O valor dos “criadores de problemas”: instruções de Shantideva para a vida, explicadas por Pema Chödrön

shantideva-bodhisatvaDoze séculos antes do psiquiatra suíco Carl Jung (1875-1961) dizer que “tudo que nos irrita nos outros pode nos levar a um maior entendimento de nós mesmos” (Memories, Dreams, Reflections, 1963), o celebrado mestre budista indiano Shantideva, do século XIII, havia ensinado magnanimamente sobre o que nos irrita nos outros, ou melhor, sobre o valor do que aqueles que chamamos de “criadores de problemas” fazem e como vivemos com isso. No seu famoso “Bodhicaryavatara“, ou “Um Guia Para o Caminho do Bodisatva“, um longo poema que fala sobre a liberdade e a abertura da mente, e de valores como paciência, entusiasmo e disciplina, Shantideva ensina sobre algo muito maior do que Jung se referia: traça o caminho para o coração do despertar. E o faz transformando aparentes obstáculos (quem não tem alguns encrenqueiros ou relacionamentos “problemáticos” no seu mundo?) em instrumentos de suma importância para ver com clareza e viver em liberdade.

Abaixo, o verso 99 do Capítulo 6 (Paciência), e logo depois um comentário da monja budista Pema Chödron em seu livro “Sem Tempo a Perder” (No Time To Lose – A Timely Guide To The Way of the Boddhisatva)

O verso 99 de “O Caminho do Bodisatva“, de Shantideva:

Então, esses que me difamam
E vem destruir meu orgulho
Estão envolvidos em me proteger
De entrar nos reinos infelizes.

(*) tradução de Rogel Samuel, do Arquivo de Budismo.

A explicação de Pema Chödrön, em “Sem Tempo a Perder – O Caminho do Bodisatva“:

“Com o verso 99, Shantideva inicia uma seção pra falar do valor dos criadores de problemas. Considerando que ele viveu em um monastério onde era amplamente desrespeitado, essa deve ter sido uma de suas principais práticas. Ele provavelmente tinha uma grande oportunidade de aplicar o conselho que dá aqui.

 

Aqueles que nos dificultam a vida, que são difíceis de conviver e que constantemente nos incomodam são aqueles que nos mostram exatamente onde estamos estagnados. O grande mestre de meditação Atisha sempre viajava com seu beligerante garoto do chá bengalês, porque ele o mantinha honesto. Sem seu servente de temperamento doentio para testá-lo, ele poderia ter sido capaz de ter se decepcionado com seu próprio grau de equanimidade. Apostem mais nos criadores de problemas: se pudermos praticar paciência com eles, podemos praticar com qualquer um”.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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