Conselhos para jovens meditadores, por Chögyam Trungpa Rinpoche

Um dos mais célebres mestres budistas a ensinar no Ocidente, precursor do Budismo na Inglaterra e nos Estados Unidos, o tibetano Chögyam Trungpa Rinpoche (1939-1987) é uma referência em praticamente qualquer assunto que você possa se interessar na busca do auto-conhecimento  — mesmo que você não seja budista. No ensinamento transcrito abaixo, Chögyam Trungpa fala sobre meditação para um grupo de jovens, no ano de 1979, no Vajradhatu Seminary, em Lake Louise, Alberta (Canadá). O grupo tinha acabado de fazer uma meditação de duas horas, e depois pode fazer algumas perguntas (que também estão transcritas).

O Vajradhatu era um seminário que reunia os ensinamentos particulares de Trungpa para sua comunidade budista, e existiu com esse nome entre 1973 e 1990 (depois disso se tornaria Shambhala International). Por isso a instrução segue a abordagem da meditação como é ensinada na tradição do Budismo Vajrayana, que mantém diferenças de outras escolas dentro e fora do Budismo. É importante considerar essas diferenças, principalmente se você já segue alguma outra escola e tem instruções específicas objetivas a respeito da meditação. De qualquer maneira, os conselhos de Trungpa são valiosos e muitos deles são válidos para qualquer caminho que se trilhe.

A transcrição foi publicada originalmente em inglês no site da Lion’s Roar, em 1997 (Advice given to young meditators by Chögyam Trungpa Rinpoche, 1979), e consta do Volume Dois do compêndio “Collected Works of Chögyam Trungpa Rinpoche” (capítulo “Selected Writings”). Foi traduzido para o português pelo Dharmalog para este post. Segue abaixo.

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CONSELHO DADO A JOVENS MEDITADORES
Por Chögyam Trungpa Rinpoche, 1979

Alguém já falou com vocês sobre meditação? A idéia básica da prática meditação sentada é que foi o que o Buda fez, e por causa disso ele atingiu a iluminação. Esse é o ponto essencial. E fomos ensinados a como praticar daquele jeito também, para que nós também possamos alcançar a iluminação.

Uma das idéias básicas é que, geralmente, quando estamos no mundo, queremos um monte de coisas e não conseguimos. E às vezes ficamos irritados com as outras pessoas. Então queremos destruí-las. Às vezes temos tanto desejo de conseguir algo. Todas essas coisas são chamadas de obstáculos à meditação. Elas são os problemas que nós enfrentamos.

Por causa dessas coisas sofremos bastante e ninguém está basicamente confortável consigo mesmo, porque estão cheios de todos esses sentimentos de raiva, paixão e todo o resto. Algumas pessoas dizem que são felizes, mas, ao mesmo tempo, estão sempre intranquilas e no fundo de si mesmas estão sofrendo muito. Tal dor e sofrimento vem de ter muitos pensamentos e a confusão da paixão, agressão e ignorância — o que é chamado de ego. Vocês conhecem isso: o ego? Certo.

A idéia da meditação não é necessariamente se livrar desses pensamentos e sentimentos de imediato, mas simplesmente trabalhar com eles. Conforme você senta, primeiro você começa a sentir uma sensação de si mesmo. Então, conforme você senta mais e mais, você começa a ver vários pensamentos aparecendo. Apenas olhe pra eles e não necessariamente elimine-os nem os cultive, mas retorne à sua respiração.

Manter a postura da meditação é fazer o que o Buda fez. A idéia é que se você fizer gesto de boa postura, isso vai fortalecer seu senso de disciplina e presença. E então, experimentando isso, você sente sua respiração, e vai em frente com a respiração. A idéia básica é que você não tenha que afastar os pensamentos, mas você pode quase ficar por baixo deles. A partir disso você pode desenvolver um certo senso de calma, mas às vezes ela desaparece. É como tentar pegar um peixe com as mãos nuas. Ele escorrega.

A idéia é permanecer com a disciplina e lentamente superar, em primeiro lugar, o processo do pensamento, e então, depois disso, lentamente superar  a paixão, a agressão e a ignorância, até que, em algum ponto, eles comecem a se tornar insignificantes — até que não sejam mais grande coisa.

Então seu ego começa a diminuir um pouco, se torna menos, se torna menos ego. Você começa a ter um vislumbre do que chamamos de ausência de ego, que é o primeiro passo em direção à iluminação. Para realizar isso, você também tem que trabalhar com as situações da sua vida cotidiana. Às vezes, quando você não está praticando sentado, você pode repentinamente desenvolver atenção plena. Quando isso acontece, olhe para si mesmo tente permanecer calmo, com algum sentido de não se apegar a nada; apenas fique firme, parado. Isso não necessariamente significa dizer que você tenha que ficar fisicamente parado, mas sim psicologicamente.

Se você está prestes a entrar numa briga, apenas pisque e então fique parado (psicologicamente). A idéia de querer entrar numa briga começa a se dissolver, e, no seu lugar, por causa disso, a pessoa começa a desenvolver o que é conhecido por compaixão. Você começa a ter mais confiança em si mesmo, menos destrutividade em si mesmo, e menos dor. E porque você tem menor dor, você pode comunicar isso às outras pessoas. Trabalhar sobre si mesmo dessa maneira, por sua vez, você começa a trabalhar com os outros. Esse parece ser o ponto básico do porque você tem que praticar meditação.

Se vocês tiver perguntas, são bem-vindas.

PERGUNTA: Porque você segue sua respiração, e concentra-se na sua respiração, ao invés do seu dedo, ou qualquer outra coisa?

CHÖGYAM TRUNGPA: Sim, bem… Esse é um bom ponto.  Veja, na real a respiração é uma comunicação entre sua mente e corpo. O corpo é sólido demais para se concentrar nele, porque está num nível muito grosseiro. E você não pode se focar na mente, porque está constantemente se movendo. Por isso a respiração em algo entre eles, que comunica-se com o corpo e a mente igualmente.

PERGUNTA: Pensei que quando você atingisse o estado sem-ego você estaria iluminado, mas ao invés disso, é apenas um passo em direção à iluminação?

Bem, é como remover uma nuvem. O sol já está lá, mas isso é como remover as nuvens. Então você tem o sol, mas o ego é uma camada ou cobertura, ao invés de algo fundamental. Portanto, basicamente somos bons mas estamos cobertos. Por isso estamos removendo essas coberturas. É por isso que você pode de fato desfazê-las. Se as nuvens fossem permanentes, você não poderia fazer anda com elas, certo?

PERGUNTA: É como ter uma mente clara.

CHÖGYAM TRUNGPA: Exatamente, isso é uma mente clara.

PERGUNTA: Mas meus pais me dizem que todas as pessoas já são iluminadas, elas só não sabem disso…

CHÖGYAM TRUNGPA: Bem, podemos dizer que sabemos que há um sol, mas ainda está muito nebuloso. Veja, essa é a única razão pela qual a iluminação é permanente: ela não é fabricada. Está lá o tempo todo. E qualquer coisa além disso, como o ego e a paixão, a agressão e a ignorância, são impermanentes. Elas vem e vão. Por isso você pode manipulá-las. E elas também voltam: às vezes quando você as remove elas voltam. Então você tem que manter limpando.

PERGUNTA: O que aconteceria se você não tivesse uma mente clara?

CHÖGYAM TRUNGPA: Você sofre bastante. Você está constantemente torturado. Sabe, as pessoas estão tentando se agradar mas não há uma maneira de fazer isso, mesmo que você seja um milionário. Fisicamente eles tem tudo que querer, muito dinheiro e uma situação confortável, mas fundamentalmente eles não são muito felizes.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Chögyam Trungpa Rinpoche é realmente muito impressionante, seus ensinamentos e palestra são muito peculiares e sua forma de apresentar os ensinamentos complexos em uma linguagem simples e feroz é sensacional, mas sua morte aos 48 anos de cirrose, me chocou bastante, talvez por ter passado por isso com familiares e meu próprio pai, fico pensando, como um grande mestre, um Vydiadhara, pôde se entregar assim para o álcool? tão jovem, …. Quem sabe?

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