O que é a realidade: a parábola dos Cegos e o Elefante, por John Godfrey Saxe

Os “muitos lados da verdade“, ou o pluralismo ou não-absolutismo de uma visão da verdade, é um dos ensinamentos centrais do sábio indiano Mahavira (599–527 AC), um dos seres iluminados do Jainismo, uma das religiões mais antigas da Índia. Uma das maneiras que esse conceito foi difundido foi através da conhecida parábola dos cegos e do elefante, que é atribuída originalmente à cultura Jaina (outras vezes ao Budismo e ainda outras ao Sufismo), e que há dois séculos se tornou popular no poema do americano John Godfrey Saxe ( 1816-1887) — “Os Cegos e o Elefante“, que segue abaixo. Nela, seis homens cegos, ou simbolicamente seis homens “na escuridão”, tentam apalpar um animal que nunca tinham visto antes, um elefante, e então tentam fazer afirmações sobre o que é esse animal. Não só tentam, como fazem e acham que detém a verdade ao fazê-lo. Uma história salutar que pode ajudar a resolver conflitos (foi uma das influências de Mahatma Gandhi em sua jornada pela não-violência), a desenvolver humildade e a cultivar a empatia.

Anekantavada é o termo do Jainismo para “os muitos lados da verdade”, ou “pluralismo”, embora etimologicamente a palavra signifique em sânscrito “doutrina da incerteza“. Mahavira usava para explicar vários conceitos, como a eternidade da alma: “A alma é permanente e também impermanente. Do ponto de vista da substância é eterna. Do ponto de vista de seus modos, ela passa por nascimento, decadência e destruição e assim é impermanente”. Apesar de ser muito venerada e praticada, o conceito tem opositores,  e um dos maiores foi do sábio advaita Adi Shancaracharya, que teria dito, entre outras coisas, que “é impossível que dois atributos contraditórios como ser e não-ser possam pertencer a uma mesma coisa”. Para contemplação.

PS: Na versão budista, Buda conta a história usando outras definições do elefante dadas pelos homens cegos, como “escova” (para o final do rabo) e “panela” (para a cabeça). E explica os cegos discutindo: “em ignorância eles são, por natureza, briguentos, polêmicos e competitivos, cada um dizendo que a realidade é assim ou assado.”

Segue o poema de John Godfrey Saxe com a sua versão da parábola dos cegos e o elefante.

Os Cegos e o Elefante – por John Godfrey Saxe 

Eram seis homens do Hindustão
Inclinados para aprender muito,
Que foram ver o elefante
(Embora todos fossem cegos)
Que cada um por, observação,
Poderia satisfazer sua mente.

O Primeiro aproximou-se do Elefante,
E aconteceu de chocar-se
Contra seu amplo e forte lado
Imediatamente começou a gritar:
“Deus me abençoe, mas o Elefante
E´semelhante a um muro”.

O Segundo, pegando na presa,
Gritou, ” Oh! O que temos aqui
Tão redondo, liso e pontiagudo?
Para mim isto é muito claro
Esta maravilha de Elefante
è muito semelhante a uma lança!”

O Terceiro aproximou-se do animal
E aconteceu de pegar
A sinuosa tromba com suas mãos.
Assim, falou em voz alta:
“Vejo”, disse ele ” o Elefante
É muito parecido com uma cobra!”

O Quarto esticou a mão, ansioso
E apalpou em torno do joelho.
“Com o que este maravilhoso animal
Se parece é muito fácil”, disse ele:
“Está bem claro que o Elefante
É muito semelhante a uma árvore!”

O Quinto, por acaso, tocou a orelha,
E disse: “Até um cego
Pode dizer com o que ele se parece:
Negue quem puder,
Esta maravilha de Elefante
É muito parecido com um leque!”

O Sexto, mal havia começado
A apalpar o animal,
Pegou na calda que balançava
E veio ao seu alcance.
“Vejo”, disse ele, “o Elefante
é muito semelhante a uma corda!”

E assim esses homens do Hindustão
Discutiram por muito tempo,
Cada um com sua opinião,
Excessivamente rigida e forte.
Embora cada um estivesse, em parte, certo,
Todos estavam errados!

//////////

Compartilhado por Sebastião Balbino.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

5 Comentários

  • Dharmalog aceita encomendas?
    Então, por favor, mais sobre Sincronicidade e ‘Acasos’, quando e se possível. :)
    Há 3 dias, eu estava num local com a TV ligada na novela da tarde. Em cena, a sogra, a nora, uma serva e um escorpião negro, todos juntos numa sala de visitas, de uma residência indiana. A peleja estava 2 X 2 (sogra e serva querendo acabar com a existência do animal peçonhento e a nora defendendo a vida daquele ser, que alheio (tão longe do seu habitat) passeava entre sedas e cetins).
    – “(fulana) blábláblá… o problema é ‘ÀQUELE SEU AVÔ JAINISTA!’.”
    Alguém comentou: “O avô dela cria escorpiões?”.
    Não! O avô escolheu uma trilha complexa: Respeitar toda e qualquer forma de vida…
    (Os jainistas respeitam todas as formas de vida. No entender deles, a vida é sagrada e não deve ser destruída. Tanto que, antes de ingerir o alimento, eles o examinam minuciosamente para evitar engolir algum inseto ou verme que porventura ali estejam.)
    Grata p/Post!

  • Incrível como essa alegoria, facilmente aceita e admirada, relativiza a verdade e a coloca numa condição inacessível, ou pior, faz do “sábio” que a profere e a promove, o único e real espectador do embate: aquele que tem a capacidade de, diante do conflito sobre a verdade, afirmar que todos estão certos ou errados. E ninguém percebe que uma ilustração como essa pressupõem que tal “sábio”, sob uma capa de humildade, está afirmando que somente ele teve acesso à verdade como um todo!

    O relativismo está num ponto tal que, se alguém afirmar que 2+2 é igual a 4, esse é arrogante e dono da verdade!!!
    O interessante é que essa relativização da verdade faz com que a ignorância receba o nome de humildade e todos a aplaudam!!!

    • Oi Josué, sinto uma animosidade sua em relação à alegoria (e especificamente em relação ao sábio) que não sei se entendi. Será que estamos vendo a pata ou o bicho inteiro? A alegoria é aceita e admirada, aparentemente, porque ela ajuda a ver, como diz um amigo, que “seu ponto de vista é apenas a vista de um ponto”. E que se você sai por aí afirmando que sua verdade é a absoluta e única existente, pode ser que você se engane. E isso tem sentidos muito práticos e cotidianos, que eu entendo ser a finalidade principal da história.

      A respeito da capacidade de discernir o certo e o errado e a respeito da humildade (do tal sábio), até onde consigo ver (sic) o próprio sábio é um símbolo, de uma consciência mais ampla, em contraste com a visão individual limitada e iludida (na escuridão). Não é necessariamente uma pessoa. Aparece como uma pessoa porque ela pode ser percebida por uma pessoa. Se não há a capacidade de achar “a verdadeira visão do elefante”, ao menos há a de saber que uma parte não é o todo. Isso não relativiza a verdade, pelo contrário, a reconhece como absoluta. E que vê-la é um atributo das não-opiniões.

      ps: Se tal história existe, me parece que é para inspirar justamente que a cegueira se torne sabedoria (“cegos” em “sábios”), e não para enaltecer o ego de um contador de histórias único e exclusivo detentor da verdade.

      Faz sentido?

      Se você puder explicar ao menos a parte de como você vê que há uma relativização, agradeço.

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