A força da entrega e da gratidão realmente muda as coisas ao redor: de David Godman, tradutor de Ramana Maharshi

Uma história compartilhada por David Godman, um dos principais tradutores dos ensinamentos do sábio indiano Sri Ramana Maharshi (1879-1950), trata da entrega do ser humano a uma força superior ou mais ampla e dominante (do que si mesmo), que tanto ele quando Ramana se referiam como “Deus”. A maioria de nós, ou todos nós, como diz Godman, não queremos saber disso até que o próximo grande problema ou tragédia assole nossa vida, aí paramos e pedimos (ou imploramos) para sabe-se-lá-o-que, uma força maior, algo assim, pois ninguém sabe direito que coisa pode ser, se é que há tal coisa. Mas, na necessidade, apelamos ao “último recurso“.  Talvez seja necessário, no entanto, um raciocínio simples e anterior: se há realmente algo maior, dominante, na qual estamos inseridos e somos parte, isso não poderia ser tratado como último recurso para nossas próprias ações.

O texto abaixo é a resposta de Godman para a seguinte pergunta: “A entrega a Deus ou a um guru é rara nos dias de hoje. Mas você mencionou que em sua vida frequentemente você simplesmente tinha que se entregar. Você poderia contar algumas incidentes da sua vida para ilustrar esse sentimento de entrega ao destino?”. O texto está compartilhado em seu site oficial.

Segue a resposta:

“Todos pensamos que estamos no controle de nossas vidas, que somos responsáveis por nosso bem-estar e pelo bem-estar de quem depende de nós. Podemos reconhecer num nível teórico que Deus está no comando do mundo, que Deus faz tudo, mas isso não nos faz parar de planejar e esquematizar e fazer. Algumas vezes, quando encontramos algo que não podemos controlar – uma criança pode estar morrendo de leucemia apesar de receber o melhor tratamento médico – então nos viramos para Deus e pedimos intervenção divina. Isso não é entrega, é apenas mais ação. É buscar uma fonte extra quando todas as tradicionais falharam. A entrega é diferente. É reconhecer que Deus sustenta o mundo cada minuto de cada dia, que Ele não é somente um recurso extra, um deus ex machina, que procuramos quando precisamos. A entrega não é pedir que as coisas sejam diferentes; é a aceitação e a gratidão pelas coisas como são. Não é um estoicismo falso ou forçado, é a experiência de alegria na ação de Deus, qualquer que seja ela.

Cerca de 20 anos atrás eu li um livro cristão chamado “Obrigado, Deus”. A tese básica dele era que deveríamos agradecer a Deus continuamente pela jeito que as coisas estão agora, e não pedir-Lhe que sejam diferentes. Isso significa agradecê-Lo por todas as coisas terríveis que estão acontecendo em nossa vida, não apenas agradecê-Lo pelas coisas boas que estão em nosso caminho. E isso não deveria ser apenas no nível verbal. Precisamos nos manter dizendo “Obrigado Deus” para nós mesmos até que realmente sintamos uma aura de gratidão. Quando isso acontecer, há consequências marcantes e inesperadas.

Deixe-me dar um exemplo. Havia uma mulher neste livro cujo marido era um alcóolatra. Ela tinha organizado reuniões de oração na igrela local em que todos rezavam a Deus, pedindo-Lhe que este homem parasse de beber. Nada aconteceu. Então essa mulher ouviu falar sobre o “Obrigado Deus”. Ela pensou, “Bem, nada mais funcionou. Vou tentar isso”. Ela começou a dizer, “Obrigado Deus por fazer meu marido um alcóolatra”, e continuou dizendo isso até que ela realmente começou a sentir gratidão internamente. Pouco tempo depois, o marido dela parou de beber por conta própria e nunca mais tocou no álcool de novo. Isso é entrega. Não é dizer, “Desculpe-me Deus, mas eu sei que melhor que Você, então você por favor poderia fazer isso acontecer”, é reconhecer, “O mundo é do jeito que Você quer que seja, e eu agradeço-Lhe por isso”. Quando isso acontecer na sua vida, algumas coisas miraculosas começam a acontecer ao seu redor. A força da própria entrega, da sua própria gratidão, realmente muda as coisas ao seu redor.

Quando li isso pela primeira vez, pensei, “Isso é esquisito, mas pode funcionar. Deixe me tentar”. Naquela época na minha vida, eu estava tendo problemas com quatro de cada cinco pessoas com que eu tentava fazer alguma coisa. Apesar dos lembretes diários, elas não estão fazendo as coisas que tinha prometido fazer. Sentei e comecei a dizer, “Obrigado por Mr X não fazer seu trabalho. Obrigado por Mr Y por tentar me trapacear naquele negócio que fizemos”, e assim por diante. Fiz isso por algumas horas até que finalmente comecei a sentir uma sensação forte de gratidão em direção a essas pessoas. Quando a imagem delas apareceu na minha mente, não lembrava de todas as frustrações que tinha vivindo ao lidar com elas. Tinha apenas uma imagem delas em minha mente que sentia gratidão e aceitação. Na manhã seguinte. quando fui trabalhar, todas as pessoas estava esperando por mim. Geralmente, eu ia atrás delas e ouvia qual era a mais nova desculpa que tinham. Todas elas estava sorrindo, e todas elas tinha feito os trabalhos que eu estava importunando durante dias para fazerem. Foi um testemunho inacreditável da força da aceitação amorosa. Como qualquer um, ainda estou preso no mundo do fazer-fazer-fazer, mas quando todos os meus fazeres equivocados produzem uma confusão irascível, tento largar minha crença que “Eu” tenho que fazer algo para resolver esse problema, e começo a agradecer a Deus pela bagunça que fiz por mim mesmo. Alguns minutos disso geralmente é suficiente para resolver o mais espinhoso dos problemas.

Quando eu tinha 16 anos, fiz um curso de vôo. A primeira vez que me deram os controles, o planador se balançou todo porque eu estava reagindo, ou eu deveria dizer exagerando minha reação, a cada pequena flutuação da máquina. Por fim, o instrutor pegou os controles de mim e disse “Observe isso”. Ele colocou o planador no nível vôo, colocou os controles na posição central e então soltou. O planador voou sozinho, sem qualquer balanço, sem que ninguém estivesse com as mãos nos controles. Todas as minhas ações estavam na verdade interferindo com a habilidade natural do planador de voar sozinho. Assim é a vida para todos nós. Continuamos a pensar que temos que ‘fazer’ coisas, mas todas as nossas ações meramente causam problemas. Não estou dizendo que aprendi e tirar minhas mãos do controle da vida e deixo Deus pilotar minha vida para mim, mas lembro de tudo isso, com uma alegria irônica, quando os problemas (auto-infligidos, claro) aparecem do nada. Algumas semanas atrás, por exemplo, me encontrei no meio de uma drama editorial que parece ser essencialmente insolúvel. Era uma confusão tal que eu nem tentava conversar com as pessoas envolvidas. Fui para o samadhi de Sri Ramana, colocou o manuscrito na frente dele, e expliquei o que tinha acontecido. Agradeci-lhe pelo drama e disse, “Isso é responsabilidade sua, não minha”. Meus olhos se fecharam quando eu disse isso. Quando os abri, um velho amigo estava lá, me oferecendo biscoitos de chocolate, algo que nunca tinha acontecido antes. Aceite-os como oferenda a Ramana. Naquele dia mais tarde o problema foi resolvido em cinco minutos. Todos os protagonistas (que eram duros antagonistas até um dia atrás) se uniram e o trabalho foi finalizada amigavelmente em tempo recorde.”

~ David Godman, na entrevista “Living the Inspiration of Sri Ramana Maharshi”

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

2 Comentários

  • Please, give-me of name in Portuguese this book … “a Christian book entitled Thank You God. Its basic thesis was that one should continuously thank God for the way things are right now, not petition Him for things to be different”.

    Thanks

    Luiza

  • É maravilhoso e verdadeiro Deus atuando em nossas vidas.É simples e natural.Ás vezes fico pensando em mim quando era criança, tudo tão simples, pais simples vida simples, e eu, naturalmente como toda criança não tinha nenhuma idéia do que eu seria no futuro e a vida, a Força Oculta que move toda a vida, sempre conduzindo a minha vida também em silêncio, amoroso, e eu, tão somente vivia no segredo do coração de Deus!
    Interessante, que sempre tive uma intimidade com Deus, como se fosse só comigo(rs)…Hoje eu vejo, percebo que essa relação com Deus é natural de toda a criação!E a busca, o anseio por esta Força-Deus é de todos nós!Maravilha a Consciência de estar em Deus, de ser de Deus! Maravilha a vida que Este Deus me dá, me concede, e me permite continuar estando nÊle e com Êle!Deus, nossa Sede, nosso Amor, nosso Senhor!O mistério de Deus é infinito! Tantos, inúmeros estudiosos dos mais variados naipes buscaram e ainda buscam alcançar e entender seu fascínio sobre as criaturas, em vão!” Senhor, fizestes-nos para Vós, e nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Vós” Agostinho-Teólogo cristão

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