O que é ser feliz, de verdade? Monge Matthieu Ricard destrincha a “habilidade mais importante da vida”

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O monge budista francês que foi discípulo e trabalhou para alguns dos maiores mestres do Budismo contemporâneo, entre eles o atual XIV Dalai Lama e Dilgo Khyentse Rinpoche (1910-1991), e também uma vez denominado o “homem mais feliz do mundo“, Matthieu Ricard é uma das melhores fontes a fazer esclarecimentos importantes sobre a felicidade, uma dos temas centrais da vida humana. Tendo seu mestre escrito um livro inteiro sobre isso, Dalai Lama em “A Arte da Felicidade“, e tendo ele mesmo escrito um livro obre o tema, “Felicidade – A Arte do Bem Estar” (Happiness: A Guide to Developing Life’s Most Important Skill), Matthieu tem renovado sua atenção sobre essa que diz ser “a mais importante habilidade da vida“, tão perseguida, desejada, invocada, sonhada, desvirtuada e mal compreendida. Duas passagens onde ele trata diretamente desse tema seguem mais abaixo, (1) uma num post no seu blog pessoal e (2) outra numa entrevista ao ator budista Richard Gere, esta última onde ele responde à pergunta: “O que é a felicidade? De verdade?

Porque ser feliz tem sido claramente confundido com não sentir tristeza, com não se importar com certas coisas, com ser super otimista, com ver tudo como felicidade, com correr de confrontos e obrigações, e muitas outras coisas. Provavelmente devido à confusão sobre a própria noção do que é felicidade. O que é ser feliz? Felicidade é não ter desprazer? É não sentir tristeza? É ignorar coisas reais que causam desconforto? É ficar satisfeito com qualquer coisa? É sustentar alegria quando as circunstâncias são dolorosas? Ser feliz significa a mesma coisa pra mim e pra você? Como é isso?

No primeiro texto, um post de dois parágrafos publicado em seu blog pessoal, Matthieu Ricard sintetiza aspectos que a felicidade é e outros que ela não é, reunindo afirmações fundamentais para a compreensão desse estado/dimensão/coisa-que-não-se-sabe-direito-o-que-é (mas que todo mundo tem um bom palpite). Como ele diz, no seu sentido mais profundo, o sofrimento está “intimamente conectado com uma má compreensão da natureza da realidade“.

Deveríamos então buscar compreender melhor a realidade (para ser feliz)? É o que está implícito. Ser feliz seria, então, e primordialmente, ver a realidade como ela verdadeiramente é, e aprender a ter essa visão. A felicidade, ele diz, “é essencialmente um estado mental“. Que, podemos concluir, é promovida pela compreensão da realidade.

Eis o primeiro texto, do blog pessoal de Matthieu Ricard, traduzido pelo Dharmalog:

(1) “Pra começar, a felicidade é um amor pela vida. Ter perdido toda razão para viver é abrir um abismo de sofrimento. Mesmo que as circunstâncias externas sejam importantes, o sofrimento, assim como o bem-estar, é essencialmente um estado mental. Entender isso é o pré-requisito chave para uma vida que vale ser vivida. Quais condições mentais vão enfraquecer minha alegria de viver, e quais vão nutri-la?

Mudar o modo como vemos o mundo não implica em otimismo ingênuo nem em alguma euforia superficial. Enquanto estivermos inclinados à insatisfação e frustração que surgem da confusão que domina nossas mentes, será tão fútil dizer a nós mesmos repetidamente “Sou feliz! Sou feliz!” quanto seria repintar um muro em ruínas. A busca pela felicidade não se trata de olhar a vida através de óculos cor-de-rosa ou cegar a si mesmo para a dor e as imperfeições do mundo. A felicidade também não é um estado de exaltação perpetuada a qualquer custo: é uma limpeza das toxinas mentais, tais como ódio e obsessão, que literalmente envenenam nossa mente. Também se trata de aprender a colocar as coisas em perspectiva e diminuir o buraco entre as aparências e a realidade. Para isso, precisamos aprender e conhecer melhor como a mente funciona e ter uma visão mais acurada sobre a natureza das coisas, porque no seu sentido mais profundo, sofrer está intimamente conectado com uma má compreensão da natureza da realidade.”
— Matthieu Ricard, “Happiness and Reality”, em seu blog.

E aqui a resposta de Matthieu a perguntas de Richard Gere, em entrevista à editora Lions Roar (“Happiness is…“, 2006):

(2) Richard Gere: Então, Matthieu, qual é o grande negócio a respeito da felicidade? Digo, de verdade?

Matthieu Ricard: Bem, a palavra é reconhecidamente vaga. E os intelectuais franceses odeiam isso. Eles dizem ‘não estamos interessados na felicidade’.  Até Goethe disse que três dias de felicidade imutável seria insuportável (risos do público). O sofrimento é tão bom; ele muda o tempo todo, todas as cores e formas, a intensidade. Mas na verdade as pessoas confundem sensações prazerosas com felicidade verdadeira. No prazer, nós pulamos sobre algo e então adicionamos algo mais, e algo mais, e então caímos exaustos e deprimidos. As pessoas nunca acham que a felicidade é uma maneira de ser porque estão pensando em prazer, que depende das circunstâncias. É condicionado. Um sorvete é ótimo, dois é okay, três e você está enjoado. Isso é prazer.

Richard Gere: No seu livro “Felicidade” você fala sobre momentos de felicidade real, não felicidade-de-sorvete , mas momentos que lembramos quando estamos sós – fazer uma criança sorrir, um pôr-do-sol que nos faz viajar, um momento onde a idéia de eu some, quando testemunhamos a força da vida em outro ser, ou em nós mesmos, sem o filtro da mente nos intoxicando com negatividade.

Matthieu Ricard: Essa é a nossa visão nata. Andamos na neve, sobre as estrelas, e uau, nos sentimos bem. Não há conflito interior. Quando fazemos um gesto de pura generosidade para uma criança,  sem compromisso, sem esperar por elogio ou recompensa, sentimos puro amor.

Nessas horas você se pergunta, naturalmente, se poderia ser sempre assim. Mas quando você fica com raiva, quando você pensa que está certo 100%, no próximo dia você se arrepende. Então, lentamente, você começa a distinguir os estados da mente que nutrem um profundo sentido de bem-estar e aqueles que emitem toxinas mentais que destróem o bem-estar em você mesmo e nos outros, e você se pergunta se pode abandonar um e cultivar o outro.

É possível? Se as poderosas toxinas mentais são parte de nossa natureza mais profunda, talvez ao destrui-las nós estejamos destruindo a nós mesmos. Mas se elas são como uma pintura na superfície, podemos mudá-las. Então a pergunta verdadeira é: essas emoções conflitivas são parte da nossa natureza intrínseca ou não?

(…) Geralmente quando experimentamos uma emoção como a raiva, nos associamos completamente com ela. Somos a raiva. E ainda assim tentamos escapar e ir em direção ao objeto da nossa raiva – a pessoa que foi suja conosco. Então nos sentimos tristes pela raiva. Sempre que nos lembramos daquela pessoa, dispara a raiva. Não tem fim.

Ao invés de olhar o alvo (da raiva), você pode dissociar sua mente da raiva. Pode olhar a raiva como se tivesse olhando um fogo ou um vulcão. Você pode realmente olhar pra ela, observar como um fenômeno, identificá-la. Se você fizer isso, vai cortá-la do seu combustível, o alvo. Então, lentamente, a raiva está destinada a desaparecer, como se diz, como “o gelo matinal sobre o sol nascente”. Não estamos reprimindo a raiva, como uma bomba-relógio. Não estamos ignorando-a. Estamos fazendo que não exploda. Estamos lidando com ela de uma maneira que a desarme.

— Matthieu Ricard, em entrevista a Richard Gere (Lions Roar)

Para ler a íntegra, em inglês, aqui.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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