Entendendo como a busca por estar “em paz com o Todo” acaba gerando vícios e apegos, segundo Ram Dass [VÍDEO]

“Quando nascemos, nós chegamos da sensação de estar plenamente em casa com o mundo exterior. Ao sermos soltos, nós ainda temos uma pequena sombra daquela sensação quando chegamos em casa no fim do dia, aqueles de vocês que tem uma casa, que colocam seus pés pra cima, relaxam, tomam uma xícara de chá ou seja lá o que for, aquela sensação de voltar pra casa, de voltar para um lugar seguro, ou o sentimento de voltar a estar em paz com o Todo. Quando nós somos separados disso, esta separação é criada pela mente, que é a raiz do sofrimento, como o Buda fica, o apego da mente pelas coisas que nos separam do Todo. Agora, uma vez que essa separação ocorre, há uma dor incrível. Você pode chamá-la de ser expulso do Jardim do Éden, pode chamá-la de pecado original, como você quiser chamá-la, há diferentes metáforas em diferentes sistemas, mas há uma dor incrível. E de alguma profunda maneira, todas as nossas ações a partir de então, são uma tentativa de retornar para aquele ‘de volta ao Todo'”.
~ Ram Dass, em “Vícios e Apegos” (Attachment and Addiction)

É interessante ver o Ram Dass (ou Richard Alpert) falando da gênese psíquica dos vícios (e apegos) do seu ponto de vista de mestre espiritual e sua formação de PhD em Psicologia, pela Stanford University (EUA). Um confesso insatisfeito com a Psicologia ocidental nos Anos 60 e 70, Ram Dass foi descobrir na Índia, no Budismo e no Hinduísmo, as descrições elucidativas para a consciência, e a partir de sua própria experiência cunhou algumas de suas conclusões, como a que está nesse discurso registrado em áudio e que segue no vídeo abaixo, “Vícios e Apegos” (9min) — traduzido para o português pelo canal JoeTheEagle do YouTube, a quem agradecemos pelo compartilhamento.

Uma das partes especialmente interessantes que fazer parte do circuito da “cadeia de reatividade“, tal qual Ram Dass explica, é como a ressaca da busca pela sensação de estar em casa acaba reforçando o sentimento inicial de que “somos maus“, de que originalmente não teríamos e não fomos permitidos o direito de desfrutar de Paz e Satisfação permanentes, uma vez que assim que o prazer acaba, o estado “a que voltaríamos” é o de ausência/carência. Há outras partes interessantes, como o trecho final onde ele trata da integração da identificação com a alma e com a personalidade, e parece que esse discurso faz parte de uma palestra maior, que se encontrar gostaria de recomendar aqui (se alguém tive conhecimento, pode nos ajudar).

Segue o vídeo com legendas em português embutidas:

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

6 Comentários

  • Ainda que as informações sejam interessantes e possam fazer efeitos maravilhosos em algumas pessoas, em outras, creio, não farão efeito algum e, quem sabe, talvez, até efeito de frustração.Creio que,se quizermos, podemos estar buscando práticas para nos livrarmos de situações como as citadas, mas devemos ter claro que cada um é cada um, cada caso é um caso e, derrepende, não é o mesmo remédio que vai ajudar na cura, porque o primeiro de tudo é nossa intenção verdadeira e interna em alcançar essa cura.

    • “De repente” não, certamente não é o mesmo remédio. É impossível que seja, Alice. Apesar que o Ram Dass não fala exatamente do remédio, mas de um ingrediente ou de uma atitude/percepção que esteja presente na maioria deles – consciência sobre a “cadeia de reatividade”.

      Também soou o alarme aqui na expressão “práticas para nos livrarmos”. Curiosa é que a palavra “se livrar” deveria ter mais identificação com “se libertar” do que com “evitar”, como de fato se parece quanado se usa. Tenho a impressão que liberdade “rima” mais com incluir e aceitar e soltar, do que com bloquear ou evitar (“se livrar”).

      Namastê.
      Nando

  • Agradeço o vídeo. Já faz algum tempo que busco um caminho pra ficar em paz, e as palavras usadas pelo Ram Dass me derem alguma clareza pra alcançar minha meta. Abraços! Namastê. Virginia

  • Saudações a todos!
    Nando,

    “Porque no momento em que você se perde na identificação da personalidade, com a exclusão da identificação com sua Alma, você perde. E há milhares de vezes por dia em que você perde”.

    Neste caso, o que você perde?
    Você perde a Paz, a Inteligência, o bom senso, a autêntica Alegria e a segurança Interiores, a Sabedoria e muito mais!

    É isto o que você perde com a exclusão da identificação com sua Alma!

    “E se você se prende na sua Alma com a exclusão de sua personalidade, você perde da mesma forma.”

    Perde mesmo! Mas não “exatamente” da mesma forma! Você perde o quê?

    Perde o medo, o orgulho, a vaidade, a prepotência, perde a ambição da personalidade, perde a insatisfação crônica, perde o desejo de ferir como reação à profunda insatisfação e do medo angustiante que a identificação com a personalidade nos proporciona, perde o desejo de se sentir seguro como no útero da mãe.

    É isto o que você perde ao desistir da personalidade!

    Só há um problema: “você” não poderá “se perder da identificação com personalidade”, enquanto você escolher “ser” a “personalidade”.

    Enquanto estivermos identificados com a personalidade, não podemos nos perder de nossa personalidade. Exceto quando enlouquecemos, por exemplo, na esquizofrenia, ou outros transtornos ou formas graves de doença mental, ou então, quando ficamos completamente inconscientes, quando “perdemos os sentidos” num desmaio, ou somos anestesiados, ou entramos em “estado de coma”.

    Se “você” se prende na sua Alma…” – Esse “você” é a sua “personalidade”, portanto, é impossível “a personalidade” se prender à Alma com a exclusão da “personalidade”. Isto é totalmente incoerente.

    Não há um “você”, a não ser a personalidade (um eu “ilusório” criado pela mente condicionada) ou, a Alma (a experiência Real da Mente Incondicionada).

    E não é possível “ser” as duas coisas ao mesmo tempo!
    Pela mesma razão que é impossível que a Luz e a trevas possam coexistir no mesmo lugar, ao mesmo tempo!

    A escolha (consciente e inconsciente) do que haveremos de “perder” (ou ganhar) está nas mãos de cada um, a cada instante!

    Que todos os seres despertem e sejam Felizes e Bem Aventurados!

    Namastê!

    • Oi Adilson,

      Quase me perdi no jogo de palavras, mas também acho essa uma questão importante.

      A tradução da expressão do Ram Dass ficou “se perder”, mas em inglês originalmente ele diz “get lost” (o trecho inteiro é: “get lost in identification with your personality, to the exclusion of identification with your soul”). Depois ele completa: “if you get caught in your soul to the exclusion of your personality you’ve lost it equally as much”.

      Ou seja, primeiro ele usa GET LOST (se perder) e GET CAUGHT (algo como “se pegar” ou “ser pego”, como um acordar no meio da identificação). E depois, e talvez mais importante para essa questão que você traz, é o TO THE EXCLUSION, que significa obviamente a exclusão, a evitação, como se fosse excluir da existência. O que não é possível, seria um delírio. Você pode se identificar com a alma, mas não à exclusão da pessoa (pode apenas pensar que excluiu a pessoa). Ele não fala do que realmente É, ele fala do com que nos identificamos, e a identificação com a exclusão de outro algo (lógico, se me identifico com algo, tenho que excluir outro algo do meu quadro). Não é a questão do ser, é de perceber, pois não é essa o centro de todo o engano?

      Como diz Mestre Dogen, “Aqueles que vêem a vida mundana como um obstáculo ao Dharma não vêem o Dharma nas ações do dia-a-dia. Eles ainda não descobriram que não existem ações do dia-a-dia fora do Dharma”.

      Namastê!
      Nando

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