“Liberdade e destino talvez sejam apenas duas fantasias nossas”: Agostinho da Silva, o livre arbítrio e a vida real [VÍDEO]

“Na realidade, liberdade e destino são apenas duas fantasias nossas, talvez, não há nada de real, sobre as quais nós podemos constituir belos sistemas filosóficos, embora estejamos sempre à espera de alguma coisa muito mais decisiva que a filosofia, que é exatamente a ciência.”
~ Agostinho da Silva, no programa “Conversas Vadias”

Em entrevista ao jornalista Adelino Gomes, no programa “Conversas Fiadas” da televisão portuguesa RTP1, em 1990, o filósofo Agostinho da Silva (1906-1994) (que falamos aqui num outro post recentemente), tratou do tema do livre arbítrio com sua peculiar e espirituosa “lógica ampla“, quase transcendental, que admite muito mais do que se vê — como, talvez, que “liberdade e destino sejam apenas duas fantasias nossas”, ou que as limitações humanas sejam apenas um problema de ponto-de-vista, ou ainda negando que a filosofia tenha que solucionar todos os problemas do homem. “Mas como é que se pode ser livre se a gente nasce com código genético que nos pré-determina, ou pelo menos nos condiciona muito… Nós afinal não somos livres logo à partida, ou somos?”, pergunta Adelino, representando uma série de nossas indagações que caem exatamente nessa vala entre os dois mundos. Ao que Agostinho responde: “Nós nunca sabemos quando é a partida. Consideramos que a partida é o momento em que nascemos, mas pode ser que a partida seja uma eternidade atrás. E que nessa eternidade atrás, no ponto de arranque de tudo quanto tá no mundo, tenham coincidido a liberdade e o destino”.

Apesar dos temas principais serem a liberdade, o destino e a estrutura do ser humano na vida na Terra, um trecho dos mais admiráveis é onde Agostinho fala da preciosa e óbvia qualidade única – “excêntrica” – que todos nós temos inerentemente. Ele começa explicando porque os julgamentos são prejudiciais: “É um defeito muito grande que nós temos é de dizer que tal pessoa tem tais qualidades e tais falhas. O que tem que se dizer de qualquer pessoa, ou de qualquer situação no mundo, é que ela tem determinadas características. Porque muitas vezes o que verificamos é que são os defeitos que fazem as boas obras e as qualidades aquelas que muitas vezes as abatem”. Ao que o entrevistador interrompe: “Mas há casos excepcionais”. Então Agostinho completa: “Meu amigo, casos excepcionais é tudo o que há mundo. Cada um de nós é inteiramente excepcional. Não há nenhum homem igual a nós em todos os bilhões que existem, nem fisicamente, nem mentalmente”.

Segue o trecho da entrevista (8min52seg):

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

4 Comentários

  • Grande Pensador, esse Agostinho.
    Liberdade absoluta quem ou quando alguém a terá? Nunca, pois ninguém chegará a ser dono de todo o seu universo. E ainda que alguém ousasse tal feito, por trás disso tudo ainda haveria um espaço Absoluto já sem pensar no tempo infinito.
    O próprio Eterno do qual não ha ousadia que o defina haverá de ser relativo á sua própria eternidade e ainda, antes dela as leis que imperam no COSMO, mesmo que criadas por Ele.

  • http://i.imgur.com/bvgqkes.jpg

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    O desejo de iluminação tinha levado um buscador, extremamente serio e motivado, a passar vários anos na companhia de um mestre espiritual. Durante esse período ele mostrou ser um discípulo devotado, completamente dedicado á obtenção da realização espiritual.

    Quando chegou o momento de voltar para sua terra natal, seu Guru o fez prometer que iria escrever a cada mês, contando-lhe sobre seu progresso espiritual.

    O discípulo deu a sua promessa e recebeu a bênção do seu guru.

    Despediram-se e se separaram.

    Depois do primeiro mês chegou a carta. “Estou experimentando a Unidade com o Universo”, escreveu ele. O mestre não disse nada, mas amassou a carta e jogou no lixo.

    O mês seguinte veio outro relato: “A Divindade presente em todas as coisas tem se revelado para mim. Ela está presente numa flor, numa pedra, no ar e em toda parte.” Novamente o mestre leu a carta, amassou-a e jogou-a na lixeira sem comentar nada.

    Durante quatro meses as cartas chegaram regularmente.

    Em sua terceira mensagem, o discípulo declarou: “O mistério do Uno e dos Muitos tem se revelado para mim. Somente agora eu compreendo que não há diferença entre mim e você ou qualquer outra coisa.” Uma vez lida, a missiva também acabava com o lixo do guru na cesta de papel.

    Na quarta carta, o discípulo dizia: “Ninguém nasce, vive ou morre, porque não há ninguém que existe.” Esta carta também foi lida sem comentários e seguiu, como suas antecessoras, para a lixeira.

    Após o quarto mês, porém, nenhuma carta chegou. Nenhuma carta no quinto mês, nenhuma carta no sexto mês, sem cartas durante um ano inteiro!

    Como o tempo passava sem trazer novidades, o mestre acabou ficando realmente curioso em saber o que tinha acontecido com seu amado discípulo.

    No fim foi o próprio mestre que escreveu uma carta perguntando ao discípulo sobre seu progresso espiritual, e lembrando-lhe de sua promessa de mantê-lo informado.

    Algum tempo depois, o guru recebeu uma carta. Era do seu discípulo distante. O guru abriu-a e leu, e riu alto, evidentemente deliciado. Os discípulos ao redor dele ficaram intrigados com essa improvisa explosão de alegria.

    Todo feliz, o guru entregou-lhes a carta.

    Eles viram que ela continha apenas quatro palavras: “Iluminação? Quem se importa?!”

    by: Ramesh Balsekar (Who cares?!)

  • Tenho quase todas as obras publicadas de AGOSTINHO DA SILVA, de quem fui humílimo e discreto seguidor… melhor dizendo, ainda o procuro ser hoje! Foi pensador e personalidade que me entrou pela minha vida dentro e lá fez sua acomodação! Tantos anos volvidos, pós sua morte, e é-me a um tempo penosa e alegre a lembrança que tenho dele. Penosa, porque estimava poder ouví-lo, nos dias correntes, e dele saber o que achava da barafunda e falta de senso circundante, desde os altos comandos ao sem rumo deste Povo. E alegre, porque dele me ficou a vivência, a postura e o verbo! Ah, o seu modo peculiar de dizer o que quer que fosse, claro, cristalino, iluminado ou, se preferível, luminoso, ‘solar’!!! Bem haja, na eternidade, onde decerto repousa seu vígil espírito!

  • Bem haja na eternidade, Luís, e talvez um pouco aqui ainda, pra nós, através do que ele deixou, como essa entrevista.

    Estou pesquisando um trecho da obra de Lucrécio “Sobre a natureza das coisas” (“De rerum natura”, que o Agostinho da Silva traduziu apenas como “Da Natureza”), se você tiver alguma recomendação pelo seu conhecimento do tradutor, agradeço.

    Saudações,
    Nando

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