Seja como um leão: instruções para a meditação e para a vida, de Jetsün Milarepa

“Quando você corre atrás dos seus pensamentos, você é igual um cachorro atrás de um pedaço de pau: cada vez que o pedaço de pau é jogado, você corre atrás. Ao invés disso, seja como um leão, que ao invés de correr atrás do pedaço de pau, se volta para aquele que jogou. Prum leão, você só joga um pedaço de pau uma vez”.
JETSÜN MILAREPA (1052-1135)

Não sei se todos entendem exatamente o que se quer dizer com “correr atrás dos pensamentos”, que é uma instrução comum na meditação. Basicamente, é se envolver com o pensamento. Se envolver com ele sem criar nenhuma consciência de que se está envolvido nele. É correr atrás do significado dos pensamentos, das implicações que eles tentam afirmar, sejam eles quais foram. É colocar a atenção da consciência toda na história que eles estão contando, e na maioria das vezes apenas imaginando coisas, uma atrás da outra. Então, mesmo que você tenha discernimento, ele estaria concentrado totalmente dentro da história trazida pelo pensamento, e não na consciência de que aquele é apenas um pensamento acontecendo. O resultado disso é que confundimos pensamento e realidade, ao ponto de não saber mais o que é o que.

Quando o leão se volta para o pensador, ele não demonstra qualquer interesse pelo pedaço de pau, seja ele qual for. Pode ser um pensamento de preocupação, de desejo, de esperteza, de planejamento, do que for. O leão sequer olha. E sequer pensa: “mais um pensamento foi jogado, mas eu resistirei”. Ele simplesmente mantém a atenção no principal. Um leão não busca nada.

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Psicoterapeuta, jornalista, autor de "Para Abraçar a Prática".

2 Comentários

  • A identificação com o pensamento foi (é) o mais difícil pra mim, aquela sensação de que “EU” estou pensando, “EU” estou cantarolando essa musica na cabeça, “EU” lembrei de tal coisa… esta identificação surge tão natural e espontânea que chega a ser prazerosa. Olhar para esse “EU QUE PENSA” é como tentar espiar por detrás da cortina do palco, por un instante apenas, até surgir um aplauso, uma gargalhada, ou uma vaia,… e voltamos pra ver o que se passa novamente no palco. A astúcia do “EU” tbm é muito difícil de superar, estamos tão identificados que no primeiro sinal de sucesso na busca, surge aquele pensamento “maravilhoso”: EU CONSEGUI

    • Sim, Edvaldo, é tentador e difícil de mudar. Desculpe tirar sua especialidade, rs, mas imagino que seja assim pra todo mundo. Essa é parte da artimanha do ego: o prazer da autoria e do controle. Mas como isso é espuma, estamos fadados a sofrer desse mesmo “prazer”. Podemos esperar que o sofrimento repetitivo nos reoriente a olhar como o leão, depois de muito nos comportarmos como cachorros. Ou não.

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