3 anotações de Sri Aurobindo sobre o ego: a individualidade, o egoísmo e a entrega, em “The Synthesis of Yoga”

conscienciaMente, supermente, inconsciente, subconsciente, superconsciente: as visões do filósofo indiano Sri Aurobindo (1872-1950), célebre autoridade indiana de Yoga e autor de livros como “The Synthesis of Yoga“, “Life Divine” e “Letters on Yoga“, são das mais ricas e detalhadas sobre a estrutura do ser humano, de sua vida e de sua elevação e evolução. Nos três trechos abaixo, do grande livro “The Syntesis of Yoga” e reproduzidos do compênio  em português”Por Uma Psicologia Maior“, Aurobindo faz três abordagens sobre o ego — uma falando da sua inevitabilidade e utilidade quando há predominância de uma vida inferior, depois fala do equívoco do egoísmo e, por fim, da possibilidade da redenção ou “salvação”, que seria o reconhecimento do poder maior da consciência.

É preciso proceder com cuidado quando se fala em ego, e também quando se usa os termos como subconsciente, inconsciente e superconsciente, pois o cânone do Yoga geralmente usa esses termos para definir coisas ligeiramente ou bastante diferentes do dicionário da psicologia ocidental. Se houver dúvida, recomendo primeiro maior esclarecimento dessas expressões no contexto do trabalho de Sri Aurobindo antes de avançar em conclusões. De resto, são trechos elucidativos, apesar das limitações que temos ao lermos do próprio ponto-de-vista do nosso ego.

Seguem os três trechos:

1

No mundo, nós agimos movidos pelo sentido do egoísmo. Afirmamos que são nossas as forças universais que operam por nosso intermédio; afirmamos que a ação seletiva, formativa e progressiva do transcendente na estrutura da mente, da vida e do corpo não passa de um efeito da nossa vontade, sabedoria, força e virtude pessoais. A iluminação nos dá o conhecimento de que o ego não passa de um instrumento; começamos a perceber e a sentir que essas coisas são nossas, sim, mas porque pertencem ao nosso Si Mesmo supremo e integral, Aquele que é uno com o Transcendente, e não ao ego instrumental. As contribuições que damos à obra são as limitações e distorções, o verdadeiro poder que nela opera é divino. Quando o ego humano percebe que a sua vontade é uma ferramenta, que a sua sabedoria é ignorância e infantilidade, que o seu poder é o tatear de um bebê, que a sua virtude é uma impureza arrogante e pretensiosa; quando aprende a confiar-se Àquilo que o transcende — nisso está sua salvação. A liberdade e a auto-afirmação aparentes do nosso ser pessoa, ao qual somos tão profundamente apegados, ocultam uma lamentabilíssima sujeição a milhares de sugestões, impulsos e forças que tornamos estranhas à nossa insignificante pessoa. O ego, que jacta-se da sua liberdade, é sempre e a cada momento o escravo, o brinquedo e o marionete de incontáveis seres, forças, poderes e influências da Natureza universal.
~ Sri Aurobindo, em “The Synthesis of Yoga”, p.53

2

O sentido do ego serve para limitar, separar e diferenciar do modo mais definido possível; serve ao máximo aproveitamento da forma individual e existe porque é indispensável para a evolução da vida inferior. Mas, quando queremos ascender ao grau de uma vida divina, temos de diminuir a for;ca do ego e, por fim, livrarmo-nos dele — assim como é indispensável o desenvolvimento do ego para a vida inferior, assim também para a vida superior esse movimento inverso de eliminação é igualmente indispoensável.
~ Sri Aurobindo, The Synthesis of Yoga, p.734

3

Este ego ou “eu” não é uma verdade permanente, e muito menos a parte essencial do nosso ser. É somente uma formação da natureza: uma forma mental que centraliza os pensamentos na nossa mente que percebe e discrimina; uma forma vital que centraliza os sentimentos e sensações nas partes virtuais do nosso ser; e uma forma de receptividade física consciente que centraliza no nosso corpo a substância e as funções da substância. O que nós somos no interior não é o ego, mas a a consciência, alam ou espírito. O que somos no exterior e na superfície não é o ego, mas a Natureza. Uma força cósmica executiva nos molda e, por meio do nosso temperamento, do nosso ambiente e da nossa mentalidade – todos eles moldados por ela –  por meio da nossa formulação individualizada das energias cósmicas, determina nossas ações e os seus resultados. Na verdade, nós não pensamos, nem queremos, nem agimos; são os pensamentos, vontades, impulsos e atos que ocorrem em nós, e o sentido do ego reúne ao seu redor todo esse fluxo de atividades naturais e toma-se como o centro delas. É a Força cósmica, é a Natureza que forma o pensamento, impõe a vontade e confere o impulso. O corpo, a mente e o ego não passam de uma onda nesse mar de força em ação; não o governam, mas, muito pelo contrário, são governados e dirigidos por ele. O sadhaka, em seu progresso rumo à verdade e ao auto-conhecimento, tem de chegar a um grau em que a alma abra os olhos da sua visão e reconheça esta verdade do ego e esta verdade das obras. Então, o sadhaka dá de mão à idéia de um “eu” mental, vital e física que age ou determina a ação; reconhece que a Praktriti, a Força da natureza cósmica que segue suas leis sempre rígidas, é a única que opera todas as coisas nele e em todas as coisas e criaturas.
~ Sri Aurobindo, em “The Synthesis of Yoga”, p.203

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

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