Essa é a maneira que eu tenho que supor que a vida é? Alan Watts e a natureza da consciência

Quando se fala em despertar, isso significa desipnotização“, diz o filósofo zen-budista Alan Watts (1915-1973), nas bases desse discurso de 2h sobre “A Natureza da Consciência“, de 1960, que tem apenas um trecho traduzido e reproduzido abaixo. Na essência da mensagem, a reflexão cada vez mais profunda sobre nosso senso comum, sobre nossas crenças sobre o que é a vida, “cuja inflluência é mais forte do que a maioria das pessoas imagina”. Não sei até onde os discursos de Watts conseguem espetar e provocar as pessoas para tantas visões pré-concebidas sobre tudo a respeito da vida, mas certamente vale a leitura, como a desse trecho em que ele traz a explicação sobre o aparecimento da inteligência humana implícita na existência das pedras.

O discurso completo com o áudio contendo a voz de Alan Watts pode ser ouvido no YouTube (em inglês, sem legendas), que segue incorporado mais abaixo, e o texto integral (também em inglês) está no site The Deoxyribonucleic Hyperdimension.

Veja outros posts de Alan Watts aqui no Dharmalog.

Segue o trecho de “A Natureza da Consciência”:

“Olhe aqui, peguemos a propagação de uma corrente elétrica. Podemos ter uma corrente elétrica indo através de um fio que vai em torno de todo o planeta Terra. E aqui temos uma fonte de força, e aqui temos um interruptor. Um pólo positivo, um polo negativo. Agora, antes que o interruptor se feche, a corrente não se comporta como água num cano. Não há corrente aqui, esperando pra pular no vão assim que o interruptor é acionado. A corrente sequer começa até que o interruptor seja acionado. Nunca começa a menos que o ponto de chegada esteja lá. Agora, vai levar um intervalo de tempo para que a corrente seja acionada nos seu circuito se ela for em torno de toda a Terra. É um caminho longo. Mas o ponto final tem que ser fechado antes que ela sequer comece do início. De uma maneira parecida, mesmo que no desenvolvimento de qualquer sistema física possam existir bilhões de anos entre a criação do mais primitiva forma de energia e a chegada a vida inteligente, os bilhões de anos são a mesma coisa que a viagem da corrente elétrica através do fio. Leva um tempo. Mas já está implicada. Leva tempo para qualquer semente se transformar num carvalho, mas o carvalho já está implicado na semente. E assim em qualquer pedaço de pedra flutuando no espaço há implícito a inteligência humana. Em algum momento, de alguma forma, em algum lugar. Eles sempre estão juntos.

 

Então não se diferencie e se separe e diga “Eu sou um organismo vivendo em um mundo feito de um monte de matéria morta, pedras e coisas assim”. Tudo está junto. Aquelas pedras são tão você quando suas unhas. Você precisa de pedras. Sobre o que você vai ficar em pé?

 

O que acho que um despertar realmente envolve é uma re-exame do nosso senso comum. Temos todo o tipo de idéias construídas sobre nós que parece inquestionáveis, óbvias. E nosso discurso as reflete; suas frases mais comuns. “Encare os fatos”. Como se eles estivessem fora de você. Como se a vida fosse algo que eles encontrassem como se fosse estrangeiros. “Encare os fatos”. Nosso senso comum tem sido fraudado, consegue ver? De uma forma que nos sentimos estrangeiros e alienígenas neste mundo, e isso é terrivelmente plausível, simplesmente porque fomos acostumados a isso. É a única razão. Mas quando você começa a realmente questionar isso, digamos “Essa é a maneira que eu tenho que supor que a vida é? Eu sei que todo mundo supõe, mas isso a torna verdadeira?”. Não necessariamente. E não é necessariamente assim. Então quando você questionar essa suposição básica que permeia nossa cultura, você vai encontrar um novo tipo de senso comum. Se torna absolutamente óbvio pra você que você é contínuo com o universo.”

~ Alan Watts, em “The Nature of Consciousness” (1960)

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Foto de Don Harder, editada (licença de uso BY-NC – Creative Commons).

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

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