“Se você olhar com atenção, o desejo sensual não funciona”: visão clara sobre o vício nos prazeres, com Ajahn Mudito

“Se você olhar com atenção, não funciona. Só funciona se você não olhar com atenção. Se você olhar com atenção, o desejo sensual desaparece. Dizem que é por isso que as danceterias tem aquelas luzes piscando, pra você não perceber o que está acontecendo. (…) Por exemplo, dançar é uma coisa muito curiosa. Eu ia numa danceteria quando era moleque, e tinha aquelas luzes que ficavam piscando assim, né. Quando a luz tá piscando, todo mundo é super legal dançando, mas tinha uma hora que a luz acendia né, e você via todo mundo dançando com a luz acesa! Nossa, que ridículo! Que coisa horrível, era muito feio. Muito feio. Então você percebe como a visão, né, a visão clara das coisas impede você de se enganar. Muitos desses prazeres requerem ignorância. Requerem não enxergar claramente”.
AJAHN MUDITO

Essa palestra do monge budista brasileiro, Ajahn Mudito, é um singular ensinamento sobre como os vícios nos prazeres dos sentidos (qualquer vício de qualquer sentido) e a visão incorreta do mundo impossibilitam o alcance da paz mental, na realidade custam essa paz mental, e como ainda podem levar a mente a uma série de outros desvirtuamentos e problemas. E quem não tem vício em prazeres dos sentidos? Isso é universal no reino humano, ainda mais na época atual dominada por um festival de entretenimento, diversão e comércio sensorial. Ouvir as palavras de Mudito trazem clareza e espaço para entendimento dessa realidade que todos vivemos, de uma forma ou de outra.

Ajahn Mudito é um raro monge brasileiro da tradição Theravada, que treinou na vida monástica na Tailândia, no monastério principal do grande Ajahn Chah (1918-1992), sob a orientação dos mestres Luang Pó LiemLuang Pó Piak. O Budismo Theravada é conhecido por ser o Budismo dos antepassados, o Budismo “mais antigo”, por assim dizer, que se baseia mais integralmente nos ensinamentos originais do Buda histórico (em Páli), e talvez possamos dizer que também é o mais renunciante e monástico deles. A fala de Mudito neste vídeo traz um pouco dessa abordagem mais Theravada sobre o desejo sensual.

O vídeo não é só rico pelos ensinamentos em si, mas também pelo estilo de fala e apresentação de Mudito, claro, com bom humor e uma peculiar capacidade de explicar as coisas com exemplos simples do cotidiano, que serve muito bem a nós. Dá pra ter uma idéia já na transcrição que abre esse post.

Encontrei Mudito “por acaso” no YouTube, há alguns anos, e assisti a alguns vídeos dele quando ele ainda estava na Tailândia, e além de ficar muito interessado no que ele falava, fiquei intrigado com a própria existência dele, um monge brasileiro tão jovem estudando na tradição da floresta, na Tailândia, com mestres de uma linhagem original, e já transmitindo com desenvoltura pro Brasil, sem aparentemente quase ninguém saber disso. E eram vídeos longos, alguns de mais de uma hora de duração, onde ele parecia falar  como se estivesse no intervalo de práticas no mosteiro (não encontrei mais esses vídeos, talvez tenha apagado). Hoje Ajahn Mudito mora no Brasil e é o líder espiritual da Sociedade Budista do Brasil, expandindo os ensinamentos do Buda de acordo com a Tradição Theravada no país. Além disso, mantém o site Dhamma da Floresta, em dhammadafloresta.org.

Vale a pena ver o vídeo, mesmo que você assisti só a 10 ou 15 minutos do total de 44 minutos. Como ele fala português, não há legendas.

“O BUDA comparava (o vício nos prazeres sensuais) a um cão roendo um osso sujo de sangue. O cão sente cheiro de comida, sente gosto de comida, mas não tem comida nenhuma ali. Ele só tá engolindo a própria saliva. Ele come, rói, rói, rói o osso, mas nunca se sente satisfeito, nunca de fato se alimenta. Então as pessoas que são viciadas em prazeres sensuais são parecidas com um cão roendo um osso sujo de sangue. Então quando você sai de noite na rua, você vê as pessoas na beira de um bar, nas danceterias, lembra dessa imagem. (…) Você refletir sobre isso frequentemente ajuda a você perder o encanto pelos prazeres sensuais, e isso inclui qualquer tipo de prazer sensual, desde o sexo até a comida, o som, as imagens, os toques, toda forma”.
Ajahn Mudito

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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