Ser livre de gostar e desgostar: a filosofia do “Raga-Dvesha” explicada pelo yogue Swami Sivananda

Em um post anterior, intitulado “Ninguém alcança felicidade verdadeira sem desapego (Vairagya)” o sábio yogue Sri Swami Sivananda (1887-1963) explicou a importância do desapego e citou rapidamente o conceito de raga-dvesha, ou o conceito de “afeição e aversão” (gostar e desgostar). Segundo ele, esta é o próprio fundamento do mundo da ilusão e realidade que, segundo ele, impede os seres humanos de alcançar a felicidade. Neste texto “A Filosofia do Raga-Dvesha” (The Philosophy of Raga-Dvesha), Sivananda se aprofunda um pouco e diz que não é possível haver nem paz nem equilíbrio nem iluminação enquanto estivermos presos nas ondas do apego ao gostar e desgostar.

Parece um desafio imenso ou mesmo impossível em nosso dia-a-dia de escolhas por atrair o prazeroso e evitar o doloroso, mas é importante entender que desapego é esse, diferente daquele que a cultura ocidental normalmente entende. Ademais, Swami Sivananda não aponta outra saída, dizendo que o “próprio Samsara” é criado por isso. O mesmo Samsara do Buda, que diz em sua Terceira Nobre Verdade que “o sofrimento cessa quando o apego cessa“.

No texto abaixo, Sivananda ensina o que precisa ser feito para que o conhecimento, o amor e o desapego sejam desenvolvidos, e, consequentemente, o mundo de Raga-Dvesha seja dominado. Em alguns pontos pode parecer um texto dirigido principalmente a estudantes ou praticantes do Yoga, mas é uma sabedoria universal que pode ser útil e inspiradora para todos.

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A FILOSOFIA DO RAGA-DVESHA
Por Sri Swami Sivananda

Raga e Dvesha (gosto e aversão) sozinhos constituem este Samsara ou este mundo de fenômenos. Podem ser totalmente destruídos pelo conhecimento de Brahman (o Absoluto).

Raga-Dvesha é um Vasana (desejos em forma sutil). Tem quatro estados. Raga-Dvesha, Vasanas, Samskaras e Gunas são entrelaçados. Eles coexistem. O lugar de Raga-Dvesha é a mente e seus sentidos. A destruição de um levará à destruição dos outros. Mas a destruição da fonte, Avidya (“ignorância”) ou Ajnana (“conhecimento falso”), a semente do Samsara, através de Brahma-Jnana (“conhecimento da alma”) destruirá tudo até sua última raiz.

O cultivo de virtudes como Maitri (“amizade”), Karuna (“compaixão”), Mudita (“alegria”) e Upeksha (“indiferença”) pode reduzir ou atenuar Raga-Dvesha. Este é o Pratipaksha-Bhavana method (método para conquistar o medo) ou cultivo de qualidades positivas opostas dos Raja Yogues.

A desturição de Avidya leverá à destruição de Raga-Dvesha. Raga e Dvesha são as modificações ou efeitos de Avidya ou ignorância.

O fogo da devoção também pode queimar Raga-Dvesha. A prática de Nishkama Karma Yoga ou serviço altruísta desinteressado pode reduzir Raga-Dvesha enormemente.

Mate Raga (apego) pela espada de Vairagya (desapego ou ausência de paixão ou indiferença aos objetos sensuais) e Dvesha desenvolvendo Amor cósmico.

Raga-Dvesha assume várias formas. Você gosta de algumas comidas e não gosta de outras. Você gosta de certos lugares e não gosta de outros. Você gosta de certas pessoas e não gosta de outras. Você gosta de certos sons e não gosta de outros. Você gosta de certas cores, mas não gosta de outras. Você gosta de coisas suaves e não gosta de coisas duras. Você gosta de elogio, respeito, honra, e não gosta de censura, desrespeito e desonra. Você gosta de uma religião, de uma visão, de uma opinião e não gosta de outras religiões, visões e opiniões. Você gosta de confortos, prazeres e não gosta de desconforto e dor. Por isso não há paz mental para você pois a mente está sempre inquieta e agitada. As ondas de Raga-Dvesha sempre desequilibram a mente. Uma onda de Raga-Dvesha aparece na mente e se vai um tempo depois. Novamente uma outra onda aparece, e assim por diante. Não há equilíbrio na mente. Não há paz. Aquele que destrói Raga-Dvesha será para sempre feliz, pacífico, alegre, forte e saudável. Só aquele que é livre de Raga-Dvesha terá uma vida longa. Raga-Dvesha é a causa real de todas as doenças (Adhi e Vyadhi).

Onde houver prazer, há Raga; onde houver dor, há Dvesha. O homem quer permanece em contato próximo com aqueles objetos que lhe dão prazer. Ele se afasta daqueles objetos que lhe dão dor.

Apesar dos objetos que causam dor estarem distantes de você, a memória dos objetos lhe darão dor. Somente com a remoção das correntes de Dvesha que você terá felicidade. É o Vritti ou onda-pensamento que dá dor e não os objetos. Portanto tente destruir a corrente de Dvesha desenvolvendo amor cósmico e Brahma-bhavana (“contemplação do Absoluto”) ou Isvara-bhavana (idem) em todos os objetos. Então o mundo inteiro aparecerá para você como a manifestação de Deus. O mundo ou o objeto mundano não é bom nem mau, mas é sua mente instintiva mais baixa que o torna bom ou mau. Lembre deste ponto bem, sempre. Não ache erro com o mundo ou os objetos. Ache erro com sua própria mente.

A destruição de Raga-Dvesha significa a destruição da ignorância ou da mente e sua idéia do mundo.

Nenhuma meditação, nenhuma paz, nenhuma iluminação é possível para um homem que não removeu essas duas correntes, esses dois inimigos da paz, do conhecimento e da devoção.”

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[ Foto por assbach, licença BY-NC-SA ]
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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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