O que deve ser, o que não deve ser, e o que é: o interesse na verdade segundo Jiddu Krishnamurti

j-krishnamurti-verdadePode parecer uma contradição usar as palavras de um mestre que fala para não depender das palavras de um mestre, mas há um valor, ao menos mínimo, nisso. Mesmo que seja contraditório. Ele mesmo enfrentou essa contradição ao falar às pessoas que o consideravam um mestre, um guia, um mentor. Um desses seguidores perguntou a este mestre, o indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986): “há a necessidade de você se eximir completamente de vossa responsabilidade perante nós? Não deve nos dar a mão, nos guiar?“, ao que ele responde num louvor à verdade interior de cada ser. A resposta completa está abaixo, do livro “Auto-conhecimento – Base da Sabedoria“, registro de sessões de perguntas e respostas em encontros realizados em Puna e Mumbai (Índia), em 1953.

Mal-acostumados e confusos que estamos em não conseguir olhar pra dentro, pode ter alguma serventia olhar para fora, quando esse fora nos indica um caminho para dentro. E Krishnamurti faz isso muito diretamente, às vezes é quase incompreensivelmente direto.

Uma das coisas que está em jogo é o processo gnóstico de perceber a verdade. Gnóstico aqui como a experiência de conhecer a realidade por si mesmo, pela capacidade interna, a experiência da sabedoria como vivência. De conhecer pelos próprios olhos, pela própria consciência. Percebe-se a verdade como se descobre o sabor do chocolate: experimentando-o. Nenhuma descrição nem orientação externa é capaz disso. No Ocidente, nos acostumamos a esperar pela verdade, ou que alguém nos leve até ela, como se ela estivesse lá fora numa caverna sagrada, num templo, num resultado de uma prática. Até mesmo a abordagem ocidental da morte tem esse compasso de espera passiva: pensamos que quando morrermos, “algo vai acontecer” com a gente, não sabemos o que, fazemos coisas boas para que seja uma coisa boa, e assim não nos apropriamos do que nos cabe de fato, do despertar da ignorância em que estamos imersos por dentro, na cura da ilusão que está dentro de nossos olhos, e despertar por assim dizer com nossas próprias mãos, com nossas próprias pernas.

Krishnamurti parece sugerir exatamente isso (entre outras coisas) na resposta abaixo: não espere que algo fora de si mesmo lhe desperte, não há como isso acontecer, isso é responsabilidade sua. Ou talvez mais grave que isso: se você esperar que algo lhe desperte, ou se se apoiar inteiramente num guia externo, estará apenas se mantendo em pura confusão, ou talvez em ideologia, “a maneira mais estúpida de fugir ao que é“. Se essa resposta abaixo despertar em nós a percepção de que estamos dependentes demais, crentes demais, ausentes de mais de nós mesmos, então essa contradição terá valido a pena.

Segue a pergunta original e a resposta completa.

“Pergunta: Há muitos anos o ouvimos. Entretanto, continuamos abjetos, ignóbeis, rancorosos. Não raro nos sentimos como que abandonados por você. Sabemos que não nos quer para discípulos, mas há necessidade de se eximir completamente da vossa responsabilidade perante nós? Não deve nos dar a mão, nos guiar?

 

Jiddu Krishnamurti: Senhores, eis uma maneira indireta de perguntar: “Por que você não quer ser nosso guru?” (Risos). Ora, Senhores, o problema nada tem a ver com abandoná-los ou dar-lhes a mão, porque, presume-se, somos pessoas adultas. Pelo menos fisicamente já somos adultos; mentalmente, somos crianças de catorze e quinze anos; e queremos um ente glorificado, um Salvador, um guru, um Mestre, que venha nos tirar de nossa desgraça, de nossa confusão; que nos explique o presente estado de caos; que “explique”, e não que produza uma revolução em nosso pensar; e isso basta para nós.

 

Fazem estar pergunta com o desejo de encontrar uma saída desta confusão; com o desejo de se libertarem do temor, do ódio, de toda mesquinhez da vida; e contam com a ajuda de alguém, a esse respeito. Ou talvez, outros gurus não conseguiram fazer com que adormecessem com uma dose de ópio, com uma explicação; por isso se voltam para outra pessoa, dizendo: “por favor, nos guie”. É este o problema, para vocês — a substituição de um antigo guru por um novo, de um antigo mestre por um novo, de um antigo líder por um novo? Tenham a bondade de ouvir com toda a atenção. Pode alguém conduzi-los à Verdade, ao descobrimento da Verdade? É possível o descobrimento, quando somos levados à fazê-lo? Se forem conduzidos à Verdade, vocês a descobriram, vocês a experimentaram? Pode alguém — seja qual for essa pessoa — conduzi-los à Verdade? Quando dizem que precisam seguir alguém, não implica isso em que a Verdade é uma coisa estacionária, que a Verdade está em algum lugar, para serem conduzidos até lá, olhá-la, e levá-la?

 

A Verdade é algo que tem de ser descoberto ou algo a que somos conduzidos? Se é algo a que somos conduzidos, então o problema se torna muito simples: tratarão de encontrar o guru ou guia que mais lhe agrade, e ele os levará onde a Verdade está. Mas, por certo, a Verdade que buscam se acha acima do plano das explicações; ela não é estática, tem de ser experimentada; tem de ser descoberta; e não pode ser experimentada por intermédio de um guia. Como posso experimentar espontaneamente uma coisa original, se me dizem “olhe aqui uma coisa original — experimente-a!” O ódio, a vileza, a ambição, a frivolidade, são os problemas de vocês, e não o descobrimento da Verdade. Não podem achar o que é a Verdade com uma mente frívola. Uma mente superficial, maledicente, estúpida, ambiciosa — jamais descobrirá o que é a Verdade. Uma mente frívola não pode criar senão uma coisa frívola; não pode criar senão um Deus frívolo. Nosso problema, por conseguinte, não é o de achar ou descobrir o que é Deus, mas o de percebermos como somos frívolos.

 

Veja, Senhor, se sei que sou frívolo, que estou desgraçado, que sou infeliz, posso então fazer alguma coisa. Entretanto, se sou frívolo e digo “não devo ser frívolo, quer ser um homem superior”, nesse caso estou fugindo, e isso é frivolidade. Compreenda isso, por favor.

 

O importante é descobrir-se e compreender-se o que é, e não, transformá-lo noutra coisa final. Afinal, uma mente estúpida, mesmo quando procura se tornar muito sagaz, muito penetrante e inteligente, continua estúpida do mesmo modo, porque sua essência mesma é a estupidez. Não gostamos de escutar. Queremos alguém que nos converta a frivolidade numa coisa superior e nunca aceitamos, jamais o que é, na sua realidade. O descobrimento do que é, da realidade, é importante; é a única coisa verdadeiramente importante. Em qualquer nível que seja — econômico, social, religioso, político, psicológico — o que mais deve interessar é o descobrimento do que é, no seu aspecto exato — e não o que deveria ser.

 

Prestem atenção. Esta pergunta suscita várias questões. O interrogante deseja alguém, para ajudá-lo a se libertar das complicações de sua vida; está, portanto, à procura de um guia. O guia que ele busca é produto da sua confusão, da sua atribulada condição; e por isso o guia é também confuso. Senhor, não sabem o que ocorre pelo mundo? Um homem que se vê confuso, no meio de tanta agitação; aparece um líder político; o homem vota nele, por causa da confusão em que se acha; e criou, dessa maneira, um político também confuso, que se torna seu líder, seu guia. Assim também o guru, ou o mentor, ou o guia que escolhem; o escolhem por causa da confusão de vocês, por causa de seus desejos de satisfação e segurança; consequentemente, “projetam” o desejo de vocês, e o guru, portanto, é criação de vocês. Ele vai lhes dar satisfação e por isso aceitam o que ele oferece — o que denota que nunca enfrentam o que é, o que existe em si mesmos, o que realmente são. É só quando a mente de vocês não está fugindo, evitando o que é, perseguindo um ideal — quando a mente não diz “não deve ser assim”, dever “ser assim”, etc., é só então que se pode descobrir a maneira de agir com relação ao que é. Então, o problema será resolvido. Só resolverão o problema quando, na realidade, descobrirem o que é o “eu”. Se sabem que são frívolos, que possuem uma mente superficial, que odeiam seus semelhantes; se percebem bem esse fato, sabem então agir com relação a ele. Podemos examinar a questão de como agir em relação ao fato. Se afirmam, porém, “não devo odiar, devo amar”, nesse caso estão penetrando num mundo ideológico — o que representa a maneira mais estúpida de fugir ao que é.

 

Esta pergunta denuncia a falta de interesse em compreender a verdade relativa aos nossos problemas. Só a Verdade pode nos libertar. A compreensão apenas pode vir quando não estamos seguindo alguém, quando não existe autoridade de espécie alguma — se a autoridade da tradição, seja a autoridade dos livros, do guru, da nossa própria existência. Nossa experiência é resultado de nosso condicionamento, e tal experiência não pode nos ajudar a descobrir o que é a Verdade.

 

Nessas condições, os que se sentem seriamente interessados, os que desejam de fato descobrir a Verdade relativa aos seus problemas, devem, naturalmente, colocar à margem, tudo quanto é autoridade. Isto é dificílimo, porque quase todos nós estamos cheios de temor. Precisamos de alguém para nos escorar, para nos dar coragem; precisamos do “irmão mais forte” — aquele que mora na Rússia, ou na Inglaterra, ou na América, ou do outro lado do Himalaia, ou “ali na esquina”. Todos precisamos de alguém para nos ajudar. Enquanto estivermos encostados em alguém, nunca chegaremos a compreender o “processo” do nosso pensar; negaremos assim, a nós mesmos, o descobrimento da Verdade.

 

Escutem o que estou dizendo; não o rejeitem, pois ainda não resolveram o problema de vocês e ainda são tão infelizes como antes. Enquanto estiverem seguindo um guru ou seus líderes políticos, estarão confusos. Há uma única maneira de resolver este problema, que é pela compreensão de si mesmos, nas suas relações, de momento em momento, de dia em dia: os antagonismos, os ódios, as paixões, o amor efêmero etc. estão embaraçados no problema, e só o resolverão quando o aceitarem, quando o virem tal qual é. Só depois de o resolverem, terão a possibilidade de libertar do condicionamento a mente de vocês, deixando assim a Verdade reinar.”

— Jiddu Krishnamurti, em “Autoconhecimento — Base da Sabedoria”

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Compartilhado por Arthur Zuin Salustiano, publicado originamente por Pensar Compulsivo.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

1 Comentário

  • A verdade revela-se em nós quando deixamos de ocupar a nossa atenção na sua busca. Pois a verdade não pode ser procurada, encontrada ou criada, ela é como é, sendo plena. E nós somos essa verdade. Enquanto humanos poderemos ser orientados por “mestres” que nos apontam o caminho de regresso à fonte, a casa, e que é dentro de nós. Já somos perfeitos assim como somos, basta relembrar quem somos e todas as dúvidas terminam.

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