Um mapa dos estágios do caminho espiritual, pelo monge zen Dosho Port

Esse pequeno “mapa do caminho espiritual” traçado pelo monge zen Dosho Port é um deleite. Ele foi criado originalmente para traduzir o que acontece em uma comunidade Zen, ou o que acontece com o caminho de alguém que passa por uma comunidade assim, mas esse itinerário pode servir a qualquer comunidade espiritual, e talvez mesmo a qualquer um de nós, seja qual o caminho estamos trilhando. Servindo ou não, ele serve, nem que seja para vermos um pouco mais do que nos sucede em nossas buscas e práticas.

Usando termos curiosos, ele passa longe das definições intelectuais mais típicas do meio acadêmico, e invoca a simplicidade e franqueza do zen para traduzir o que fazemos no caminho — embora o zen não seja nada afeiçoado a mapas. Essa não-afeição está também no mapa, que parece ser um passeio em nossos enganos, experiências, percepções e sensações. Não é o que acontece fora de nós, obviamente, e sim o que experimentamos dentro. E começando por um famoso pilar do samsara: a idealização.

Esse mapa está no livro “Keep Me In Your Heart For a While“, de Dosho Port, onde ele faz uma descrição mais longa de cada estágio. Alguns frases dessas descrições estão reproduzidas logo depois do mapa abaixo, com alguns comentários extras que infelizmente me meti a fazer. Peço que acrescentem os seus nos comentários, para que eu não passe vergonha sozinho. :-) Obrigado.

Primeiramente, o mapa:

1) Idealização.

2) Apego secreto às expectativas por conquistas mágicas.

3) Extremo mau humor consigo mesmo e com os outros.

4) Andar constantemente sem chegar a lugar nenhum.

5) Experimentar a fruição.

6) Cair num poço.

E então, claro, os estágios da espiral se repetem.

Como proposto, esses itens seguem a ordem cronológica, mas não obrigatoriamente. Também me parece que podemos experimentá-los como grandes longas fases do caminho, que podem durar meses ou anos, mas também, de uma maneira mais sutil, podemos experimentá-los num mesmo dia.

No primeiro estágio, a idealização, há uma espécie de euforia inicial, uma “apaixonite”, que pode ser visível ou discreta. É quando achamos que encontramos algo, quando achamos que as coisas agora vão finalmente se resolver, onde o mestre é incrível, onde tudo é especial, onde tagarelamos ensinamentos da boca pra fora, onde há um óculos colorido em nossa visão. Dosho Port diz que é “aquela fase onde o Zen parece cool, onde amamos todos da comunidade e o professor sabe algo especial sobre nós, antes mesmos de nós sabermos”.

Essa fase muitos de nós conhecemos muito bem. Workshops de fins-de-semana ou imersões curtas, em retiros por exemplo, geralmente não passam dessa fase. São esse fase intensamente. Todos saímos emocionados, tocados com o mestre, com a prática, ficamos felizes com nossa “evolução”, amamos todos, e sentimos que agora a vida vai (sobre isso, veja também esse post).

Aí vem o segundo estágio, o apego secreto por conquistas mágicas, que é aquela aspiração muito interior e raramente admitida de querer “atingir estágios”, “ter experiências”, “se aprofundar nisso ou naquilo”, etc. Nessa fase o glamour se foi, diz Dosho Port, mas as expectativas continuam. Já estamos quietos, usamos um certo semblante simulando um praticante avançado, e mantemos em segredo a esperança de que “se fizermos tudo certo na prática vamos ser salvos”. O ego está operando a pleno vapor, agora usando um belo disfarce espiritual.

O terceiro estágio é o extremo mau humor consigo mesmo e com os outros, onde as coisas começam a doer e a serem diretamente postas em cheque. Não só o glamour se foi, mas as expectativas começam a ser quebradas, ou são de fato totalmente quebradas. Com a idealização e as expectativas sendo alvejadas seguidamente, questionamos o mestre, a escola, os métodos, os praticantes loucos pobres coitados e pra-que-tudo-isso-afinal. Dosho Port dá exemplos hilários, como quando um praticante passou na frente do quarto do mestre e o viu assistindo televisão e comendo batata frita — a súbita decepção de que o mestre não só é uma pessoal normal, mas aparentemente indulgente e mundana. “Nesse estágio, a maioria das pessoas abandona a prática ou vai procurar abrigo em outro canto”, diz Dosho Port. A espada do ego dá seu maior golpe. É um dos momentos mais críticos para o praticante, onde ele pode se dar conta e dar o primeiro passo para se libertar do profundo sistema do ego, ou pode iniciar um périplo de andar em círculos por várias escolas, mestres, práticas, repetindo esses três estágios à exaustão (ou mesmo abandonar o caminho por um longo tempo).

O quarto estágio é o andar constantemente sem chegar a lugar nenhum, onde os apegos começam a ser finalmente desfeitos, onde o ego pode finalmente dar lugar a algo maior, mas há uma mistura de sensação de estar perdido com a necessidade de continuar caminhando. Qualquer idéia pode virar idealização, qualquer expectativa pode ser um passo atrás, qualquer irritação pode ser um ego dominante. Há incerteza e há algo novo nas experiências. Tateando a liberdade no escuro, o indivíduo segue.

O quinto estágio é experimentar a fruição, onde algo maravilhoso acontece, como ser levado pelo vento e sentir-se em total harmonia com a existência, sem peso nem problemas. Não há planos, nem expectativas, nem qualquer tipo de desejo. Anda-se e, de repente, puft!, o tapete voador da fruição está sob nossos pés e nós voamos por algum tempo, talvez muito tempo, e então ele se vai. Imprevisível. Dosho Port diz que esse estágio pode ser perigoso, é “mais problemático do que solucionador”. Basta um pequeno sorriso de deleite com a fruição e puft!, você cai no poço, que é o estágio seguinte. A fruição é apenas parte do cenário, e deve ser experimentada como tal, sem fabricação nem manipulação.

Cair no poço é o sexto e último estágio (antes de se repetir todos eles de novo e de novo). Cair no poço é uma linda expressão que mostra que, enfim, caímos. Cedemos ao apego, ao desejo, ao que for. Caímos do mundo sutil pro mundo pesado. Caímos em um buraco na terra. Que tem a água que mata a sede que ainda mantemos: sede por uma experiência, por uma “realização”, por uma paz ou êxtase ou fruição que queremos manter por mais tempo. Resquícios de idealização, expectativa, por isso e não aquilo.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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