“Desapego é envolvimento e intimidade com as coisas como são”: Michael Stone faz uma nova tradução para o desapego

“Iluminação é intimidade com todas as coisas”.
~ Mestre Dogen (1200-1253)

“Muitas pessoas ouvem essa idéia do desapego e pensam que é uma espécie de desassociação“, diz o psicoterapeuta canadense e professor de Yoga e Budismo Michael Stone, no início desse vídeo de 4min sobre “O Coração do Desapego” (The Heart of Non-Attachment). “Não vou me apegar a como as coisas são, nada pode me abalar, e, de uma certa maneira, eu também pensei que a prática espiritual, e a meditação especialmente, seria um jeito de me isolar do sentimento, mas na verdade as coisas não funcionam desse jeito”, diz ele. Tirando um pouco do materialismo simplista que ficou colado nessa expressão (de desapego somente ligado à objetos de posse), Michael Stone propõe uma releitura dessa expressão, do inglês “non-attachment“, dizendo que o desapego é a idéias fixas e a uma mentalidade fechada, justamente para evitar que desapego seja também só da “parte ruim” da realidade. Assim, desapego seria estar aberto a tudo, possibilitando assim a intimidade e o envolvimento verdadeiros com todas as coisas.

Desapego seria apenas soltar aquilo que foi “pego” e mantido “fixo”, como se fosse permanente. Ou como achamos que deveriam ser. Uma frase do filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard (do documentário “Mundos Interiores Mundos Exteriores“) diz que “Se você me dá um nome, você me nega“. Neste sentido, até um nome pode significar apego, negação do que é, a tentativa de fixar uma idéia ou um conceito a alguma forma inerentemente impermanente. Deixar de fixar significaria um desapego. E a possibilidade de ver as coisas como são.

Segue o vídeo traduzido e legendado em português (caso as legendas não estejam ativadas por padrão, clique em “Select Language” no controle inferior do vídeo e selecione “Portuguese, Brazilian”- caso o vídeo não apareça, recarregue esta página ou use este link alternativo):

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Compartilhado por Mariana Carola Cogswell.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo capital.

10 Comentários

  • Gosto do Michael Stone e suas reflexões. Mas neste caso terei gostado ainda mais da introdução que você faz ao video com essa citação do Kierkegaard, e do Maharaj.
    Julgo que Krishnamurti faz a condensação mais simples e direta referente a esta questão do desapego. Diz ele que o importante é morrer a cada instante para toda a experiência passada e assim encontrar-se a mente e o espirito sempre livre, totalmente aberto e disponível para o encontro com a realidade do momento presente. A mesma postura é indicada por Shunryu Suzuki ao aconselhar o viver como uma fogueira “Sem Deixar Rastros”, segundo um trecho de “MENTE ZEN,MENTE DE PRINCIPIANTE” postado algures neste mesmo Blog. Saudação amiga para você Nando.

  • Adorei essa frase: “Desapego, assim, seria apenas soltar aquilo que foi “pego” de início e mantido “fixo”; Ótima!

    Por outro lado, “não é o que você faz que importa, mas o que você deixa de fazer“ me cansa um pouco, esse antigo jogo de palavras, porque me parece tão óbvio que importa o que as pessoas fazem.

    Enfim, obrigada pelas reflexões!

    • Adoro as duas frases. O texto inteiro do Maharaj é potente e desafiador, ainda que a frase pareça simples e leve. Fiquei apenas um pouco em dúvida sobre o que você quis dizer com “me importa o que as pessoas fazem”. Acho que não está no mesmo sentido que o Maharaj cita — nesse contexto do Michael Stone seria algo como “ao invés de você pegar e fixar, sequer faça isso”.

      Ou diria o Osho, “don’t just do something, sit there.” :)

      Saudações, Parvati!
      Nando

  • Estava escrito :não importa o que você faz. Não consigo concordar, acho que o que se faz é importante sim, pode deixar marcas, enganos, dúvidas, alegrias, lições.

    Só isso, simples assim rs.

    :-)

  • No fundo essa linha de pensamento reconduz-nos à teoria da relatividade, porque de facto tudo é relativo até certo ponto. No Universo e no nosso mundo, nada é fixo intemporalmente, a dado instante aquilo que é, deixa de ser, e esse “deixar de ser”, vai operar reações num todo, logo não nos resta opôr, mas simplesmente mudar a nossa consciência, pondo de lado o preverso, mas nunca eliminado-o, porque o preverso também é necessário ao desenvolvimento das coisas. A eliminação de algo é sempre uma perda e a perda é a redução das coisas, a pobreza de qualquer coisa que já tivera algo, que fora rica, independentemente de ser bom ou mau, assim, se mudarmos em relação ao todo também iremos contribuir para a transformação das coisas e quem sabe num Mundo melhor… – “NADA SE CRIA, NADA SE DESTRÓI E TUDO SE TRANSFORMA”.

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