Possibilidades para o fim da vida e a morte em “San Junipero”, episódio de Black Mirror

Esse post é uma reflexão sobre um episódio da série “Black Mirror“, intitulado “San Junipero“, e traz vários detalhes do que acontece nele, portanto, caso você tenha interesse em qualquer coisa que possa estar escrito sobre ele abaixo, e não tenha assistido ainda, sugiro que você o assista antes de continuar lendo. A série inteira está disponível no NETFLIX no momento em que esse post é publicado (maio de 2018), e os episódios podem ser assistidos separadamente, pois não há uma conexão sequencial entre eles. Apesar da série ter um tom sombrio e não raramente perturbador, esse episódio ficou conhecido como “o único episódio feliz de Black Mirror“, embora nem seja assim feliz. O que faz dele algo especialmente rico é a dramatização do que pode acontecer no fim da vida e após a morte humana, na hipótese da tecnologia ter um nível de avanço que permita essa possibilidade de sobrevivência virtual mostrada no episódio. “San Juniperoganhou dois EMMYs no ano passado, o prêmio internacional da televisão americana, nas duas únicas indicações que a série Black Mirror teve. Para alguns, como eu, é o melhor episódio da série — mas isso obviamente é bastante subjetivo. E a própria série está sendo recomendada como currículo numa das cadeiras do MIT, Massachussets Institute of Technology, nos EUA.

Curiosamente, exatamente no dia que assisti a esse episódio (com “atraso”, pois ele foi lançado há mais de um ano), uma empresa chamada Nectome anunciou que seria capaz de fazer o que o episódio idealiza: manter as pessoas vivendo na realidade virtual após sua morte física. Na verdade, a empresa promete preservar totalmente o cérebro de uma pessoa e fazer um “backup” da sua mente inteira, com a condição que você aceite a eutanásia para que isso seja feito. Algumas pessoas afirmam que a idéia é absolutamente ridícula, enquanto outras, como as que estão prestes a optar pela eutanásia, já pensam que poderiam adotar o sistema.

Do que San Junipero trata? Qual o barato desse episódio para nós, que estamos falando de auto-conhecimento, vida e morte? Apesar de alguns sites afirmarem que o tema central é a homossexualidade feminina, os Anos 80 ou a realidade virtual, um dos temas centrais é a sobrevivência da mente (ou da consciência?) humana após a morte do corpo físico, e porque faríamos isso, e como. No caso, usando os poderes futuros da tecnologia.

San Junipero é o nome de um lugar virtual criado por um sistema tecnológico aparentemente hiper-avançado onde as pessoas podem “ir” (virtualmente, mentalmente) para vivenciar o que quiserem. O episódio mostra apenas uma espécie de lugar, que parece ser uma cidade da Califórnia, mas mostra que ela pode ser vivida em qualquer ano (1980, 1994, 2002…). É como um Second Life, ou como vários jogos onde há uma realidade virtual onde se experimenta em primeira pessoa. A diferença aqui é que o cenário é realmente perfeito, como a vida normal, e a pessoa se transporta para ele usando um corpo que realmente teve, com seu DNA, na idade que quiser. Assim, as duas protagonistas são duas mulheres que estão no fim da sua vida na realidade, hospitalizadas, e que se conectam ao sistema de San Junipero pra vivenciarem coisas com seus “eus” jovens. Elas acabam se encontrando em San Junipero, e começam um romance. A relação acaba sendo um motivo para ambas desejarem encerrar sua hospitalização com uma eutanásia, e permanecerem para sempre em San Junipero, a realidade virtual.

A primeira grande reflexão que San Junipero traz é sobre como o ser humano que tem desejos, e que está apegado a eles, pode de alguma forma vivê-los para resolvê-los, antes de morrer, e não os leve como angústia e sofrimento na hora de sua morte física. A idéia é muito interessante, pois traz essa possibilidade de tratamento e libertação, trabalhando o fardo samsárico da mente em algum ambiente que na vida real é difícil, ou mesmo impossível. Pensando no ponto de vista mais budista, essa viagem a um ambiente virtual antes da morte poderia ajudar a mente a libertar-se de apegos, de ilusão e de ignorância, tornando o momento da morte mais leve e, quem sabe, até possibilitando uma transição para reinos superiores (segundo os ensinamentos budistas). Se a pessoa fosse mantida hospitalizada em coma, por exemplo, como a personagem Yorke, ou com movimentos limitados, como a personagem Kelly, não haveria muitas possibilidades do que está preso na mente ser trabalhado, liberado. Pelo menos não com tanta facilidade e adequação aos estados mentais das pessoas envolvidas.

Assim, San Junipero pode ser visto como uma espécie de ambiente terapêutico virtual. A personagem Yorke descobre-se lésbica desde cedo, mas sofre muito em toda sua vida por não conseguir expressar e viver sua condição. Nunca, em vida, ela sequer beijou outra mulher. Mas em San Junipero, pela primeira vez ela consegue se relacionar com outra mulher, consegue viver e experimentar isso mais plenamente, abrindo a possibilidade de se libertar dessa imensa angústia e medo. Ou, de “superar” essa situação inteira. A outra protagonista, Kelly, também vive a angústia do fim de um casamento e da perda de um filho, e do próprio marido, que preferiu não encontrá-la em San Junipero, e tem no sistema a possibilidade de superar a tristeza, a frustração, a angústia.

O episódio, infelizmente, termina nesse momento onde ambas se libertam de suas pendências mais fortes da vida atual. Mas como viver em San Junipero é eterno, o episódio  não trata de quanto tempo essa vida livre vai satisfazer  ambas, ou lhes dar a plenitude que elas experimentam no primeiro contato juntas. O desejo que faz Yorke ir até San Junipero é o de poder tratar essa angústia e o medo de se relacionar com outra mulher, mas uma vez que isso seja realizado, como é de fato realizado, San Junipero pode ganhar novas nuances. Fazendo um paralelo com o desejo obsessivo de ganhar na loteria: uma vez que você ganha, e vive com o dinheiro, e se acostuma, e o desejo se vai, e embora permita uma série de coisas na sua vida… e daí? O que vem a seguir? Yorke viverá sua eternidade em San Junipero, certamente seu medo e angústia de ser homossexual estarão superados logo, e ela poderá viver e ver como é pra sempre.

Mas esse “como ela é” é discutível. Essa é a segunda grande reflexão de San Junipero (essa totalmente para nós aqui, pois não me parece ser intenção do episódio): temos muitas ilusões de quem somos e do que devemos fazer em nossa breve vida terrena, e isso é intoxicado fatalmente com e no apego aos desejos mundanos que essa ignorância causa, que por sua vez gera uma infinidade de experiências e tentativas de satisfazer esses desejos, esses apegos e essa ignorância. Sou burro, preciso ser inteligente. Ou sou burro, preciso viver com minha burrice. Sou feio, preciso ser bonito. Ou sou feio, preciso viver com minha feiúra. A angústia pode ser variada, pode ser de não conseguir viver a própria condição, pode ser de não conseguir suportar o medo de ser julgado ou aceito, pode ser o de não entender que isso é uma condição humana, entre outras situações. E isso coloca o indivíduo em um movimento para tentar resolver, satisfazer. Mas, como diz o mestre budista Dzongsar Khyentse Rinpoche, “nada funciona no samsara“. Ou seja, esse jogo de desejos, satisfações, apegos e buscas não tem fim, não leva a lugar nenhum, e, pior, não define nem eu nem você nem Yorke nem Kelly nem ninguém em nossa essência. San Junipero é a promessa de um paraíso falso, que não é paraíso nenhum, é um paraíso idealizado, vazio.

Então, apesar de momentaneamente muito saudável e libertador para as protagonistas, San Junipero pode se transformar de terapia à prisão num par de anos, ou de décadas, ou de séculos. Nós sabemos muito bem que, assim que conquistamos um desejo aqui em nossa vida na Terra, imediatamente buscamos outro. É um movimento praticamente infinito, que se perpetua com grande eficiência, impulsionado pela natureza incansável e iludida da mente.

O que nos leva à terceira grande reflexão que gostaria de trazer sobre esse episódio. San Junipero mostra uma possibilidade poderosa de tratar terapêuticamente de seres com pendências, angústias, desejos e sofrimentos em seus últimos anos de vida, mas mostra que essa ferramenta de saúde e libertação pode ser apenas mais um instrumento capitalista, usado por uma empresa de tecnologia avançada, e que acaba não lhe interessando fazer o principal: ajudar a libertação total do ser humano que está em San Junipero. É importante que o cliente permaneça cliente pra sempre. A tecnologia é mais um braço de Maya, a força da ilusão que há nessa dimensão.

San Junipero é rico por essas e outras possibilidades de reflexões sobre a vida atual e seu fim. Quais são minhas pendências aqui, quais são meus desejos mais fortes? Quais são minhas angústias, medos e tensões? O que eu preciso desbloquear na minha vida? Que desejos eu tenho que acredito que uma vez realizados vão me satisfazer plenamente? Se eu vivesse para sempre num mesmo lugar, satisfazendo ao que idealizo que preciso ou desejo, quanto tempo aguentaria? E o que viria depois?

Se pudéssemos participar da criação de San Junipero, mudaríamos algo? Adicionaríamos algo? Tiraríamos algo? Criaríamos algum ambiente onde a mente pudesse, finalmente, se libertar, ser vista como é, e proporcionar um momento de Nirvana? O quanto meu estado de maturidade é impossível de ser manipulado, e o quanto deve viver suas etapas até que finalmente se liberte?

O que você gostaria de experimentar ou viver em San Junipero?

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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