Sem empenho, não há iluminação: o caminho do Buda nas palavras do mestre tibetano Dilgo Khyentse

“Todos os seres iluminados um dia foram indivíduos ordinários que se tornaram budas através do seu próprio empenho. Empenho é a qualidade que você mais precisa. Como o Buda disse, “Lhe mostrei o caminho. Depende de você alcançar a liberação”.

O Buda não vai projetar a budeidade em você, como se jogasse uma pedra. Ele não vai lhe purificar, como se lavasse roupa suja, nem vai lhe curar da ignorância, como um médico receitando remédio a um paciente passivo. Tendo ele mesmo atingido a iluminação, ele está mostrando o caminho, e depende de você seguir ou não. Depende de você agora praticar esses ensinamentos e experimentar seus resultados”.

— Dilgo Khyentse Rinpoche, em “The Heart of Compassion”

Ao contrário do que o Ocidente se acostumou a pensar, cultural e religiosamente, a iluminação (ou transcendência ou libertação do sofrimento ou que definição você tiver, como é proposta pelas escolas de sabedoria orientais) só vem por “dentro”, de nós mesmos, pelo fenômeno de compreensão de nós mesmos e de nossas percepções mais profundas, e não por uma outorga “externa”. Um dos maiores mestres do Budismo Tibetano do século XX, o célebre Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991), enfatiza justamente isso nesse trecho acima, reproduzido do livro “The Heart of Compassion” (Shambhala, 2007), onde sublinha também a necessidade do empenho para a iluminação.

Se o nosso estado hoje, neste momento, sobre nossa própria vida e o mundo, é de não compreensão, ele é de não compreensão. E é isso. Se não fizermos nada hoje, nem amanhã, se não tivermos empenho em descascar e resolver essa incompreensão, seja através de qual prática for, amanhã provavelmente também será de incompreensão. E depois de amanhã idem. E assim em diante. Não há mais mistério do que isso, ou seja, não há nenhum.

A incompreensão é um problema pessoal e intransferível. Mas, de certa maneira, mesmo que entendamos isso em algum nível, pode permanecer uma crença arraigada de que talvez tenhamos “karma” suficiente para quem sabe colher um vislumbre de iluminação qualquer dia desses, ou então para que uma divindade possa nos livrar do sofrimento e da reencarnação caso morramos hoje, ou algo assim. Mas se há um sistema de méritos, ele só funciona para que a iluminação seja um fenômeno em nós mesmos, e se ele ainda não ocorreu, a situação de incompreensão prossegue.

Se os mestres pudessem transmitir toda a compreensão de uma vez só, transmitiram. Na verdade, eles transmitem, mas nós temos problemas em receber. Em ouvir, ver e compreender. E é em nós que essa iluminação precisa acontecer. Essa prática, esse exercício de receber e compreender, pode levar anos, décadas. As pessoas ficam em retiros com esses mesmos mestres iluminados, cara a cara, durante dias, semanas, e muitas vezes não acontece a iluminação. Porque é a pessoa que trilha o caminho. E para isso é preciso se dedicar, se empenhar, praticar.

Quando se fala em “prática“, essa palavra, quando usada aqui nesse blog pelo menos, está em significado amplo, se referindo à dedicação a resolver as próprias incompreensões, ao empenho em elucidar de corpo e mente o que parece estar fora do eixo, em qualquer momento do viver. Hoje. Não (só) no retiro. Não só no centro de meditação. Não só na aula de yoga ou na viagem à Índia. Portanto isso não é uma atividade exclusiva de monges, praticantes avançados de Yoga ou Budismo, e tampouco é exclusivo de qualquer um: é tão somente viver com essa intenção e consciência, com essa prioridade interna, colocando a atenção e o próprio ser a esse serviço, aqui mesmo no cotidiano, onde vivemos a maior parte do nosso tempo.

Praticar é praticar descobrir a mente iluminada em nós mesmos enquanto somos indivíduos ordinários, na ordinariedade do mundo.

“É nossa mente, e ela somente, que nos acorrenta ou nos liberta”.
— Dilgo Khyentse Rinpoche

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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