“Não me fale sobre sua espiritualidade, amigo, quero encontrar você”: o manifesto de Jeff Foster

Vivemos tempos estranhos, confusos, onde muitas pessoas enaltecem o amor mas agem desamorosamente, exibem interesse em valores nobres mas agem com valores pobres. Compartilham votos de paz e fraternidade mas acusam quem não lhes apraz e agem com divisão e superioridade. E a coisa está feia, se espalha pela Internet, pelas redes sociais, está no círculo mais íntimo de nossos amigos e parentes, cada vez mais confusos e dispostos a atrocidades em nome de… não sei em nome de que.

Nesse pequeno poema, o autor Jeff Foster, de “The Way of Rest” e “Life Without a Centre”, escreve de maneira leve sobre essas tristes ambiguidades, e em forma de pedido expressa o que interessa verdadeiramente ao convívio humano: a humanidade. Não é a conversa de evolução espiritual, mas o ouvir e o entender genuíno. Não é a filosofia, mas o gesto. “Não me fale sobre sua espiritualidade, amigo. Realmente não estou interessado. Eu só quero encontrar VOCÊ“.

Para nós, que volta e meia caímos nesse “papo furado” de espiritualidade e auto-conhecimento, é uma inspiração com oxigênio puro. Apesar de serem, também, palavras, e aqui ele estar falando de “não me fale”, são palavras para além das palavras, um poema para além do poema. Se assim entendermos.

O poema tem o títutlo de “Quem é Você Sem Sua Estória Espiritual” (Who Are You Without Your Spiritual Story?) segue abaixo, traduzido do inglês por este blog. O poema foi publicado originalmente na página de Jeff Foster no Facebook.

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QUEM É VOCÊ SEM SUA ESTÓRIA ESPIRITUAL?

Por favor, não me fale de “Pura Presença” ou de “estabelecer-se no Absoluto”.
Quero ver como você trata seu companheiro,
suas crianças, seus pais, seu precioso corpo.

Por favor, não me dê uma aula sobre “a ilusão do eu separado”ou como conquistar a iluminação permanente em apenas 7 dias.
Quero sentir o genuíno calor irradiando do seu coração.
Quero ouvir quão bem você ouve,
como recebe informação que não se encaixa na sua filosofia pessoal.
Quero ver como você lida com as pessoas que discordam de você.

Não me fale quão iluminado você é, quão livre você está do seu ego.
Quero conhecer você por trás das palavras.
Quero conhecer você quando os problemas chegam.
Se você consegue permitir totalmente a sua dor e não finge ser invulnerável.
Se você consegue sentir sua raiva sem apelar à violência.
Se você consegue dar passagem segura à sua tristeza sem ser escravo dela.

Se você consegue sentir sua vergonha e não envergonhar os outros:
Se você consegue estragar tudo, e admitir que estragou.
Se você pode dizer “desculpe” e realmente querer pedir desculpas.
Se você consegue ser totalmente humano em sua gloriosa divindade.

Não me fale sobre sua espiritualidade, amigo.
Realmente não estou interessado.

Eu só quero encontrar VOCÊ.
Conhecer seu precioso coração.
Conhecer o lindo humano lutando pela luz.

Antes do “ser espiritual”.
Antes de todas as palavras inteligentes.

Jeff Foster

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

16 Comentários

  • Fico feliz que as pessoas estejam falando de espiritualidade mesmo que de maneira superficial. Todos tem seu tempo e seu processo. Esperam que as pessoas deem salto no caminho, Para que? Pra ficarem mais parecida com vcs

  • Perfeito! O poema me caiu como uma luva. Estive uns tempos resvalando pela raiva diante de tanta hipocrisia, ignorância e ódio. Mas quem sou eu pra exigir estrada limpa? Muito agradecido por essa mensagem, hermano.

  • O poema é nos convida ao exercício de uma espiritualidade adogmática, autêntica e amorosa. Em substância, é ser um sol que esparze luz, calor e vida na complexa trama da vida humana.

  • Realmente, há verdade retratada sobre a condição a que estamos inseridos no Samsara!
    Mas, apenas um comentário: não foi escrito de forma compassiva. De modo a se compreender que todos os humanos têm dificuldades com o caminho. Precisamos dar atenção a este detalhe. Percorrer o caminho da libertação com atitudes amorosas, de forma gentile “entendedora” do quanto é dificílimo para todos nós. Digo isso porque a forma de endereçar esta pequenina e verdadeira constatação”
    deveria ser mais macia, contendo nas palavras compreensão profunda e compassiva da condição aflitiva de todos. Nas entrelinhas consigo perceber uma espécie de “cobrança” em relação as pessoas. Isso não é muito favorável. Falo sobre isso porque eu mesma tinha essa característica.
    É necessário paciência compreensiva para que as pessoas comecem a percorrer o caminho.
    Meu nome é Angela Paes!

    • Oi Angela, bem-vinda.

      Entendo seu ponto. Mas ainda assim acho perigoso falar “não foi escrito”. Prefiro “na minha percepção sinto que não foi escrito”. Porque pode ter havido compassividade. Talvez muita.

      Pode ser difícil de entender, mas muitas vezes uma certa “intolerância” com nossas mazelas e dificuldades (que existem, como você bem lembrou) é um ato de compaixão, um ato de amor. Não ao ignorar os problemas, não vejo como uma negação à nossa humanidade, mas ao afirmar, à maneira dele, que não há porque estendê-los, ampliá-los, alongá-los, cultivá-los, nem sofisticá-los. É preciso manter a consciência sobre essas coisas. Neste texto específico, acho que ele fala um pouco mais diretamente àqueles de nós que ficamos no blábláblá que às vezes parece muito espiritual, compassivo, “avançado”, mas é uma prisão e uma egotrip igual ou pior do que todas as outras.

      Namastê!

  • Quando um ser consegui conquistar todos estes estágios .Eu estarei com Ele onde ele estiver , porque todos nós caminhamos em busca da perfeição ou melhor “felicidade” mas a existência do ser é muito curta para compreender a pureza de sua existência , devido a vários fatores externos e internos que muitas vezes o desvia dessa suprema sabedoria que é simplesmente querer o bem não somente para si , mas para o seu Próximo ( não é somente família) mas para toda humanidade independentemente de cor , raça, credo , partido político… o importante é que nesta fase você se encontra no Coletivo verdadeiro e se abraça e grita SOMOS NOS!¡!!!!!!

  • Me parece um “amor exigente” da parte de Jeff Foster. Acho que os diversos buscadores não merecem esse tipo de julgamento ou cobrança. Há um outro texto parecido com esse em que Jeff diz sobre a sua “indiferença travestida de impessoalidade” e ainda se acusa da sua determinação em não pedir desculpas qdo erra. E neste poema, apenas PROJETA isso nos outros: “você tem que ser assim, como eu”.

    Então me pergunto: o que mais posso fazer?

    Se você obtém um certo domínio da mente pela sadhana, e vive em solitude está fugindo do contato social. Mas é a Vida que decide se você vai viver em solitude, na tua caverna, ou se será posto em contato com as pessoas para ajuda-las ou aprender com elas.

    Amor, amor, amor! Isto é só uma palavra, só um conceito. E conceitos vêm de onde? Não basta tolerar, compreender e perdoar o próximo que quer ver a tua queda? Isto não é amor? E como disse Krishnamurti, “que vantagem há em estar bem entrosado numa sociedade doente’?

    Acho que é muita exigência. Jeff Foster parece estar caminhando na contra mão ou voltando para trás, pois, depois de todo o esforço para não ser ninguém, não saber nada e não ter nada, agora temos que ser alguma coisa? (Ser amoroso, saber cultivar e manter certas atitudes em relação ao outro).

    A gente chegou nesse nada, nesse vazio, pq buscar preenche-lo de novo com demandas “do amor” e etc? Ora, não tenho nada a provar a Jeff Foster ou ngm.

    A gente percebe bem o qto é loucura tentar ajudar quem não lhe pediu ajuda ou simplesmente não quer ajuda nenhuma. Mesmo pq todo “namaste” é “sábio” o bastante para ter que aprender algo novo com alguém.

    O silêncio não basta? Não sei o que é iluminação. Se iluminação é a aceitação da vida como ela é, o sofrimento tbm continua surgindo para o iluminado. A diferença é que o vê como algo natural e que passa.

    Por que essa exigência com nós mesmos? Sejamos indulgentes conosco mesmo da mesma forma que somos indugentes com os defeitos alheios.

    Muita cobrança, muito auto-julgamento. Parece que nada está bom, sempre falta algo. O que fazer? Retomar a busca qdo ela já foi cessada? Acho que os buscadores tbm merecem paz e descanso, e indulgência, pois, qquer um pode recair em velhos hábitos e até erros, mas se sabemos que tudo passa pq tanta exigência conosco mesmo em sermos perfeitos?

    • Interessante reflexão, Marcos. Sob seu ângulo, parece que há de fato um tom de cobrança no poema. E talvez projeção, embora seja complicado falar da dos outros; a gente só possa falar mesmo é da nossa.

      Ao mesmo tempo, também vejo que, se por um lado parece exigência, por outro há um tom de libertação — me parece que ele estava percebendo pessoas excessivamente na esfera conceitual e insuficientemente na humana (onde parece estar a espiritualidade que ele aponta). E isso também é salutar. Isso pode ser útil a quem está nesse lugar. Posso tentar explicar esse ângulo. Por exemplo:

      “Se você consegue sentir sua vergonha e não envergonhar os outros:
      Se você consegue estragar tudo, e admitir que estragou.”

      Por um lado isso pode ser um pedido implícito de perfeição. Como quem diz, “se você consegue, ok, se não consegue, então há um problema”. Mas por outro pode ser uma insinuação verdadeira por liberdade. “Conseguir sentir vergonha” pode ser permitir si mesmo e seus sentimentos, mesmos os que classificamos (=conceitual) como inpermissíveis, e “não envergonhar os outros” pode ser não projetar em ninguém a não-permissão de sentir a própria vergonha. “Conseguir estragar tudo” pode ser relaxar das próprias exigências (de perfeição, de novo = conceitual), e “admitir que estragou” pode ser acolher os frutos aparentemente estragados da própria ação, sem disfarces ou manipulações (para atender objetivos de novo de imagem ou ego), pode ser de novo permitir si mesmo, aceitar si mesmo.

      Se formos olhar com a lente da exigência, podemos ver exigências nas palavras do próprio Buda, como no Dhammapada. Ou quando Dogen diz “Somente pratique o bem, faça o bem aos outros, sem pensar ou lhe tornar conhecido para ganhar recompensa”.

      Mas olhando o Jeff com o os questionamentos que você faz, quem sabe podemos aplicar isso ao próprio Jeff e suas palavras, permitindo que ele seja indulgente, errado (ao fabricar demandas?), deixá-lo ser humano. E seguirmos nós em nosso caminho. Longe de mundo, se assim sentirmos verdade, sem retomar a busca, se já tivermos percebido a verdade.

      Obrigado por essa reflexão. _/\_

      Namastê!

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