Tanha, do idioma Pali: a palavra que Buda usou para definir a sede, a ânsia, o desejo que é a fonte do sofrimento

A fonte do sofrimento e da insatisfação humana tem nome e se chama tanha, palavra que as fontes afirmam ter sido usada por Buddha em seus ensinamentos mais fundamentais para ajudar a definir a causa do sofrimento. Está na Segunda Nobre Verdade, aquela que aponta a causa do sofrimento e/ou insatisfação da vida humana. Esta palavra em Pali “tanha” significa sede, desejo, ânsia, impulso de querer satisfazer algo. A Wikipedia informa quetanha significa literamente ‘sede’ e é traduzida normalmente como ânsia ou desejo. Tanha é definida como (tendo três faces:) a ânsia ou desejo de manter experiências prazerosas, de evitar experiências dolorosas ou desprazerosas, e de não declinar de experiências neutras”.

Se queremos entender melhor algo de uma tradição diferente da nossa, temos que buscar as fontes mais originais do ensinamento. A transmissão pessoal de um mestre ou de um estudioso das tradições deve ser sempre uma opção preferencial, mas podemos colher uma introdução trazendo aqui as palavras de um grande tradutor dos ensinamentos de Buda do original em Pali para o inglês, o monge budista Bhikkhu Bodhi, da tradição Theravada (conhecida como a vertente mais antiga do Budismo), que explica o seguinte, sobre tanha:

“Buda declara que a origem do sofrimento/insatisfação (Dukkha) é o desejo por satisfazer, que em Pali é uma palavra, ‘Tanha’. O Buda reconhece que há três tipos de desejos por satisfazer. Pode haver os desejos saudáveis como o desejo de praticar o Dharma, o desejo de doar, etc. Há também os desejos neutros, como o desejo de dar uma caminhada, o desejo de dormir, etc. E há os desejos insalubres. Tanha significa esses desejos insalubres – o desejo baseado na ignorância (avidya), a vontade de gratificação pessoal. Apesar do desejo ser particularizado como a casa de Dukkha, não é o único fator envolvido na originação do sofrimento. Entretanto, é o fator-chefe. Mas a ânsia sempre funciona dentro de um complexo de fatores. É condicionada pela ignorância, pelo organismo psico-físico e necessita de objetos”.
~ Bhikkhu Boddhi

Num texto publicado no Insight Journal, John Peacock diz que “o desejo por satisfazer é o problema central identificado pelo Buda”, citando os textos do Sutta Pitaka e Vinaya Pitaka. “Se sati, ou atenção plena, não acontece na vida ordinária, não funciona. Isso geralmente acontece porque tanha, o desejo por satisfazer, não é algo que é adicionado à nossa experiência: está literalmente construída no nosso processo cognitivo”, continua Peacock, igualando o desejo com um processo patológico (o que é arriscado). “O conselho prático do Buda é treinar nós mesmos para observarmos o processo dinâmico do desejo, para que ao vermos seremos levados à cura”.

No livro “The Philosophy of Desire In The Buddhist Pali Canon” (A Filosofia do Desejo no Cânone Budista em Pali, tradução aproximada, ainda não há edição em português deste livro), o autor David Webster explica que “através dos textos em Pali, somos repetidamente recomendados a destruir tanha, e sua eliminação ou destruição é geralmente e explicitamente conectada com a chegada ao Nirvana“. E as implicações “negativas” de tanha são tão graves quanto as positivas. O Aggañña Sutta, citado no mesmo livro, afirma que “o Buda declara que tanha é o combustível (upadana) que conecta uma vida com a próxima“.

“Um homem acompanhado pelo desejo
perambula nesta longa jornada;
Ele não pode ir além do Samsara
Nesse estado de ser ou em outro.
Tendo compreendido assim o perigo
que o desejo é a origem do sofrimento
Um monge deveria vagar conscientemente
livre de desejo e sem apego”.
Tanhaasa Myojana Sutta (tradução livre)

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Foto de reurinkjan (licença de uso BY do Creative Commons).

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

4 Comentários

  • Bhikkhu Boddhi
    ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
    Mas não é que o ‘fácil’, é o que é bom. (sinal de maestria). O Mestre, num trechinho pequeno, resumiu vários livros e alguns tratados. Que beleza!

    Nando, você nos seus últimos Posts, tem sido um artífice da ‘agulha de tarrafa’. Tudo tão bem costuradinho que olhando só se vê a rede. Algumas introduções merecem vir em cinza, em destaque. Grata.
    Boa sorte, Norma

    (a ânsia/tanha por não ter ‘tanha’, não acaba se constituíndo em uma ‘tanha’ mais perversa, de mais díficil gerenciamento e anulação?) Bjo Nac

    • Oi Norma,

      A introdução do livro “The Philosophy of Desire In The Buddhist Pali Canon” fala muito sobre isso. Mas a própria explicação do Bhikkhy Boddhi no trecho acima trata disso: existem desejos “saudáveis”, e o desejo por iluminação está entre eles, assim como o de “ajudar os outros”. Embora até nesses possa existir alguma insalubridade, dependendo de como são realizados (e por quais motivações).

      PS: Também se usa a palavra “chanda” para definir essas aspirações saudáveis. Estou preparando um post que inclui isso pra hoje, espero que você possa passar por aqui pra ler.

      Bom dia,
      Nando

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