“Queremos saciar nossa sede em caráter permanente, só que nada funciona”: Charlotte Joko Beck

nada-especial-joko-beck“Quer pareçamos seguros de nós, quer não, por baixo dessa camada todos nós sentimos que alguma coisa está faltando“. O que é? Como resolver? Tem um jeito?

Isso que está faltando é uma espécie de sede básica permanente, diz a mestra zen americana Charlotte Joko Beck (1917-2011) no livro “Nada Especial: Vivendo Zen” (1994) que segue reproduzido abaixo, capítulo “A Promessa Que Nunca é Cumprida” (só pelo título já dá pra saber onde ela vai chegar). Autora também de “Sempre Zen – Como Introduzir a Prática do Zen em Seu Dia-a-Dia” e criadora do San Diego Zen Center (SDZC), na California (EUA), Joko Beck usa a sede como metáfora para a sensação de permanente insatisfação que levamos em nossas vidas, em um nível geralmente subconsciente mas muito presente em atitudes e percepções cotidianas, desde o primeiro momento ao “acordarmos” pela manhã — uma insatisfação que poderíamos comparar ao “sofrimento” do qual trata o Buda Shakyamuni, dukkha. Não é uma insatisfação especial com um evento ou uma compra ou algo assim, é a sensação de que algo está faltando, uma sensação de carência, que precisa de um próximo ato, e de um próximo, e assim por diante. “O problema é que de fato nada funciona“, diz ela.

É a promessa que nunca é cumprida, porque não há como. E talvez o pior problema então seja que a gente continue acreditando que algo realmente vai funcionar. Enquanto isso, a sede e a busca por essa mangueira que resolva as sedes “tira” a pessoa da própria vida, suspende-a do momento presente para uma outra dimensão, ilusória. A dimensão da escassez psíquica, o território da sede. Sobre esse movimento incessante, o filósofo Osho diz que nos perdemos inteiramente nele, estamos num lugar já planejando ir a outro, e a outro: “onde quer que você esteja, você já está indo a um outro lugar; essa vida incompleta cria desejo pela vida; e você tem que completar um monte de coisas” (The Alchemy of Yoga, 2005).

O texto é recomendação de uma amiga do blog, Ana Paula Souza, que também chama a atenção para outra parte interessante do texto: o fato que Joko Beck “coloca a própria prática na lista de coisas que não vão dar certo“. O trabalho, assim, passa a ser feito diretamente sobre as decepções, que é a reação ao que não dá certo.

É uma corrida cujo destino parece reproduzir sua origem logo à frente, criando um movimento perpétuo. Por achar que falta algo, corremos atrás. Ao correr atrás, a sensação de faltar algo se consolida. O ambiente mental passa a ser sempre de expectativa, nunca de satisfação ou plenitude. Ao criar uma meta que hipoteticamente resolverá o momento presente de sede, passamos a persegui-la como o destino final de um itinerário, e este itinerário passa a ser uma espécie de sacrifício necessário. Um itinerário que chamamos de vida.

O trecho do livro de Charlotte Joko Beck segue abaixo.

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NADA ESPECIAL” (TRECHO, Editora Saraiva, 1994]
Por Charlotte Joko Beck 

Nossos problemas decorrem do desejo. No entanto, nem todos os desejos criam problemas. Existem dois tipos de desejos: as exigências (“Tenho que ter isso”) e as preferências. As preferências são inócuas; podemos ter tantas quantas quisermos. O desejo que exige ser satisfeito é que é o problema. É como se nos sentíssemos constantemente com sede e, para saciá-la, tentássemos ligar uma mangueira a uma torneira na parede da vida. O tempo todo pensamos que desta ou daquela torneira iremos receber a água que exigimos. Quando ouço o que meus alunos tem a dizer, todos parecem sentir sede de alguma coisa. Podemos conseguir um pouco de água cá e lá, mas isso apenas nos tortura. Sentir sede, bastante sede, não tem graça nenhuma.

Quais são algumas das torneiras às quais recorremos para saciar nossa sede? Uma pode ser o emprego que achamos que devemos ter. Outra pode ser “o par ideal”, ou “o filho que se comporta sempre como deve”. Dar um jeito numa relação pessoal pode parecer ser o caminho para chegar naquela água. Muitos acreditam que por fim saciarão sua sede se enfim conseguirem dar um jeito em si mesmos. Não tem o menor sentido que o eu tente consertar o eu, mas insistimos em fazer isso. O que chamamos de nós mesmos nunca nos é muito aceitável. “Não consigo fazer o bastante”; “Não sou bem-sucedido o suficiente”; “Estou sempre com raiva, não valho nada”; “Sou mau aluno”. Exigimos um número incontável de coisas de nós e do mundo; praticamente qualquer coisa pode ser vista como desejável, como um soquete ao qual nos atarrachamos para podermos enfim conseguir a água que acreditamos necessitar. As livrarias estão repletas de livros de auto-ajuda proclamando vários remédios para a nossa sede: Como fazer seu marido amá-la, Como aumentar sua auto-estima, e assim por diante. Quer pareçamos seguros de nós, quer não, por baixo dessa camada todos nós sentimos que alguma coisa está faltando.

Achamos que precisamos dar um jeito na nossa vida para saciar nossa sede. É preciso que criemos essa ligação, que instalemos nossa mangueira na torneira e recebamos a água para beber. O problema é que nada de fato funciona. Começamos a descobrir que a promessa que fizemos a nós mesmos « a de que, de alguma maneira, nossa sede seria resolvida » nunca é cumprida. Não estou querendo dizer que nunca gozamos a vida. Há muitas coisas na vida que podem ser intensamente desfrutadas: certos relacionamentos, certos trabalhos, certas atividades. Mas o que nós queremos é uma coisa absoluta. Queremos saciar nossa sede em caráter permanente, para que tenhamos toda a água que quisermos, o tempo todo. Essa promessa da completa satisfação nunca é cumprida. Não pode se-lo. No instante em que conseguimos algo que quisemos, ficamos satisfeitos no momento e então nossa insatisfação aparece de novo.

Tentamos durante anos a fio ligar nossa mangueira nesta ou naquela torneira e a cada vez descobrimos que não era o suficiente, e então vem um momento de profundo desânimo. Começamos a sentir que o problema não está em nossa incapacidade de ligar um receptor a algo lá adiante, mas em que nada externo pode jamais satisfazer essa sede. É nesse momento que temos mais chance de dar início a uma prática séria. Esse pode ser um momento horrível: perceber que nada irá jamais nos satisfazer. Talvez tenhamos um bom emprego, um bom relacionamento ou família, e no entanto continuamos com sede — e nos damos conta de que nada realmente consegue satisfazer nossas exigências. Podemos inclusive perceber que mudarmos de vida « mudar os móveis de lugar » não vai funcionar também. O momento desse desespero é, na realidade, uma benção, o verdadeiro começo.

Uma coisa estranha acontece quando abrimos mão de todas as nossas expectativas. Temos um vislumbre de outra torneira, que até então tinha permanecido invisível. Ligamos nossa mangueira a ela e, para o nosso prazer, descobrimos que a água vem jorrando com força. Pensamos: “Agora sim! Consegui!”. E o que acontece? Mais uma vez, a água seca. Trouxemos para a própria prática todas as nossas exigências e de novo estamos com sede.

A prática tem de ser um processo de intermináveis decepções. Temos de enxergar que tudo o que exigimos (e até obtemos) irá depois nos decepcionar. Essa descoberta é nossa mestra. É por isso que devemos tomar cuidado com amigos que estão em dificuldades, para os quais não devemos demonstrar nossa simpatia acenando-lhes com falsas esperanças e promessas de tranquilidade. Essa espécie de simpatia « que não é a verdadeira compaixão » simplesmente retarda mais seu aprendizado. Em certo sentido, a melhor ajuda que podemos oferecer a alguém é apressar seu desapontamento. Embora isso pareça cruel, não o é, na verdade. Ajudamos aos outros e a nós mesmos quando começamos a enxergar que todas as nossas exigências habituais são mal direcionadas. Com o tempo, iremos nos tornar espertos o suficiente para antecipar qual será nossa próxima decepção, para saber que nosso próximo esforço de saciar a sede também fracassará. A promessa nunca é cumprida. Mesmo com muitos anos de prática, ás vezes continuamos buscando soluções falsas, mas conforme vamos em seu encalço, reconhecemos a inutilidade desse empenho com uma rapidez maior. Quando ocorre essa aceleração, nossa prática está dando resultados. Uma boa prática inevitavelmente promove essa aceleração. Devemos notar a promessa que desejamos arrancar das outras pessoas e abandonar o sonho de que elas possam saciar nossa sede. Devemos nos dar conta de que essa é uma iniciativa inútil.

Os cristãos chamam essa constatação de a “noite escura da alma”. Já esgotamos todos os recursos de que dispomos e não vemos mais o que fazer a seguir. E então sofremos. Embora seja um período de aguda infelicidade, esse sofrimento é o ponto de mudança. A prática nos conduz a esse profícuo sofrimento e ajuda-nos a permanecer nele. Quando assim fazemos, em algum momento o sofrimento comeca a se transformar, e a água começa a fluir. Para que isso aconteça, todos os nossos lindos sonhos a respeito da vida e da prática tem que se despedir, incluindo a crença de que uma boa prática — aliás, qualquer coisa irá nos fazer felizes. A promessa que nunca será cumprida se baseia em sistemas de crenças, em pensamentos centrados na própria pessoa, que nos sustentam imobilizados e sedentos. Temos milhares deles. É impossível eliminá-los todos; não vivemos o bastante para isso. A prática não requer que nos livremos deles, mas que simplesmente enxerguemos além deles e os reconheçamos em seu vazio e em sua ausência de validade.

Jogamos esses sistemas de crenças para todo lado como arroz em festa de casamento. Aparecem por toda parte. Por exemplo, quando vai chegando perto do Natal, alimentamos expectativas de que essa seja uma época agradável e divertida, uma bela época do ano. Se esses dias de Natal não satisfazem nossas expectativas, ficamos deprimidos e contrariados. Na realidade, o Natal será o que for, quer nossas expectativas sejam realizadas, quer não. Da mesma maneira, quando descobrimos a prática zen, podemos alimentar a esperança de que isso irá solucionar nossos problemas e tornar nossas vidas perfeitas. Mas a prática zen simplesmente nos remete de volta à vida como ela é. A prática zen trata de sermos mais e mais as nossas vidas tais quais são. Nossas vidas são o que são, e o zen nos ajuda a reconhecer esse fato. O pensamento “Se eu cumprir essa prática com a paciência necessária, tudo será diferente” é um outro sistema de crenças, uma outra versão da promessa que nunca será cumprida.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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