A predição de Padmasambhava sobre a era em que “as pessoas serão as criadoras da própria estupidez”

Quando a época degenerada deste aeon chegar, as pessoas serão suas próprias enganadoras, suas próprias más conselheiras, as criadoras da própria estupidez, mentindo e enganando a si mesmas. Quão triste que essas pessoas tenham formas humanas mas não possuem nenhum senso maior que um boi!
Padmasambhava, do livro “Advice from the Lotus-Born”

Parece que a época degenerada desta era chegou, e se o grande mestre budista do Século 8, Padmasambhava, estiver certo, a melhor pergunta que podemos nos fazer agora é: como estamos nos enganando? Quanto estamos nos enganando? Com o que exatamente nos enganamos?

Podemos achar que não, podemos pensar que “eu não me engano, sei bem o que estou fazendo”. Mas seria apenas mais uma forma de auto-engano, pois se não fosse, estaríamos plenamente despertos. O próprio Padmasambhava diz, no mesmo compêndio “Advice from the Lotus-Born”: “Não coloque sua confiança nos fenômenos condicionados; alcance a certeza dentro da sua própria mente, o estado desperto não está em nenhum outro lugar“.

A travessia pelo  Grande Cânion da Desilusão é por dentro de nós mesmos. Esse cânion não é a percepção de uma ilusão fora de nós, como se estivéssemos apenas cometido um equívoco de não ver direito, ou de acidentalmente confundir as coisas: é a percepção de que nós mesmos viemos nos enganando, nos iludindo e nutrindo ativamente essas mentiras, provocando os problemas de entendimento e confusão, dentro de nós, com nossos talentos e capacidades desvirtuadas, e a respeito de nós mesmos e do mundo que (achamos que) vemos. É grave. E triste, como lamentou Padmashabhava.

Ele aconselha, demonstrando que tipo de engano e ilusão estamos nutrindo: “Quando você sentir apego por algo atraente ou aversão por algo repulsivo, compreenda que é ilusão da sua mente”. Em outro trecho: “Quando você ver pessoas cometendo o mal, tenha compaixão por elas”. E ainda em outro: “Quando você ouvir palavras agradáveis ou desagradáveis, saiba que são sons vazios, como ecos”. E talvez um dos mais importantes para este momento: “Não tome nenhum ser senciente como seu inimigo: fazer isso é apenas engano da sua mente“.

Se algum desses conselhos de Padmasambhava soa desafiador, essa investigação sobre nossos auto-enganos pode começar por eles. Mas podemos também começar observando nossas dores, crises e confusões, e ver se elas são manifestações apenas de um cenário externo caótico ocasional, ou se mostram que algo está errado do lado de dentro de nós, algo em nossa mente. Um célebre mestre do Vedanta indiana, Swami Dayananda, publicou um livro cujo título era “O Problema É Você, A Solução é Você“, de uma clareza maravilhosa. Certa vez ele escreveu, num artigo sobre meditação: “para criar uma condição mental que lhe permita ver a verdade de si mesmo, você deve remover todas as falsas noções que tem“. Falsas noções são exatamente as ilusões e enganos, sobre o mundo e nós mesmos.

O terapeuta brasileiro Sergio Veleda  publicou recentemente um comentário a respeito da prevalência dos nossos auto-enganos mais cotidianos (mas que também envolvem as ilusões maiores). Ele diz: “A maior parte do tempo estamos mentindo, fingindo. Não fazemos isso apenas para os outros mas para nós mesmos. Argumentamos para nós mesmos como um lobo faria com uma criança, assim como um perverso ou um psicopata agiria com um inocente. Quando os hindus dizem que esse mundo é maya (ilusão), estão se referindo ao mundo que habitamos particularmente. A maneira de mentir e de fingir nos é tão comum que ela hoje se confunde com isso que dizemos ser “eu”. Então podemos mentir e fingir com a sensação clara que não mentimos e não fingimos para continuar até a morte mentindo e fingindo.”

Com a sensação clara que não mentimos. E como ter uma sensação mais clara do que a sensação clara? Só a investigação mais profunda sobre si mesmo pode revelar isso. E, de preferência, com a ajuda de pelo menos uma outra pessoa, ou um grupo de pessoas. O místico armênio Gurdjieff dizia que ninguém se salva sozinho, pois é muito difícil de ver o engano em si mesmo. Com mais profundidade, com ajuda, sinceridade e observação limpa, talvez cheguemos à dimensão de ver a ilusão, e aí poderemos soltá-las de dentro de nós mesmos.

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Imagem: detalhe de uma pintura nepalesa de Padmasambhava por Lama Thangka.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

2 Comentários

  • Cakkavatti Sutta: The Wheel-turning Emperor

    In the past, unskillful behavior was unknown among the human race. As a result, people lived for an immensely long time — 80,000 years — endowed with great beauty, wealth, pleasure, and strength. Over the course of time, though, they began behaving in various unskillful ways. This caused the human life span gradually to shorten, to the point where it now stands at 100 years, with human beauty, wealth, pleasure, and strength decreasing proportionately. In the future, as morality continues to degenerate, human life will continue to shorten to the point were the normal life span is 10 years, with people reaching sexual maturity at five. “Among those human beings, the ten courses of action (see AN 10.176) will have entirely disappeared… The word ‘skillful’ will not exist, so from where will there be anyone who does what is skillful? Those who lack the honorable qualities of motherhood, fatherhood, contemplative-hood, & brahman-hood will be the ones who receive homage… Fierce hatred will arise, fierce malevolence, fierce rage, & murderous thoughts: mother for child, child for mother, father for child, child for father, brother for sister, sister for brother.” Ultimately, conditions will deteriorate to the point of a “sword-interval,” in which swords appear in the hands of all human beings, and they hunt one another like game. A few people, however, will take shelter in the wilderness to escape the carnage, and when the slaughter is over, they will come out of hiding and resolve to take up a life of skillful and virtuous action again. With the recovery of virtue, the human life span will gradually increase again until it reaches 80,000 years, with people attaining sexual maturity at 500. Only three diseases will be known at that time: desire, lack of food, and old age. Another Buddha — Metteyya (Maitreya) — will gain Awakening, his monastic Sangha numbering in the thousands. The greatest king of the time, Sankha, will go forth into homelessness and attain arahantship under Metteyya’s guidance.

    http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/dn/dn.26.0.than.html

    My religion is not deceiving myself. – Milarepa

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