Como alguém pode ver claramente quando não vê sequer a si mesmo?

Carl Jung à beira do Lago Zurique.

Essa pergunta é de Carl Jung:

“Como alguém pode ver claramente quando não vê sequer a si mesmo e a escuridão que inconscientemente carrega dentro dele e em todas as suas atividades?”
Carl Jung (CW 11, pg 140)

Esse questionamento do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) merece ser lido, relido e decentemente assimilado por nossa consciência em tempos de cólera (ansiedade, depressão etc). Ao menos se quisermos ver claramente qualquer coisa desse mundo. A pergunta sintetiza um requisito fundamental da razão de existir de diversas áreas das ciências humanas: para a Filosofia que pesquisa o que é a realidade, para a Psicologia que busca resolver percepções, desequilíbrios e emoções no “confronto” do ser humano com a realidade, para a Espiritualidade que vê na consciência o centro da realidade e de cada ser.

Mas esse questionamento serve ainda mais para nossa saúde na vida comum, que parece estar cada vez mais ocupada por opiniões, julgamentos, idéias, conceitos, preconceitos, viés e delírios. Pouca realidade clara. E o que talvez seja ainda pior: pouco interesse em perceber que a realidade está longe do que vejo. Que realidade podemos de fato ver se não temos nenhuma visão decente do que carregamos dentro de nós? Se sequer desconfiamos que temos ressentimentos, características indesejáveis, cognições enviesadas, memórias hiper-presentes, tendências rígidas, emoções sem controle, identificações sem fim?

E quem está disposto a pensar que o que está vendo, pensando, concluindo, percebendo em geral, pode não ser a realidade tão sólida e clara que acreditar ser? Quem está disposto a admitir que pode estar nadando de braçada num oceano de ilusões, e não na piscina clara da realidade? 

Ok, talvez não exista uma tal realidade única e objetiva. Mas talvez exista uma realidade (bem) mais livre das distorções grosseiras das nossas projeções e delírios inconscientes.

Permita-me trazer aqui uma das lições de Um Curso em Milagres, uma abordagem que questiona frontalmente a realidade objetiva que pensamos que existe tão claramente. É a lição 325, que diz: “Todas as coisas que vejo refletem idéias“. Pense nisso por um instante. Ou mais de um instante. É uma afirmação poderosa. Na explicação, o livro diz:

“(…) O que vejo reflete um processo em minha mente, que se inicia com a minha ideia do que quero. A partir daí, a mente faz uma imagem daquilo que deseja, julga valioso e, portanto, busca achar. Essas imagens são então projetadas para fora, contempladas, estimadas como reais e guardadas como nossas. De desejos insanos vem um mundo insano. Do julgamento vem um mundo condenado. (…)”
— UCEM, Lição 325

Conectando isso ao legado de Jung, e ao questionamento específico deste post, podemos entender que assim como a mente projeta “aquilo que deseja e julga valioso“, ela também rejeita aquilo que não deseja e que julga sem valor. Esse sistema é um dos scripts principais do ego e faz justamente o que a lição acima diz: distorce a realidade e cria um mundo insano. Sem percebermos e desarmarmos esse sistema que opera em nós mesmos (e sustenta o mundo insano), nada pode ser visto com clareza.

Eu acrescentaria então à indagação de Jung uma segunda pergunta: quem de nós tem interesse em ver claramente a escuridão em si mesmo, a admiti-la, a acolher a própria insanidade, a escuridão que carrega em todas as suas atividades?

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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