“Tentando fazer finas iguarias cozinhando pedras e areia: porque não chegamos a lugar nenhum, por Lama Padma Samten

Tão sofrível quanto estar perdido na ignorância é estar perdido na ignorância e achar que está andando firmemente para a sabedoria. É desse assunto que trata o mestre budista brasileiro Lama Padma Samten, fundador do Centro de Estudos Budistas Bodisatva (CEBB), nesse texto intitulado “Ilusões Perturbadoras“, expressão que ele cita como sendo usada pelo próprio Buda para descrever a vida dos seres que se movem pela mente cármica individual e se desenvolvem de forma condicionada num movimento sem fim. O ciclo do samsara, cuja tradução grosseria poderia ser andar em círculos vivendo, sofrendo e morrendo, se repete diversas vezes, criando confusão e fazendo os seres buscarem as mais diversas práticas errôneas, “como se estivessem tentando preparar finas iguarias cozinhando pedras e areia“.

Como escapar das diversas práticas errôneas? Compreendendo o que Lama cita ser “os dois princípios fundamentais“: o primeiro é sobre a causa básica da sucessão de mortes e renascimentos, e o segundo é o princípio da pura unidade e iluminação. O Lama explica um pouco no texto, mas basicamente para a compreensão profunda desses dois princípios é necessário estabilizar a mente na sua natureza básica, e isso se faz com meditação.

O texto foi disponibilizado originalmente pelo Grupo de Estudos e Práticas Budistas Shunya, que é budista não-sectário, e a quem agradecemos pela divulgação e a possibilidade de recompartilhá-lo.

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ILUSÕES PERTURBADORAS
Por Lama Padma Samten

Essas dificuldades não são novas. No Surangama Sutra, o Buda diz a Ananda, seu discípulo dileto: “Ananda, desde épocas infinitamente remotas, de vida em vida, todos os seres sencientes – os seres que se movem pela mente cármica e vivem a experiência dos seis reinos do samsara – têm mantido suas ilusões perturbadoras. Sob o poder de seus carmas individuais, direcionam seu desenvolvimento natural de forma condicionada, tal como o quiabo que, quando aberto, sempre oferece três sementes em cada grupo.

A razão pela qual nem todos os discípulos devotados atingiram a suprema iluminação é não terem sido capazes de compreender os dois princípios fundamentais. Assim, tornaram-se mentalmente confusos e caíram em práticas errôneas. E como se estivessem tentando preparar finas iguarias cozinhando pedras e areia. A nada chegarão, mesmo que tentem por incontáveis kalpas.Quais são esses dois princípios, Ananda? O primeiro refere-se à causa básica da sucessão de mortes e renascimentos desde tempos sem inicio. É o princípio expansivo da dualidade, individualização, manifestação, transformação e sucessão. O segundo princípio fundamental é a pura unidade, a iluminação, existente desde tempos sem inicio. Buscando-o no brilho de sua própria natureza, esse espírito unificador pode ser descoberto e vivenciado, mesmo sob a variedade de causas e condições.”

No Surangama Sutra, o Buda ensina que os seres sencientes, desde tempos sem início, buscam as soluções externamente, e isso os leva à expansão e ao sofrimento. Expansão porque estão constantemente desejando, construindo, criando, modificando. E sofrimento porque tudo o que desejam, constróem, criam ou modificam é impermanente: tem começo, meio e fim. Além disso, nem sempre obtêm o que desejam e freqüentemente se defrontam com o que não querem. Por esse caminho, não chegam a lugar algum – os seres movem-se pela insatisfação e obtém o sofrimento como resultado.

O Buda diz também que na própria natureza básica da mente está a iluminação, um principio fundamental unificador, puro, perfeito, sem obstruções, totalmente abrangente, além do espaço e do tempo, e, ainda assim, capaz de ser vivenciado mesmo sob a variedade de condições. Nas palavras de Sua Eminência Jamgon Kongtrul Rinpoche III: “A experiência da mente não-obstruida vem da prática da estabilidade sobre sua natureza básica. A visão não-obstruída é que se chama de claridade ou luminosidade da mente. Não reconhecendo a natureza fundamental não-condicionada, temos a noção de objetos ou de outros e nos fixamos nisso. A natureza básica da mente está além de surgimentos e desaparecimentos, de obstruções e sensações, de fixação em um ponto”.

A busca da estabilidade na natureza básica da mente é o caminho direto da meditação, aquele no qual se busca praticar a mente liberta, a condição de libertação. Reconhecendo que a natureza intrínseca de cada ser é a liberdade e a iluminação – a mesma essência do Buda -, praticar é sentar, relaxar a mente e deixá-la, por si mesma, repousar em sua condição natural. Não há nada a ser buscado ou rejeitado. Apenas repousa-se na condição natural. Imagine um copo com água turva que, pela decantação se toma cristalina. Com a prática contínua e gradual, a mente começa a clarear por si mesma e termina por revelar sua natureza pura e cristalina. Não é algo voltado a acumular méritos para o futuro. É a própria prática da iluminação.

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Foto: Facebook Lama Padma Samten.
Compartilhado originalmente pelo Grupo de Estudos e Práticas Budistas Shunya.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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