O que acontece na morte? O mestre de meditação S. N. Goenka explica, e ensina a “real preparação”

De todas as nossas principais questões filosóficas — quem sou eu?, para onde vou? o que é a vida? qual o sentido disso tudo? — certamente aquelas envolvendo a morte são as mais críticas, por envolverem nosso inescapável destino. Não é comum ver mestres orientais falando da morte abertamente e de maneira didática, e há poucos livros realmente descritivos a respeito, mas um mestre de meditação contemporâneo, o birmanês Satya Narayan Goenka (1924-2013), conhecido comumente por S. N. Goenka e por suas instruções e popularização de Meditação Vipassana, escreveu a respeito do que acontece na morte de maneira didática e direta num belo livro chamado “A Arte de Morrer” (Vipassana Research Publications, 2015). Num dos capítulos, intitulado “O Que Acontece na Hora da Morte“, Goenka dá detalhes do que se sucede após o último suspiro e compara o destino do “indivíduo” a um trem andando num trilho e que muda de trajeto a cada ciclo.

Se o que acontece é o que Goenka descreve, é difícil saber, principalmente sem prática (de meditação). Goenka recomenda a meditação (Vipassana) em várias partes do texto, e cita os meditadores avançados como seres a caminho da liberação dos ciclos repetitivos de nascimento e morte.

Sua descrição é bem menos detalhada do que o complexo Livro Tibetano dos Mortos, e também é mais coloquial, traçando comparações com trilhos de trem. Como Goenka claro no texto, o que define o que acontece com o “trem” de cada um na hora da morte depende unicamente do que existe em cada um, na mente de cada um, nos karmas e tendências de cada um. “Não há passageiro algum no trem“, diz ele, “exceto a força dos sankhaaras acumulados”. Em outro trecho ele diz que nosso trem é alimentado apenas pela “eletricidade das ações kármicas do passado”. Ele segue o ensinamento do Buda, que diz que “o que quer que alguém experimente ao longo da vida nada mais é do que o produto de sua própria mente” (Dhammapada).

O que não é difícil de saber é se, em vida, o que acontece é isso mesmo (que Buda descreve sobre a mente) ou não. Se a mente precede tudo ou não. Se “ao falarmos ou agirmos com uma mente impura, o sofrimento nos seguira?, assim como a roda segue o casco do boi”. Se for realmente assim, então talvez o que Goenka descreve no texto abaixo seja um cenário realmente muito próximo do que seja a experiência da morte.

O texto abaixo foi publicado originalmente no Sayagyi U Ba Khin Journal e posteriormente no livro “A Arte de Morrer”.

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O QUE ACONTECE NA MORTE?
Por S. N. Goenka

Para entender o que acontece na hora da morte, vamos primeiramente entender o que é a morte. A morte é como se fosse uma curva do contínuo rio da existência. Pode parecer que a morte é o fim de um processo de vir a ser – e certamente o é no caso de um arahant (ser totalmente liberado) ou de um Buda— mas, para uma pessoa comum, este fluxo de vir a ser continua mesmo após a morte. A morte encerra as atividades de uma vida e, no momento imediatamente seguinte, começa o movimento de uma nova vida. De um lado, está o último momento desta vida e, do outro lado, está o primeiro momento da próxima vida. é como se o sol raiasse no exato momento em que se põe no horizonte, sem nenhum intervalo de escuridão. é como se o momento da morte fosse o fim de um capítulo do livro do vir a ser, e outro capítulo da vida começasse no exato momento seguinte.

Embora nenhuma analogia possa transmitir o processo com exatidão, pode-se ainda assim dizer que este fluxo do vir a ser é como um trem correndo sobre os trilhos. Ele alcança a estação da morte e lá, por um momento, reduz ligeiramente a velocidade, retomando a viagem com a mesma velocidade anterior. Não demora na estação por um momento sequer. Para quem não é um arahant, a estação da morte não é um terminal, mas uma encruzilhada de onde trinta e um diferentes pares de trilhos divergem. O trem, tão logo chega á estação, se desloca para um desses outros trilhos e continua. Este veloz “trem do vir a ser”, alimentado pela eletricidade das reações kammicas do passado, corre sem parar de uma estação para a outra, de um trilho para outro, numa viagem contínua que prossegue sem cessar.

Esta mudança de trilhos ocorre automaticamente. Assim como o gelo – que, ao derreter, vira água – ou a água – que, ao resfriar, vira gelo – obedecem às leis da natureza, a transição de uma vida para outra é controlada por leis naturais estabelecidas. De acordo com estas leis, o trem não apenas muda de trilhos por si mesmo, como também instala os trilhos seguintes para si mesmo.

Para este trem do vir a ser, a encruzilhada da morte, onde ocorre a mudança de trilhos, éde grande importância. Neste local, a vida presente é abandonada, isto é chamado cuti em páli (desaparecimento, morte). A morte do corpo ocorre, e imediatamente, a próxima vida começa (um processo chamado patisandhi – concepção ou início da próxima vida). O momento do patisandhi éo resultado do momento da morte; o momento da morte cria o momento de concepção. Como cada momento de morte cria o próximo momento de nascimento, morte não é apenas morte, mas nascimento também. Nesta encruzilhada, vida vira morte e morte vira nascimento.

Portanto, cada vida é uma preparação para a próxima morte. Se formos sensatos, tiraremos o melhor proveito desta vida e nos prepararemos para uma boa morte. A melhor morte é aquela que éa última, que não é uma encruzilhada, mas uma estação terminal: a morte de um arahant. Aqui não haverá mais trilhos nos quais o trem possa prosseguir, mas até que este terminal seja alcançado podemos, ao menos, nos assegurar que a próxima morte produza um bom nascimento e que aquele terminal seja alcançado no devido tempo. Tudo depende de nós, de nossos próprios esforços. Somos os construtores de nosso futuro, criamos nosso bem-estar ou nosso sofrimento, assim como a nossa própria libertação.

De que maneira somos os criadores dos trilhos que sustentam o veloz trem do vir a ser? Para responder, precisamos entender o que é kamma (ação).

A volição mental, seja saudável ou não, é kamma. Qualquer volição mental saudável ou nociva que surge na mente se torna a raiz de toda ação mental, vocal ou física. A consciência (vinnána) surge devido a um contato com uma das portas sensoriais, em seguida a percepção e o reconhecimento (sanná) avaliam a experiência, as sensações (vedana) surgem e uma reação kammica (sankhara) acontece.

Estas reações volitivas são de diversos tipos. Algumas são como uma linha traçada na água, que desaparece imediatamente; outras como uma linha traçada na areia, que desvanece depois de algum tempo; e outras são como uma linha entalhada na rocha, que dura por muito tempo. Se a volição for saudável, então, a ação será saudável e os frutos trarão benefícios. Mas se a volição for nociva, então a ação será nociva e trará frutos de sofrimento.

Nem todas estas reações resultam em um novo nascimento. Algumas são tão superficiais que não dão qualquer fruto substancial. Outras são um pouco mais profundas, mas será o apagadas neste período de vida e não se transferem para a próxima vida. Outras, sendo ainda mais profundas, prosseguem com o fluxo da vida até o próximo nascimento e podem também continuar a se multiplicar nesta vida e na próxima.

Muitos kammas, contudo, são bháva-kammas, ou bháva- sankharas, aqueles que dão origem a um novo nascimento, uma nova vida. Cada um dá origem ao processo de vir a ser e carrega uma força magnética que está em sintonia com um plano de existência em particular. As vibrações daquele bháva-kamma se unem com as vibrações daquele bháva-loka (mundo, plano) que tenha as mesmas características e intensidade, os dois se atrairão e se unirão de acordo com as leis universais que pertencem às forças do kamma.

Tão logo um destes bháva-kamma seja gerado, este trem do vir a ser é atraído para um dos trinta e um pares de trilhos da estação da morte. Na verdade, estes trinta e um trilhos são os trinta e um planos da existência: os 11 káma lokas (reinos da sensualidade: os quatro reinos inferiores da existência, o mundo dos humanos e o seis reinos celestiais), os 16 rúpa-brahma lokas (onde um sutil corpo material ainda permanece) e os quatro arúpa-brahma lokas (reinos não-materiais, onde apenas a mente existe).

No último momento desta vida, um específico bháva- sankhara aflorará. Este sankhara, capaz de originar um novo nascimento, se conectará com as vibrações do reino da existência com o qual estiver relacionado. No momento da morte, todos os trinta e um reinos estão abertos. O sankhara que surge determina em qual trilho o trem da existência correrá em seguida. Como que desviando o trem para o próximo trilho, a força de reação do bháva-kamma impulsiona o fluxo da consciência para a nova existência. Por exemplo, um bháva-kamma de raiva ou de maldade, tendo calor e agitação como características, unir-se-á a algum plano de existência inferior. De forma similar, um como mettá (amor compassivo), tendo vibrações de paz e frescor pode apenas se unir a algum brahma-loka. Esta é uma lei da natureza, e estas leis são tão perfeitamente estabelecidas que nunca existiu a menor falha em seu funcionamento. Deve-se compreender, claro, que não há passageiro algum no trem, exceto a força dos sankharas acumulados.

No momento da morte, geralmente, um intenso sankhara surgirá. Pode ser tanto de natureza saudável quanto de natureza insalubre. Por exemplo, se alguém, nesta vida, assassinou seu pai ou sua mãe, ou talvez alguma pessoa santa, então, a memória desse episódio aflorará no momento da morte. Da mesma forma, se desenvolvemos alguma prática profunda de meditação, similar estado mental surgirá.

Quando não houver tais intensos bháva-kamma, então, um kamma comparativamente menos intenso surgirá. Qualquer memória que seja despertada se manifestará como kamma. Podemos nos lembrar de um kamma saudável de doação de comida a um santo, ou do kamma insalubre de ferir alguém. Reflexões sobre tais kamma passados, como estes, podem surgir. Do contrário, objetos relacionados aquele kamma podem surgir: o prato de comida que foi oferecido como dána (doação), ou a arma que foi usada para ferir. Estes são chamados kamma- nimittas (sinais, imagens).

Ou talvez, um sinal ou um símbolo da próxima vida pode aparecer. Isto échamado gati-nimitta (sinal de partida). Estes nimittas correspondem ao bháva-loka, em cuja direção o fluxo está sendo atraído. Pode ser a cena de algum mundo celestial, ou talvez do mundo animal. A pessoa moribunda geralmente experimenta estes sinais como avisos, exatamente como se os faróis do trem estivessem iluminando os trilhos á frente. As vibrações destes nimittas são idênticas àquelas do plano de existência da próxima vida.

 

Um bom meditador de Vipassana tem a capacidade de evitar os trilhos que conduzem aos reinos inferiores da existência. Ele ou ela entende claramente as leis da natureza e pratica para se manter preparado para a morte a qualquer momento. Se já tivermos alcançado uma idade avançada, existem ainda mais motivos para permanecer atentos a cada momento.

Que preparativos podemos tomar? Praticamos Vipassana ao permanecermos equânimes a qualquer sensação que surja no corpo e, consequentemente, quebrando o hábito de reagir a elas. Assim, a mente, que geralmente está gerando novos sankharas insalubres, desenvolve o hábito de permanecer equânime.

Com a proximidade da morte, é muito provável que experimentemos sensações muito desagradáveis. Velhice, doença e morte são dukkha (sofrimento), e, muitas vezes, consequentemente, produzem sensações desagradáveis grosseiras. Se não formos habilidosos ao observar tais sensações com equanimidade, provavelmente reagiremos com sentimentos de medo, de raiva, de tristeza ou de irritação, proporcionando uma oportunidade para o surgimento de um bhava-sankhara com vibração semelhante. Contudo, como nos casos de meditadores bem desenvolvidos, podemos trabalhar para evitar reagir a estas sensações imensamente dolorosas, mantendo a equanimidade na hora da morte. Então, mesmo aqueles bhava-sankharas relacionados, localizados profundamente no inconsciente, não terão oportunidade de aflorar.

Um meditador que esteja prestes a morrer, será afortunado se tiver a companhia de parentes próximos ou amigos que possam praticar Vipassana e gerar vibrações benéficas de metta, que irão criar uma boa atmosfera de Dhamma, livre de lamentações e de tristeza.

Uma pessoa comum, geralmente, ficará apreensiva, até mesmo aterrorizada com a proximidade da morte, e assim permitirá que um bhava-sankhara de medo suba á superfície. Da mesma forma, mágoa, pesar, depressão e outros sentimentos podem surgir diante do pensamento de separação dos entes queridos, e o sankhara correspondente surgirá e dominará a mente. Um meditador de Vipassana, observando todas as suas sensações com equanimidade, enfraquece estes sankharas a fim de evitar que surjam na hora da morte. A verdadeira preparação para a morte é esta: desenvolver um padrão de hábito de observar repetidamente as sensações que se manifestam no corpo e na mente, com equanimidade e com a compreensão de anicca (impermanência).

Na hora da morte, este forte hábito da equanimidade aparecerá automaticamente e o trem da existência mudará para um trilho no qual será possível praticar Vipassana na nova vida. Dessa forma, nos livramos de nascer em um reino inferior e alcançamos um dos reinos mais elevados, o que é muito importante, pois Vipassana não pode ser praticada nos reinos inferiores.

Algumas vezes, um não-meditador alcançará um renascimento favorável devido a manifestação na hora da morte de bhava-sankhara saudáveis, tais como generosidade, moralidade ou outras qualidades positivas muito fortes. Mas a maior conquista de um meditador Vipassana estabelecido é a de alcançar uma existência na qual poderá continuar a praticar Vipassana. Desta forma, pela progressiva redução do estoque de bhava-sankharas acumulados, encurtaremos nossa jornada de vir a ser e alcançaremos mais cedo a meta da libertação.

Entramos em contato com Dhamma nesta vida devido aos grandes méritos que praticamos no passado. Torne esta vida bem sucedida pela prática de Vipassana de modo que, quando a morte vier, a mente esteja repleta de equanimidade, garantindo o bem-estar no futuro.

Obs: A analogia de um trem andando e mudando de trilho não deveria ser confundida com transmigração, já qe nenhuma entidade vai de uma vida para a próxima. Nada passa para a próxima vida exceto a força dos karmas sankharas aculumados.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

4 Comentários

  • No dia do meu aniversário, ler esse texto vale como um presente muito sincero.
    Muito obrigado pelo compartilhamento, Nando.
    Que a prática da meditação e uma vida coerente sejam os nossos principais objetivos nessa vida.
    Amor e paz. Até breve.

  • Valew Nando pela dica do Livro

    https://store.pariyatti.org/Art-of-Dying-A-arte-de-morrer-portugus–PDF-eBook-br-spanVipassanaspan_p_4823.html

    https://store.pariyatti.org/eBooks_ep_49-1.html

    O Kamma que dá fim ao Kamma
    http://www.acessoaoinsight.net/arquivo_textos_theravada/kamma_5.php

    “Então como eu disse, Kalamas: ‘Não se deixem levar pelos relatos, pelas tradições, pelos rumores, por aquilo que está nas escrituras, pela razão, pela inferência, pela analogia, pela competência (ou confiabilidade) de alguém, por respeito por alguém, ou pelo pensamento, “Este contemplativo é o nosso mestre.” Quando vocês souberem por vocês mesmos que, “Essas qualidades são hábeis; essas qualidades são isentas de culpa; essas qualidades são elogiadas pelos sábios; essas qualidades quando postas em prática conduzem ao bem e à felicidade” – então vocês devem entrar e permanecer nelas.’ Assim foi dito. E em referência a isso é que foi dito…

    “Agora Kalamas, aquele que é um nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém quatro garantias no aqui e agora:

    “’Se existe um mundo após a morte, se existem conseqüências das boas e más ações, então essa é a base pela qual com a dissolução do corpo, após a morte, renascerei num destino feliz, no paraíso.’ Essa é a primeira garantia que ele obtém.

    “’Porém se não existe um mundo após a morte, se não existem conseqüências das boas e más ações, então nesta vida cuidarei de mim mesmo com tranqüilidade – livre de hostilidades, livre de má vontade, livre de dificuldades.? Esta é a segunda garantia que ele obtém.

    “’Se conseqüências ruins recaem sobre quem pratica ações más, eu no entanto não penso em agir com maldade, então, como poderão os resultados ruins recaírem sobre mim?” Essa é a terceira garantia que ele obtém.

    “’Porém se conseqüências ruins não recaírem sobre quem pratica ações más, então de todas formas estou purificado.” Essa é a quarta garantia que ele obtém.

    “Aquele que é um nobre discípulo – sua mente livre de hostilidades, livre de má vontade, imaculada e pura – obtém essas quatro garantias no aqui e agora.”

    http://www.acessoaoinsight.net/sutta/ANIII.65.php

    Om Mani Padme Hum
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Om_mani_padme_hum
    https://www.youtube.com/watch?v=bbgHZWwyhcQ

    Gratidão!
    Abraço!

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