Como é o caminho do auto-conhecimento (2), segundo Sri Aurobindo

A primeira vez que li esse trecho do livro “A Lei do Caminho“, de Sri Aurobindo (1872-1950), fiquei assustado. A ênfase que ele dá às dificuldades da jornada do auto-conhecimento é tamanha que ninguém em sã consciência pareceria querer enfrentar isso. A não ser que julgasse ser, realmente, o propósito da vida. Mais que fantasias do ego, mais que o desejo da vida inferior, mais do frutos do Poder do Yoga, está o propósito da vida, o verdadeiro chamado da alma.

O discurso de Aurobindo impressiona pela quantidade de “terrores” que parece haver à frente do caminhante, como se estivéssemos atravessando um poderoso vale de desafios que unem forças terrenas e diabólicas. Para isso, Aurobindo usa expressões fortes, como quando diz que “o Inferno vomitará suas hordas para opor e cercear e ferir e ameaçar”, ou quando diz que “milhares de inimigos, vistos e não vistos, lançar-se-ão contra ti, terríveis em sua sutileza contra tua ignorância”. Algumas dessas expressões estão negritadas por mim abaixo.

Boa leitura e força na caminhada.

Primeiro esteja certo do chamado e da resposta de tua alma. Se o chamado não for verdadeiro, não for o toque dos poderes de Deus, ou a voz de seus mensageiros, mas a ilusão de teu ego, o fim de teus esforços será um pobre fiasco espiritual ou até mesmo um desastre mais profundo. E se não for o fervor da alma, mas apenas o consentimento ou o interesse da mente que responde às intimações divinas, ou somente o desejo da vida inferior que se agarra a algum aspecto da atração dos frutos do Poder do Yoga (ou do prazer do Yoga), ou apenas uma emoção transitória, que salta como uma chama insegura, movida pela intensidade da Voz ou sua doçura ou grandeza, então, também, pode haver pouca certeza para ti no difícil caminho do Yoga.

 

Os instrumentos exteriores do homem mortal não têm força para levá-lo através dos ardores severos desta jornada espiritual e da titânica batalha interior, ou para enfrentar suas provações terríveis e obstinadas, ou encorajá-lo a vencer seus perigos sutis e tremendos. Somente a vontade firme e venerável do espírito e o fogo insaciável do ardor invencível de tua alma é que são suficientes para esta transformação difícil e este empreendimento elevado e improvável.

 

Não imagines que o caminho seja fácil; a senda é longa, árdua, perigosa e difícil. A cada passo existe uma emboscada, em cada curva uma cilada. Milhares de inimigos, vistos e não vistos, lançar-se-ão contra ti, terríveis em sua sutileza contra tua ignorância, tremendos no poder contra tua fraqueza. E quando com dor conseguires destruí-los, outros milhares lançar-se-ão para tomar seu lugar. O Inferno vomitará suas hordas para opor e cercear e ferir e ameaçar; os Céus enfrentar-te-ão com seus testes impiedosos e suas negações luminosas e frias.

 

Encontrar-te-ás sozinho em tua angústia, os demônios furiosos em teu caminho, os Deuses relutantes acima de ti. Antigos e poderosos, cruéis, inconquistáveis e próximos e inumeráveis são os Poderes terríveis e escuros que lucram com o reino da Noite e da Ignorância, que não querem mudança e são hostis. Longínquos, lentos em chegar, distantes e poucos e breves em suas visitas, são os Luminosos que querem e são permitidos dar socorro.

 

Cada passo para frente é uma batalha. Há descidas precipitadas, há ascensões infindáveis e sempre picos e picos mais elevados para conquistar. Cada planalto escalado é apenas um estágio no caminho e revela, além, alturas sem fim. Em cada vitória que tu pensas ser a última luta triunfante, evidencia-se somente o prelúdio de batalhas perigosas e centenas de vezes mais ferozes. Mas tu não disseste que a mão de Deus estará comigo e a Divina Mãe perto com seu gracioso sorriso de socorro? E não sabes tu que a Graça de Deus é mais difícil de ter e de conservar que o néctar dos Imortais ou os tesouros inestimáveis de Kuvera?

 

Pergunta a teus escolhidos e eles dir-te-ão quantas vezes o Eterno escondeu deles Sua face, quão frequentemente Ele se retirou para trás de seu véu misterioso e eles se encontraram sozinhos nas garras do Inferno, solitários no horror da escuridão, expostos e sem defesa na agonia da batalha.

 

E se sua presença for sentida por trás do véu, todavia é como o sol de inverno por trás das nuvens e não salva da chuva e da neve e da tempestade calamitosa e do vento áspero e do frio cortante e da atmosfera de um cinzento doloroso e da monotonia parda e enfadonha. Sem dúvida o auxílio existe, mesmo quando parece ter se retirado, mas ainda há a aparência da noite total, sem um sol para chegar, e sem a estrela da esperança para dar prazer na escuridão.

 

Bela é a face da Divina Mãe, mas ela também pode ser dura e terrível. Mas é, então, a imortalidade um brinquedo para ser dado levianamente a uma criança, ou a vida divina um prêmio sem esforço ou a coroa para um fraco? Esforça-te corretamente e conseguirás; confia e tua confiança acabará justificada; mas a Lei terrível do Caminho existe e ninguém pode derrogá-la.
~ Sri Aurobindo, em “The Law Of The Way” (*)

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Leia também “Como é o caminho do auto-conhecimento” (1), por Baghwan Sri Sathya Sai Baba.

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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