu novo livro, “Not For Happiness: A Guide to the So-called Preliminary Practises” (tradução livre “Não Pela Felicidade: Um Guia para as Chamadas Práticas Preliminares”). Num curto e direto texto traduzido e publicado originalmente no site Dharma.Info, Dzongsar Jamyang Khyentse fala dos sinais do progresso em nossa prática, tanto os mais harmoniosos, como a devoção, quanto outros menos esperados como a “percepção da futilidade de tudo que você faz” e o “aumento dos conflitos”.

Apesar de estar evidente, é importante notar que Dzongsar Khyentse Rinpoche é um grande mestre e “tulku”, considerado um estágio de lama mais elevado, e Karma Chagme Rinpoche, citado nesse trecho, é também um grande mestre de uma linhagem antiga do Budismo Tibetano, e esses sinais parecem ser mais direcionados ao contexto de quem está dedicado a alguma prática espiritual específica, geralmente num grupo e/ou com auxílio (de um professor ou mestre), embora possam se aplicar ao estudante autônomo. É recomendável ter cuidado e muito discernimento para não acabar usando esse ensinamento para concluir que qualquer sensação de futilidade e conflito sejam “evolução”, pois algumas vezes são apenas as usuais frustrações egóicas e acabam alimentando atitudes como as de julgamento e divisão.

“Você pratica meditação porque quer se sentir bem? Ou para ajudar a relaxar e ser “feliz”? Então francamente, de acordo com Dzongsar Jamyang Khyentse, você estará melhor indo atrás de uma massagem de corpo inteiro do que tentando praticar o Dharma”.
~ “Not For Happiness: A Guide to the So-called Preliminary Practises” (da descrição do livro)

Segue o trecho:

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“Sinais de Progresso em Nossa Prática”
Por Dzongsar Khyentse Rinpoche

Quais são os sinais de progresso em nossa prática? O que podemos esperar? Devemos aguardar um sinal do guru? Uma recompensa?

Segundo Karma Chagme Rinpoche, não teremos nenhuma experiência, nenhum sonho especial, nenhuma visão pura. O “rei de todos os sinais” — também conhecido como “sinal do não-sinal”, tão estimado pelos mestres Kagyupa do passado — é quando a mente de renúncia, a tristeza e a devoção queimam em sua mente.

Os sinais a serem mais estimados incluem um apetite crescente pela prática do darma; a percepção da futilidade de tudo que você faz; os conflitos que só aumentam, como resultado de antigos hábitos; e, embora ainda tenha o impulso de festejar com os amigos, ser atormentado pela sensação inoportuna de que a coisa toda é um inútil desperdício de tempo.

Então, não fique sempre mirando a finalização da prática. Em vez disso, tente aceitar que sua jornada espiritual não vai acabar nunca. Sua jornada começa com a aspiração de que você, pessoalmente, traga todos os seres sencientes à iluminação, então — até que essa aspiração seja preenchida — suas atividades como um bodisatva jamais vão acabar.

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Compartilhado por Mirna Grzich

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Um Budista seguidor de Nitiren Daishon, sentado em frente ao seu Butsudan (oratório), após seu Gongyo (leitura Sutra de Lótus – Capítulos Hoben e Juryo) e a recitação (” A voz faz o trabalho do Buda”) – do seu Daimoku (NAM-MYOHO-RENGUE-KYO = Devotar-se à Lei Mística da Causa e Efeito – exposta pelo Buda no Sutra de Lótus ), contemplando o seu Gohonzon (objeto de devoção – é um diagrama em pergaminho)

    1 – No Gosho – escritura – “Resposta a Dama Nitinyo” diz: “Nunca procure este Gohonzon em outros lugares. Ele somente pode habitar no coração das pessoas comuns como nós que abraçam o Sutra de lótus e recitam o Nam-Myoho-Rengue-Kyo. O corpo é o Palácio da Nona Consciência, a entidade que fundamentalmente revela sobre todas as funções espirituais do homem”.

    2 – Saddharma Pundarika Sutra é título original do Sutra de Lótus em Sânscrito
    Ele foi traduzido no ano 406 por Kumārajīva recebendo em chines o nome de Myoho-Rengue-Kyo

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    “traga todos os seres sencientes à iluminação, então — até que essa aspiração seja preenchida — suas atividades como um bodisatva jamais vão acabar.”

    3 – “No estudo dos Dez Estados de Vida, o nono estado, o Estado de Bodhisattva (Bosatsu).
    Uma pessoa na condição de vida de Bodhisattva manifesta uma vida plena de benevolência, pois sua característica é dedicar-se à felicidade das demais.
    Literalmente Bodhi significa sabedoria do Buda, e sattva, seres sensíveis.Os Bodhisattvas da Terra, quando vistos em termos da sua atividade prática, são aqueles que dedicam toda a sua energia para a felicidade das outras pessoas. Em essência, todavia, em suas vidas está manifestada a natureza do Buda.

    Buda meditava a esse respeito:

    Sutra de Lótus (Sakyamuni o Buda)
    em seu Capítulo Juryo Juryo – Revelação da vida eterna do Buda Parte em verso do 16º capítulo, termina:

    “Medito Constantemente
    Como posso conduzir as pessoas ao caminho supremo e
    fazer com que adquiram rapidamente o corpo de um Buda?”

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    a percepção da futilidade de tudo que você faz; os conflitos que só aumentam, como resultado de antigos hábitos; e, embora ainda tenha o impulso de festejar com os amigos, ser atormentado pela sensação inoportuna de que a coisa toda é um inútil desperdício de tempo.

    Recomendação de N.Daishonin para essa situação:

    “Sofra o que tiver que sofrer, desfrute o que tiver de ser desfrutado, considere tanto o sofrimento como a alegria como fatos da vida, e continue orando o NAM-MYOHO-RENGUE-KYO, não obstante o que aconteça.”

    Nitiren Daishonin (O Buda Original)

    Há uma alegoria que explica o aumento dos conflitos na vida de um praticante inicial como se fosse um copo d’água com um depósito de carvão no fundo. Ele aparenta estar limpida, porém a medida que se inicia a prática, trabalhando os pontos que se faz necessário, ela agita-se e se turva. Com a perseverança (Fé, Prática e Estudo) ela se tornará integralmente pura.

    Grata, Norma

  • Estou lendo “Além do Divã Ocidental” de Trumgpa Rinpoche onde ele diz que “todos os seres humanos tem dentro de si os recursos para curar a si mesmos num nível profundo. (…) Todos nós já nascemos sadios (…) estamos sãos neste exato momento” Engraçado é que o título do livro em inglês é “The Sanity We Are Born With” ou seja, a sanidade com a qual nascemos. Então, creio que a questão esteja mesmo nos obscurescimentos, na ignorância básica de cada um de nós. Tomara mesmo que um dia, qualquer dia, todos os seres possam se ver livres dos conflitos, do sofrimento, enfim.
    Tashi delek!

  • Nando,
    O texto do Sri Aurobindo é excelente. Muito obrigada.

    O Dharmalog “cares”, com o sentido de SAWABONA, o cumprimento usado na África do Sul e quer dizer:
    “EU TE RESPEITO, EU TE VALORIZO,VOCÊ É IMPORTANTE PRA MIM”.
    e cuja a resposta é SHIKOBA – que é:”ENTÃO, EU EXISTO PRA VOCÊ”.
    E isso é muito bom para o crescimento de todos.Flui.
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    Olha,virou, mexeu a gente esquece que não há estados “bons” nem “maus” no Universo. São apenas isso, estados e que eles são temporários. Nada é imutável, nada permanece estático.

    A forma como uma coisa muda depende da gente e como diz o Budismo do Sol
    no Gosho Lua de Outono:

    “Empenhe-se no desenvolvimento da fé até o último dia da sua vida. Caso contrário, arrepender-se-á.
    Por exemplo, a viagem de Kamakura a Quioto leva doze dias. Se viajar durante onze dias e parar antes de completar o décimo-segundo dia, como poderá admirar a lua da linda capital?”

    Boa Sorte!
    Norma

  • Not For Happiness… me lembrou um trecho do Tao Te Ching:

    O Mestre não busca satisfação.
    Não buscando, não expectando,
    apenas está presente, e pode acolher bem todas as coisas.

    Namastê!

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