“Vivemos num mundo no qual o homem deve esperar milagres apenas de si mesmo”: a liberdade por Simone Weil

Que felicidade e que liberdade afinal queremos e perseguimos?

Perseguimos? Ou sonhamos? Queremos? Idealizamos?

Qual liberdade? A da satisfação dos desejos? A de não ter trabalho e só prazeres? A da ausência de necessidades?

E o que tem a ver o autodomínio com essa liberdade? E a disciplina, teria também alguma coisa a ver?

Um pequeno recorte de um texto de Simone Weil (1909-1943), a filósofa e ativista francesa, busca essas respostas através do endereçamento direto dessas questões, que parece que tomamos por dado, como se todos falássemos da mesma liberdade, da mesma felicidade e do mesmo modo de proceder em direção a essas coisas — mas que há tantas diferenças quanto há almas neste mundo. O alvo de Weil é a nossa responsabilidade pela construção da parte da realidade que nos cabe, sem auto-enganos nem desenganos, que algumas vezes até podem atender pelo nome sedutor de “sonhos” ou “revoluções”. O raciocínio nas respostas quase flerta com o transcendentalismo, com a consciência universal e a liberdade do espírito, mas não o faz, permanece numa visão política onde o mundo parece ser inevitavelmente hostil, “sem piedade”, e onde cabe a nós fazermos por onde. Para isso, é preciso sair do mundo das ilusões e enfrentar a realidade, esse o ponto forte dessas palavras, cativante, construtor. E, porque não, espiritual.

O trecho é do livro “A Condição Operária e Outros Estudos Sobre a Opressão” e nasce das inquietações de Simone Weil numa época de pré-Segunda Guerra e de opressão capitalista, como também das percepções dela sobre o Marxismo, mas é um discurso de humanismo, de

“A verdadeira liberdade não se define como uma relação entre o desejo e a satisfação, mas como uma relação entre o pensamento e a ação.”
~  Simone Weil

O trecho de “A Condição Operária e Outros Estudos Sobre a Opressão“:

“Entretanto, nada neste mundo pode impedir o homem de se sentir nascido para a liberdade. Nunca, aconteça o que acontecer, ele pode aceitar a servidão, porque ele pensa. Nunca deixou de sonhar com uma liberdade sem limites, seja como uma felicidade passada da qual um castigo o teria privado, seja como uma felicidade vindoura que lhe seria devida por uma espécie de pacto com uma providência misteriosa. O comunismo imaginado por Marx é a mais recente forma desse sonho. Esse sonho sempre foi vão, como todos os sonhos, ou, caso console, foi só como o ópio; já é tempo de renunciar a sonhar com a liberdade e de se decidir a concebê-la.

 

É a liberdade perfeita que é preciso que nos esforcemos por representar com clareza, não na esperança de atingi-la, mas na esperança de atingir uma liberdade menos imperfeita, que é a nossa atual condição; pois só através do perfeito se pode conceber o melhor. Não nos podemos dirigir senão para um ideal. O ideal é tão irrealizável quanto o sonho, mas, ao contrário do sonho, ele tem relação com a realidade; permite, na qualidade de limite, que organizemos situações reais ou realizáveis na ordem do menor ao mais alto valor. A liberdade perfeita não pode ser concebida como se consistisse simplesmente no desaparecimento dessa necessidade cuja pressão suportamos continuamente; enquanto o homem viver, isto é, enquanto ele for um ínfimo fragmento deste universo sem piedade, a pressão da necessidade não se afrouxará nunca um só momento. Um estado de coisas, no qual o homem tivesse tantos prazeres e tão poucos cansaços quantos quisesse, não pode acontecer senão por ficção no mundo em que vivemos. Ê a natureza, em verdade, mais clemente ou mais severa com as necessidades humanas, conforme os climas e talvez conforme as épocas; mas esperar a invenção milagrosa que a tornasse clemente em todos os lugares e para sempre, é mais ou menos tão razoável quanto as esperanças que outrora se projetavam na data do ano mil. De resto, se examinarmos essa ficção de perto, veremos que ela não vale nem uma saudade. Basta olhar para a franqueza humana para se compreender que uma vida da qual a própria noção do trabalho tivesse quase desaparecido seria entregue às paixões e, talvez, à loucura; não há autodomínio sem disciplina, e não há outra fonte de disciplina para o homem senão o esforço exigido pelos obstáculos exteriores. Um povo de ociosos poderia divertir-se bem criando obstáculos, exercitando-se nas ciências, nas artes, nos jogos; mas os esforços que procedem só da fantasia não constituem para o homem um meio de dominar suas próprias fantasias. São os obstáculos contra os quais nos chocamos, e que temos de vencer, que fornecem a oportunidade para vencermos a nós mesmos. Até as atividades aparentemente mais livres, ciência, arte, esporte, só têm valor enquanto imitam a exatidão, o rigor, o escrúpulo próprios dos trabalhos, e até os exageram. Sem o modelo que, sem o saber, lhes fornecem o lavrador, o ferreiro, o marinheiro que trabalham como é necessário — usemos essa expressão de uma admirável ambigüidade — essas atividades naufragariam no despotismo puro. A única liberdade que é possível atribuir à idade de ouro é a liberdade que as criancinhas teriam, se os pais não lhes impusessem regras; é verdade que ela não passa de uma submissão incondicionada ao capricho. O corpo humano não pode deixar, hora nenhuma, de depender do poderoso universo no qual se insere; mesmo que o homem deixasse de estar submetido às coisas e aos outros homens pelas necessidades e perigos, ainda lhes estaria muito mais completamente entregue pelas emoções que lhe agitariam continuamente as entranhas, sem que nenhuma atividade regular o defendesse mais. Se tivéssemos de entender por liberdade a simples ausência de toda necessidade, essa palavra seria vazia de toda significação concreta; mas não representaria, então, para nós aquilo que tira o valor da vida quando nos é usurpado.

 

Pode-se entender como liberdade algo diverso da possibilidade de se obter sem esforço o que agrada. Existe um conceito bem diferente de liberdade, um conceito heróico que é o da sabedoria comum. A verdadeira liberdade não se define como uma relação entre o desejo e a satisfação, mas como uma relação entre o pensamento e a ação; seria totalmente livre o homem cujas ações, todas elas procedessem de um juízo prévio sobre o fim que ele se propõe e o encadeamento dos meios próprios que levam à esse fim. Pouco importa que as ações em si mesmas sejam fáceis ou dolorosas, e até pouco importa que elas tenham êxito; a dor e o insucesso podem tornar o homem infeliz, mas não podem humilhá-lo enquanto for ele próprio quem dispõe de sua faculdade de agir. E dispor de suas próprias ações não significa de forma alguma agir arbitrariamente; as ações arbitrarias não procedem de nenhum juízo, e não podem com exatidão ser chamadas de livres. Todo juízo se volta para uma situação objetiva, e, conseqüentemente, para uma trama de necessidades. O homem vivo não pode, em caso algum, parar de ser comprimido por todos os lados por uma necessidade totalmente inflexível; mas como ele pensa, tem a escolha entre ceder cegamente ao aguilhão pelo qual ela o empurra de fora, ou então, conformar-se com a representação interior que ele cria; é nisso que consiste a oposição entre servidão e liberdade. Os dois termos dessa oposição, aliás, não são mais senão limites ideais entre os quais se move a vida humana sem nunca atingir nenhum, caso em que deixaria de ser vida. Um homem seria completamente escravo se todos os seus gestos procedessem de uma outra fonte diversa do seu pensamento, a saber, as reações irracionais do corpo ou o pensamento de outrem; o homem primitivo faminto, cujos saltos são provocados pelos espasmos que retorcem suas entranhas, o escravo romano continuamente voltado para as ordens dum feitor com um chicote, o operário moderno que trabalha em linha de montagem. se aproximam dessa miserável condição. Quanto à liberdade completa, pode-se encontrar um modelo abstrato num problema de aritmética ou de geometria bem resolvido; pois, num problema, todos os elementos da solução estão dados, e o homem não pode esperar auxílio senão de seu próprio juízo, o único capaz de estabelecer entre esses elementos a relação que constitui por si mesma a solução procurada. Os esforços e as vitórias da matemática não ultrapassam o quadro da folha de papel, reino dos sinais e dos desenhos; uma vida inteiramente livre seria aquela em que todas as dificuldades se apresentassem como esses problemas, nos quais iodas as vitórias seriam como soluções em ação. Todos os elementos do êxito estariam então dados, isto é, conhecidos e manipuláveis, como são os signos do matemático; para se obter o resultado desejado, bastaria colocar esses elementos em relação graças à direção metódica que o pensamento imprimiria, não mais com simples riscos de pena, mas com movimentos efetivos que deixariam sua marca no mundo. Mais exatamente, o cumprimento de qualquer obra seria uma combinação de esforços tão consciente e tão metódica quanto pode ser a combinação de cifras com a qual se opera a solução de um problema quando ela procede da reflexão. O homem teria então constantemente seu próprio destino entre as mãos; forjaria a cada momento as condições de sua própria existência com um ato do pensamento. O simples desejo, é verdade, não o levaria a nada; ele não receberia nada gratuitamente; e até as possibilidades de esforço eficaz seriam para ele estreitamente limitadas. Mas o fato em si de não poder obter nada sem ter acionado, para conquistá-lo, todos os poderes do pensamento e do corpo permitiria ao homem arrancar-se, sem retorno, do domínio cego das paixões.

 

Uma visão clara do possível e do impossível, do fácil e do difícil, das dificuldades que separam o projeto da realização, faz, sozinha, desaparecerem os desejos insaciáveis e os medos vãos; é dai, e não de nenhuma outra fonte, que procedem a temperança e a coragem, virtudes sem as quais a vida é apenas um vergonhoso delírio. Além disso, toda espécie de virtude tem a sua fonte no encontro que faz o pensamento embater a uma matéria sem indulgência e sem perfídia. Não se pode imaginar nada maior para o homem do que um destino que o coloque diretamente no embate com a necessidade nua, sem que tenha nada a esperar senão de si mesmo, e de tal forma que a sua vida seja uma perpétua criação de si mesmo por si mesmo. O homem é um ser limitado a quem não é dado ser como o Deus dos teólogos, o autor direto de sua própria existência; mas o homem possuiria o equivalente humano desse poder divino, se as condições materiais que lhe permitem a existência fossem exclusivamente a obra de seu pensamento dirigindo o esforço de seus músculos. Essa seria a verdadeira liberdade.

 

Essa liberdade não é senão um ideal, e não pode também encontrar-se numa situação real assim como a reta perfeita, que não pode ser traçada com o lápis. Mas esse ideal será útil para conceber se podemos perceber ao mesmo tempo o que nos separa dele, e que circunstâncias nos podem afastar ou aproximar dele. O obstáculo que aparece em primeiro lugar é a complexidade e a extensão deste mundo com que lidamos, complexidade e extensão que ultrapassam infinitamente o alcance de nosso espírito. As dificuldades da vida real não são problemas dentro das nossas medidas. Parecem-se com problemas cujos dados fossem em quantidade inumerável, pois a matéria é duplamente indefinida em relação à extensão e à divisibilidade. Por isso é impossível para um espírito humano abranger todos os fatores dos quais depende o êxito da ação aparentemente mais simples; seja qual for a situação, há margem para inúmeros acasos, e as coisas fogem do nosso pensamento como fluidos que quiséssemos pegar com os dedos. Então pareceria que o pensamento só se pode exercer em vãs combinações de dignos e que a ação se deve reduzir ao mais cego tateamento. Mas, de fato, não é assim. É claro que nunca podemos agir com todas as garantias; mas isso não importa tanto como poderíamos acreditar. Podemos facilmente suportar que as conseqüências de nossas ações dependam de acasos incontroláveis, o que precisamos a qualquer preço retirar do acaso são as nossas próprias ações, e isso de maneira a submetê-las à direção do pensamento. Basta para isso que o homem possa imaginar uma corrente de intermediários que unam os movimentos de que ele é capaz aos resultados que ele quer obter; e muitas vezes ele o pode, graças à estabilidade relativa que persiste, através dos movimentos cegos do universo, na escala do organismo humano, e que é a única a permitir que esse organismo subsista. E claro que essa corrente de intermediários não constitui nunca senão um esquema abstrato; quando se passa à execução, podem a cada instante intervir acidentes para desviar os planos mais bem montados; mas se a inteligência soube elaborar claramente o plano abstrato da ação a executar, isso quer dizer que ela conseguiu não, é claro, eliminar o acaso, mas deixar-lhe uma margem circunscrita e limitada, e, por assim dizer, filtrá-lo, classificando em relação a esse plano a massa indefinida dos acidentes possíveis em algumas séries bem determinadas. Assim, o espírito não tem poder para se reconhecer nos inúmeros torvelinhos que formam o vento e a água em alto mar; mas, uma vez colocado em meio a esses torvelinhos um barco, cujas velas e leme estejam dispostos de uma ou de outra maneira, pode-se fazer a lista das ações que eles lhe podem fazer sofrer. Todos os instrumentos são, digamos assim, de uma forma mais ou menos perfeita, instrumentos para definir os acasos. O homem poderia dessa forma eliminar o acaso, senão à sua volta, pelo menos dentro de si mesmo; entretanto, até isso é um ideal inacessível. O mundo é fértil demais em situações cuja complexidade nos ultrapassa para que o instinto, a rotina, o tateamento, a improvisação nunca possam deixar de exercer um papel em nossos trabalhos; o homem só pode restringir cada vez mais esse papel graças aos progressos da ciência e da técnica, O que importa é que esse papel seja subordinado e não impeça o método de constituir a própria alma do trabalho. É preciso, também, que o consideremos provisório, e que rotina e tateamento sejam sempre considerados, não como princípios de ação, mas como mal menor destinado a preencher as lacunas do pensamento metódico; nisso as hipóteses científicas nos ajudam poderosamente, porque nos fazem conceber os fenômenos semiconhecidos como regidos por leis análogas às que determinam os fenômenos mais claramente compreendidos. E mesmo onde não sabemos de nada ainda, podemos supor que se apliquem essas leis; isso basta para eliminar, a despeito da ignorância, o sentimento do mistério, e nos fazer compreender que vivemos num mundo no qual o homem deve esperar milagres apenas de si mesmo.”

Simone Weil (1909-1943), em “A Condição Operária e Outros Estudos Sobre a Opressão” (Paz e Terra, 1996), pgs 326-331

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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