A vivência por trás de cada foto: o que está entre você e o agora?, investigações com Marco Schultz

A polêmica história (e velha questão) das pessoas perderem a capacidade de estarem presentes porque ficam tirando fotos de tudo a toda hora chega no Yoga quando, numa viagem de peregrinação pela Índia, as pessoas trocam a vivência pelo registro da vivência (ou do que deveria ter sido uma vivência, não fosse a ocupação da fotografia). O professor de Yoga Marcos Schultz, do Simplesmente Yoga, experiente guia de viagens de peregrinação pela Índia (eu mesmo fiz uma delas com ele, em 2016) fala dessa questão com simplicidade e leveza, sem condenações ou simplificações, em uma entrevista em vídeo (abaixo) ao projeto co.mo.ver, investigando como nós lidamos com nossa própria experiência, presença e inteireza quando temos a possibilidade de tirar foto de todas as experiências que vivemos (ou nem tanto).

“Uma reflexão que sempre coloco, por exemplo para as pessoas que viajam comigo dentro de um propósito de peregrinação, e peregrinação é você estar inteiro, é você se colocar disponível a estar naquele lugar comungando com aquela cultura, encontro com encontro, ao invés de ter uma máquina fotográfica, preocupada com selfie, ou com imagem, em de repente documentar algo que já já a viagem passou e é só uma memória. Aí tu vai ter o que? A memória de uma foto que transmite… cadê a vivência?”
Marcos Schultz, em entrevista ao co.mo.ver (2/4/2017)

A questão, segundo ele, é ter responsabilidade sobre aquilo que se coloca entre você e o agora — neste caso, uma máquina fotográfica. Mas pode haver muito mais coisa neste meio do que uma máquina: “É muito pequeno também, ir pro outro extremo, e condenar você com uma máquina fotográfica (…). Não, você pode estar altamente presente (…). É quase como que a máquina e o momento podem também colocar a pessoa mais presente no acontecimento do que de repente sem a máquina, em que a pessoa está lá, vamos dizer assim, com uma “máquina interna”, presa aos seus pensamentos, aos seus julgamentos, à sua análise disso ou daquilo. Então é importante relativizar a extremidade de cá e a extremidade de lá”, diz Marcos.

Então a máquina, ou a distração, pode ser tanto a fotográfica quando seus próprios pensamentos descarrilhados, divagantes, ou obsessivos. Muitas vezes, a própria presença do pensamento já é distração suficiente. Nesse ponto, a maioria desses objetos (de ausência, distração e fragmentação) se assemelham, ou se igualam. E ao invés de projetar e julgar o outro (já que boa parte de nós parece usar a máquina e condenar o uso ao mesmo tempo), podemos voltarmo-nos para nós e saber o que está acontecendo entre mim e o momento presente, e se há um objeto externo (ex: máquina) ou um objeto interno (ex: um pensamento).

A questão é: qual é o teu lugar?

O trecho de 5 minutos em que Marcos conversa sobre essa questão segue abaixo. A entrevista completa a Maurício Curi, do projeto co.mo.ver, pode ser assistida aqui (YouTube).

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Muito boa essa reflexão de Marcos, entendo que, quando resolvemos participar de uma experiência como essa, é importante definir seu propósito (quero sentir a vivência ou simplesmente passear), pois muitas vezes percebemos que as pessoas condicionadas pelo prazer de se expor (se fotografar em tudo), ultrapassam a barreira do senso (passear, você pode ir através de outros meios). Quando ele fala que podemos tirar fotos sentindo a vivência, acredito ser possível sim, pois, ao observar o ambiente, a gente se conecta com ele e automaticamente aquilo que vemos é transferido para a foto que tiramos, não é uma foto tirada a toa, fica a impressão do sentimento e quando outra pessoa vê essa foto, é quase impossível não se emocionar, é como se você estivesse vivenciando aquilo também, essa é a grande diferença.

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