Uma visão da lei natural da interdependência, ensinamento central do Buda, nas palavras do Dalai Lama

Buda disse que na lei da interdependência está “o cerne dos meus ensinamentos“. Embora o cânone budista tenha longos, ricos e complexos detalhamentos sobre a realidade da interdependência, por ser justamente um ensinamento absolutamente central para entender a realidade segundo o Budismo, o XIV Dalai Lama Tenzin Gyatso traz uma visão básica de como abordá-la e entendê-la de maneira simples neste trecho abaixo, do livro “The Compassionate Life” (A Vida de Compaixão, Bertrand Brasil, 2002). É uma abordagem mais social e humana, que traz a dimensão dos atos e desejos “individuais” em relação à vida que estão interconectados com as outras pessoas, e nem precisa incluir tanto outros aspectos da interdependência de tudo, como o que o ser humano tem dos mundos microscópicos (e dentro do seu próprio corpo) e macroscópicos ao seu redor. Algumas vezes a lei de interdepedência é referida nos ensinamentos budistas como a “originação interdependente” ou “surgimento co-dependente” (prat?tyasamutp?da).

Um dos aspectos da ignorância a qual Buda se refere como causa do sofrimento é a ignorância a respeito justamente da realidade da interdependência. Sua compreensão sustenta também outros conceitos fundamentais como o da vacuidade (shunyata) e do karma, e ajudam a explicar os “três fatos da existência” – a impermanência (anicca); o sofrimento (dukkha) e o não-eu (anatt?).

O trecho abaixo foi transcrito/traduzido em parte pelo site darma.info e outra parte (final) por este blog.

“Reflita sobre o padrão básico de nossa existência. Para fazer mais do que apenas sobreviver, precisamos de abrigo, comida, companhia, amigos, respeito dos outros, recursos e tudo mais — essas coisas não surgem apenas de nós mesmos, são todas dependentes dos outros.

 

Suponha que uma pessoa fosse viver sozinha em um lugar remoto e desabitado. Não importa quão forte, saudável ou educada seja, não haveria possibilidade de ela levar uma existência feliz e satisfatória. […] Poderia tal pessoa ter amigos? Adquirir fama? Poderia se tornar um herói se quisesse? Acho que as respostas para todas essas perguntas é um definitivo não, porque todos esses fatores só surgem em relação a outros companheiros humanos.

 

Quando você é jovem, saudável e forte, às vezes tem a sensação de ser totalmente independente, de não precisar de ninguém. Mas isso é uma ilusão. Mesmo na flor da idade, simplesmente por ser humano, você precisa de amigos, não? Isso é especialmente verdade quando fica velho e precisa contar mais e mais com a ajuda dos outros. Essa é a natureza de nossas vidas como seres humanos.

 

Em pelo menos um sentido, podemos dizer que as outras pessoas são realmente a principal fonte de todas as nossas experiências de alegria, felicidade e prosperidade, e não apenas em relação a nossas interações diárias. É possível ver que as experiências desejáveis que cultivamos dependem da cooperação e interação com os outros; é um fato óbvio.

 

De modo similar, do ponto de vista de um praticante budista, muitos dos níveis elevados de realização que você atinge e do progresso que faz na jornada espiritual depende da cooperação e interação com os outros. Além disso, no estágio da completa iluminação, as atividades compassivas de um buda só podem se manifestar espontaneamente em relação a outros seres, já que são eles que recebem e se beneficiam dessas atividades iluminadas.

 

Mesmo de uma perspectiva totalmente egoísta – querendo apenas nossa própria felicidade, conforto e satisfação na vida, sem consideração pelo bem dos outros – eu ainda argumentaria que a realização de nossas aspirações dependem dos outros. Mesmo a execução de ações nocivas dependem da existência dos outros. Por exemplo, para trapacear, você precisa de alguém como objeto do seu ato.

 

Todos os eventos e incidentes na vida estão tão intimamente conectados com a vida dos outros que uma pessoa sozinha por si só não podem sequer começar a agir. Muitas atividades humanas ordinárias, positivas e negativas, não podem ser concebidas sem a existência de outras pessoas. Por causa dos outros, temos a oportunidade de ganhar dinheiro, se esse é nosso desejo na vida. Igualmente, na dependência da existência dos outros é possível para a mídia criar fama e descrédito por alguém. Sozinhos não podemos criar qualquer fama ou descrédito, não importa o quão alto gritemos. O mais perto que você vai chegar é criar um eco da sua própria voz.

 

Assim, a interdependência é uma lei fundamental da natureza.”

 

~ XIV Dalai Lama Tenzin Gyatso, em “The Compassionate Life” (cap. 1, pgs. 5 e 6)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

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