Artigo do Dalai Lama em jornal: “porque estou esperançoso a respeito do futuro do mundo”

Sua Santidade o 14º Dalai Lama tem esperança no mundo e explica porque: em um artigo no jornal americano The Washington Post, esta semana, intitulado “Porque estou esperançoso sobre o futuro do mundo” (Why I’m hopeful about the world’s future), o líder espiritual do Tibete argumentou que este novo século já mostra sinais globais de avanço humanitário e de exigência de respeito mútuo, assim como de rejeição da guerra como instrumento de resolver conflitos, e citou a necessidade de ação para além da oração para que os problemas do mundo possam ser de fato resolvidos. Os novos princípios e valores, ele diz, “devem estar baseados na perspectiva que todos nós pertencemos à única família humana”.

Mais uma vez o Dalai Lama pede uma educação secular e enfatiza a condição de sermos humanos para além das fronteiras — geográficas, religiosas, políticas — como primordial para sua esperança de um trabalho coletivo pelo mundo. Ele cita o desarmamento nuclear, a recepção de refugiados e os acordos climáticos também como aspectos da evolução global que vê, e diz que ele mesmo está engajado na criação de novos currículos escolares seculares para instituições da Índia e dos Estados Unidos.

O artigo segue abaixo traduzido livremente por este blog para o português. O original está aqui.

Dalai Lama
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“Porque estou esperançoso sobre o futuro do mundo”

Why I’m hopeful about the world’s future

Pelo Dalai Lama (O 14º Dalai Lama, Tenzin Gyatso, é o líder espiritual do Tibete. Desde 1959, ele vive em exílio em Dharamsala, no Norte da Índia.)
The Washington Post, Opinions, 13 de junho de 2016

Quase seis décadas se passaram desde que eu deixe minha terra natal, o Tibete, e me tornei um refugiado. Graças à gentileza do governo e do povo da Índia, nós Tibetanos encontramos uma segunda casa onde podemos viver em dignidade e liberdade, capazes de manter nossa língua, nossa cultura e as tradições budistas vivas.

Minha geração testemunhou tanta violência — alguns historiadores estimam que mais de 200 milhões de pessoas foram mortas em conflitos no Século 20.

Hoje, não há fim em vista para a violência terrível no Oriente Médio, que no caso da Síria levou à maior crise de refugiados em uma geração.  Ataques terroristas apavorantes — como fomos tristemente lembrados nesse fim-de-semana — tem criado profundo medo. Enquanto seria fácil sentir uma desesperança e desespero, é ainda mais necessário nos primeiros anos do século 21 ser realista e otimista. Há muitas razões para nós sermos esperançosos. O reconhecimento dos direitos humanos universais, incluindo o direito de autonomia, tem se expandido para além do imaginável há um século. Há um crescente consenso internacional em favor da igualdade de gêneros e respeito às mulheres. Particularmente entre a geração mais nova, há uma rejeição ampla da guerra como uma maneira de resolver problemas. Pelo mundo, muitos estão fazendo trabalhos valiosos para prevenir o terrorismo, reconhecendo a profundidade do desentendimento e da idéia divisionista do “nós” e “eles” que é tão perigosa. Reduções significativas no arsenal mundial de armas nucleares significam que criar um plano para reduções futuras e finalmente a eliminação das armas nucleares — um sentimento que o Presidente Obama recentemente reiterou em Hiroshima, Japão — não são mais um mero sonho.

Não é suficiente simplesmente rezar. Há soluções para a maioria dos problemas que enfrentamos; novos mecanismos para o diálogo precisam ser criados, junto de sistemas de educação para inculcar valores morais. Eles devem estar baseados na perspectiva que todos nós pertencemos à única família humana e que juntos podemos tomar providências para resolver os desafios globais.

É entusiasmante que temos visto muitas pessoas comuns pelo mundo mostrando grande compaixão pela condição dos regufiados, daqueles que os resgataram do mar, àqueles que os tem recebido e dado amizade e suporte. Como um refugiado que sou, sinto uma forte empatia pela situação deles, e quando vejo sua angústia, todos deveríamos fazer o que pudermos para ajudá-los. Também consigo compreender os medos das pessoas nos países recebedores, que pode se sentir sobrecarregados. A combinação de circunstâncias leva a atenção à vital importância da ação coletiva para resgatar a genuína paz nas terras de onde esses refugiados estão vindo.

Os refugiados tibetanos tem uma experiência direta de viver em circunstâncias como essas, e apesar de não termos sido capazes de retornar para nossa terra natal, somos gratos pelo suporte humanitário que temos recebido nessas décadas de amigos, incluindo pessoas dos Estados Unidos.

Uma outra fonte de esperança é a cooperação genuína entre as nações do mundo em direção a um objetivo comum e evidente no acordo de Paris sobre a mudança climática. Quando o aquecimento global ameaça a saúde deste planeta que é nossa única casa, apenas considerando o interesse global maior é que conseguimos unir os interesses locais e nacionais.

Tenho uma conexão pessoal com essa questão porque o Tibete é o platô mais alto do mundo e é um epicentro da mudança climática global, aquecendo-se quase três vezes mais rápido que o resto do mundo. É o maior repositório de água fora dos dois pólos e é a fonte do mais extenso sistema pluvial da Terra, crítico para as 10 nações mais densamente populadas do mundo.

Para encontrar soluções para a crise ambiental e para os conflitos violentos que nos confrontam no século 21, precisamos buscar novas respostas. Mesmo eu sendo um monge budista, acredito que esses soluções estão além da religião e na promoção de um conceito que chamo de ética secular. Essa é uma abordagem para nos educarmos com fundamento nas descobertas científicas, na experiência comum e no senso comum — uma abordagem mais universal para a promoção dos nossos valores humanos compartilhados.

Por mais de três décadas, minhas discussões com cientistas, educadores e servidores sociais ao redor do mundo tem revelado preocupações comuns. Como resultado, desenvolvemos um sistema que incorpora uma educação do coração, mas uma que está fundamentada no estudo dos funcionamentos da mente e das emoções através de uma pesquisa escolar e científica ao invés da prática religiosa. Já que precisamos de princípios morais — compaixão, respeito aos outros, cuidado, assumir responsabilidade — em cada campo de atividade humana, estamos trabalhando para ajudar as escolas e faculdades a criar oportunidades para jovens desenvolver maior auto-consciência, e aprender a gerenciar emoções destrutivas e a cultivar habilidades sociais. Esse treinando está sendo incorporado ao currículo de muitas escolas na América do Norte e na Europa — eu estou envolvido com trabalho na Emory University em um novo currículo de ética secular que está sendo introduzido em várias escolas na Índia e nos Estados Unidos.

É nossa responsabilidade coletiva garantir que o século 21 não repita a dor e o sangue derramado do passado. Devido à natureza humana ser basicamente compassiva, acredito ser possível que nas décadas que virão veremos uma era de paz — mas temos que trabalhar juntos como cidadãos de um planeta compartilhado.”

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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