O dia em que parei de mandar minha filha “andar logo”: confissões de uma mãe apressada e tarefeira (e abençoada)

Àqueles de nós que andam vivendo com certa pressa, atarefados, “sem tempo”, e que possuem filho(s) pequeno(s), a escritora e mãe da pequena Alex, Rachel Macy Stafford, tem uma coisa pra dizer. Num artigo intitulado “The Day I Stopped Saying ‘Hurry Up’”, traduzido para o português (e reproduzido mais abaixo) pela equipe do Projeto Aprendiz como O Dia Em Que Parei de Mandar Minha Filha Andar Logo“, Rachel revela como parou e mudou sua vida com a benção de sua filha. Rachel vivia atarefada, dispersa, “correndo para o próximo compromisso”, com a agenda otimizada, e deixava o tempo precioso — e único — com sua filha de 6 anos para trás. Num lampejo “de embrulhar as tripas“, certo dia Rachel percebeu a si mesma e essa sua atitude, sentiu o impacto profundo, parou tudo e decidiu mudar. “A verdade machuca, mas a verdade cura… e me aproxima da mãe que quero ser”, diz ela. O artigo é a narração de como isso aconteceu, e a leitura faz a gente perceber que viver venerando o Deus do “não tenho tempo pra isso” é na verdade não viver, é assistir uma corrosão comer e destruir cada momento precioso da vida, que não volta.

Esse artigo me foi enviado por uma grande amiga do blog, que recebera numa situação de extrema coincidência com o texto de Rachel. Na noite da última terça (13/08), a filha dela deveria dormir na casa dos avós, e para isso deveria levar o material da escola para o dia seguinte. Quando a avó chegou para buscá-la, minha amiga pronunciou o fatídico “anda logo” ao ver a filha ainda se arrumando. Na pressa, a filha esqueceu a mochila da escola no banheiro, onde nunca deixava, mas devido à pressa imposta, foi fazer seu último xixi com a mochila e a deixou lá. Foi jantar no shopping com a avó e só se deu conta da ausência da mochila tarde da noite. Então ligou pra mãe chorando dizendo que a havia perdido, a avó fica desesperada, vai ao shopping tentar encontrar, desconfia de furto no carro, a criança chora pelo “erro”, a mãe procura em casa e não acha, nenhuma esperança e muita confusão. Até que, depois da milésima busca, a mãe encontra a mochila no banheiro. Tudo isso, o tempo perdido, o estresse dos envolvidos, o choro… por causa de um mísero “anda logo“.

Passado o susto e o tempo perdido, minha amiga senta no escritório, abre o computador e se depara com essa história abaixo enviada por um de seus contatos. É ler pra crer.

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O DIA EM QUE PAREI DE MANDAR MINHA FILHA ANDAR LOGO
Por Rachel Macy Stafford
Tradução: equipe Projeto Aprendiz

Quando se está vivendo uma vida distraída, dispersa, cada minuto precisa ser contabilizado. Você sente que precisa estar cumprindo alguma tarefa da lista, olhando para uma tela, ou correndo para o próximo compromisso. E não importa de quantas maneiras você divide o seu tempo e atenção, não importa quantas obrigações você cumpra em modo multi-tarefa, nunca há tempo suficiente em um dia. Essa foi minha vida por dois anos frenéticos. Meus pensamentos e ações foram controlados por notificações eletrônicas, toques de celular e uma agenda lotada. Cada fibra do meu sargento interior queria cumprir com o tempo de cada atividade marcada na minha agenda super-lotada, mas eu nunca conseguia estar à altura. Sempre que minha criança fazia com que desviasse da minha agenda principal, eu pensava comigo mesmo: “Nós não temos tempo pra isso.”

Veja bem, seis anos atrás, eu fui abençoada com uma criança tranquila, sem preocupações, do tipo que para para cheirar flores.

Quando eu precisava sair de casa, ela estava levando seu doce tempo pegando uma bolsa e uma coroa brilhante.

Quando eu precisava estar em algum lugar há cinco minutos, ela insistia em colocar o cinto de segurança em seu bichinho de pelúcia.

Quando eu precisava pegar um almoço rápido num fast-food, ela parava para conversar com uma senhora que parecia com sua avó.

Quando eu tinha 30 minutos para caminhar, ela queria que eu parasse o carrinho e acariciasse todos os cachorros em nosso percurso.

Quando eu tinha uma agenda cheia que começava às 6h da manhã, ela me pedia para quebrar os ovos e mexê-los gentilmente.

Minha criança sem preocupações foi um presente para minha personalidade apressada e tarefeira – mas eu não pude perceber isso. Ó não, quando se vive uma vida dispersa, você tem uma visão em forma de túnel – sempre olhando para o próximo compromisso na agenda. E qualquer coisa que não possa ser ticada na lista é uma perda de tempo. Sempre que minha criança fazia com que desviasse da minha agenda principal, eu pensava comigo mesmo: “Nós não temos tempo pra isso.” Consequentemente, as duas palavras que eu mais falava para minha pequena amante da vida eram: “anda logo”. Eu começava minhas frases com isso: Anda logo, nós vamos nos atrasar. Eu terminava frases com isso: Nós vamos perder tudo se você não andar logo. Eu terminava meu dia com isso. Anda logo e e escove seus dentes. Anda logo e vai pra cama. Ainda que as palavras “anda logo” fizessem pouco ou nada para aumentar a velocidade de minha filha, eu as dizia de qualquer maneira. Talvez até mais do que dizia “eu te amo”. Anda logo!

A verdade machuca, mas a verdade cura… e me aproxima da mãe que quero ser. Até que em um dia fatídico, as coisas mudaram. Eu havia acabado de pegar minha filha mais velha de sua escola e estávamos saindo do carro. Não indo rápido o suficiente para o seu gosto, minha filha mais velha disse para sua irmã pequena, “você é lenta”. E quando, após isso, ela cruzou seus braços e soltou um suspiro exasperado, eu me vi – e foi uma visão de embrulhar as tripas. Eu fazia o bullying que empurrava e pressionava e apressava uma pequena criança que simplesmente queria aproveitar a vida. Meus olhos foram abertos; eu vi com clareza o dano que minha existência apressada estava causando às minhas duas filhas.

Com a voz trêmula, olhei para os olhos da minha filha mais nova e disse: “Me desculpe por ficar fazendo você se apressar, andar logo. Eu amo que você, tome seu tempo e eu quero ser mais como você”. Ambas me olharam surpresas com a minha dolorosa confissão, mas a face da mais nova sustentava o inequívoco brilho da aceitação e do reconhecimento. “Eu prometo ser mais paciente daqui em diante”, disse enquanto abraçava minha filha de cabelos encaracolados. Ela estava radiante diante da promessa recém-descoberta de sua mãe.

Foi bem fácil banir o “anda logo” do meu vocabulário. O que não foi tão fácil foi adquirir a paciência para esperar pela minha vagarosa criança. Para nos ajudar a lidar com isso, eu comecei a lhe dar um pouco mais de tempo para se preparar se nós tivéssemos que ir a algum lugar. Algumas vezes, ainda assim, ainda nos atrasávamos. Foram tempos em que eu tive que reafirmar que eu estaria atrasada, nem que se fosse por alguns anos, se tanto, enquanto ela ainda é jovem.

Quando minha filha e eu saíamos para caminhar ou íamos até a loja, eu deixava que ela definisse o ritmo. Toda vez que ela parava para admirar algo, eu afastava os pensamentos de coisas do trabalho e simplesmente a observava as expressões de sua face que nunca havia visto antes. Estudava com o olhar as sardas em sua mão e o jeito que seus olhos se ondulavam e enrugavam quando ela sorria. Eu percebi que as pessoas respondiam quando ela parava para conversar. Eu reparei como ela encontrava insetos interessantes e flores bonitas. Ela é uma observadora, e eu rapidamente aprendi que os observadores do mundo são presentes raros e belos. Foi quando, finalmente, me dei conta de que ela era um presente para minha alma frenética.

Minha promessa de ir mais devagar foi feita há quase três anos e ao mesmo tempo eu comecei minha jornada de abrir mão das distrações diárias e agarrar o que importa na vida. E viver num ritmo mais devagar demanda um esforço concentrado. Minha filha mais nova é meu lembrete vivo do porquê eu preciso continuar tentando.

E de fato, outro dia, ela me lembrou de novo. Nós duas estávamos fazendo um passeio de bicicleta, indo para uma barraquinha de sorvetes enquanto ela estava de férias. Após comprar uma gostosura gelada para minha filha, ela sentou em uma mesa de piquenique e observou deliciada a torre gélida que tinha em suas mãos. De repente, um olhar de preocupação atravessou seu rosto. “Devo me apressar, mamãe?” Eu poderia ter chorado. Talvez as cicatrizes de uma vida apressada nunca despareçam completamente, pensei, tristemente. Enquanto minha filha olhava para mim esperando para saber se ela poderia fazer as coisas em seu ritmo, eu sabia que eu tinha uma escolha. Poderia continuar sentada ali melancolicamente lembrando o número de vezes que eu apressei minha filha através da vida… ou eu poderia celebrar o fato de que hoje estou tentando fazer as coisas de outra forma. Eu escolhi viver o hoje. “Você não precisa se apressar. Tome seu tempo”, eu disse gentilmente. Toda sua cara instantaneamente abrilhantou-se e seus ombros relaxaram. E então ficamos sentadas, lado a lado, falando sobre coisas que crianças de 6 anos que tocam ukelele gostam de falar. Houve momentos em que ficamos em silêncio, sorrindo uma para a outra e admirando os sons e imagens ao nosso redor. Eu imaginei que ela fosse comer todo o sorvete – mas quando ela chegou na última mordida, ela levantou uma colheirada repleta de cristais de gelo e suco para mim. “Eu guardei a última mordida pra você, mamãe”, disse orgulhosa. Enquanto aquela delícia gelada matava minha sede, eu percebi que consegui um negócio da China. Eu dei tempo para minha filha e em troca ela me deu sua última mordida de sorvete e me lembrou que as coisas tem um gosto mais doce e o amor vem mais dócil quando você para de correr apressada pela vida. Seja comendo sorvete, pegando flores, apertando o cinto de bichinhos de pelúcia, quebrando ovos, encontrando conchinhas, observando joaninhas ou andando na calçada.

Nunca mais direi: “Não temos tempo pra isso”, pois é basicamente dizer que não se tem tempo para viver. Tomar seu tempo, pausar para deleitar-se com as alegrias simples da vida é o único jeito de viver de verdade – acredite em mim, eu aprendi da especialista mundial na arte de viver feliz.

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Foto de Rachel Macy Stafford.

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Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

15 Comentários

  • Maravilhoso texto, explica a situação de muitos jovens hoje e adultos como eu que sofreram essa experiência no lar.
    Ótimo para os pais tomarem consciência de seus atos e palavras na formação dos pequenos.

  • primeiro comecei a ficar em depressão pois me reconheci no relato de mãe apressada, mas logo em seguida fui salva pois também me reconheci na opção de viver o agora com alegria: “Poderia continuar sentada ali melancolicamente lembrando o número de vezes que eu apressei minha filha através da vida… ou eu poderia celebrar o fato de que hoje estou tentando fazer as coisas de outra forma. Eu escolhi viver o hoje.”
    namastê

  • É lindo com certeza quando alguém que tem o ‘poder’ de mandar em uma situação resolve espontaneamente respeitar aquele que não pode mandar.
    Entendi tudo o que o texto diz, só acho que cada um tem seu ritmo, ela respeita o da filha, mas nem por isso tem obrigatoriamente que se tornar lenta se seu temperamento, personalidade, biorritmo sei lá a fazem andar mais depressa. Não sei. Convivência ideal deveria ser cada um poder ter espaço para seu próprio ritmo, mas nas intersecções o lento se apressar um pouco, e a apressada esperar um pouco.
    Parece óbvio, mas é que não me caiu bem isso de ‘seu jeito é lindo, vou jogar meu jeito fora e trocar pelo seu’.
    Enfim, sei lá. Ou não.

    • Achei meio óbvio que houve uma grande e clara tomada de consciência. E a tomada de consciência de quem tem responsabilidade conta bastante, Parvati. Houve uma interrupção momentânea da hereditariedade.

      Apesar da vivência ser toda dela, do insight e da mudança idem, senti claramente uma percepção dela estar vivendo autômata, sonâmbula, no modo-hamster. E interrompendo a filha sem exatamente querer (mesmo quando tinha meia hora para passear, forçava a barra). Ela transmite isso, de estar muito desconfortável e insatisfeita, usou termos como “distraída”, “dispersa”, “correndo”, e se confessou impaciente. Esse modo reduz a vida, limita, fecha. “Visão do túnel”. O ser sofre e o redor também (e a pessoa pode começar a perceber isso nos outros).

      Claro que cada um tem seu jeito e as sintonizações são necessárias, mas acho que, neste caso, a mãe estava muito longe, no sofrimento de não estar “lavando os pratos enquanto estava lavando os pratos”.

      Eu, particularmente, acho que há uma epidemia desse tipo de neurose da pressa, ao menos nos centros urbanos maiores, que vai matando as pessoas e os momentos. E vaio contaminando filhos.

      Enfim, sei lá. Ou não. ;)

    • Sua paciencia em explicar é um verdadeiro bálsamo, que acalma e ‘clareia’ as coisas. Obrigada!
      Mais uma vez, acho que entendi sim, eu mesma digo isso, ‘se seu coração está leve, vc está no caminho, se está ansiosa, angustiada, etc., reveja alguma coisa aí’.
      Sem querer polemizar, mesmo! o que motivou meu comentário foi a frase da própria mãe:
      “viver num ritmo mais devagar demanda um esforço concentrado”
      Eu sei, ‘orai e vigiai’, e tal, ‘a carne é fraca’, ‘vacilou dançou’, etc tudo aquilo que vc sai da aula de Yoga pega o carro e xinga todo mundo, blabla eu sei.
      Só que na minha fantasia, se ela tomou consciencia de verdade, não teria me passado essa impressão de tanto esforço. Na minha fantasia, ela tomaria consciencia e ficaria em paz. Tive a impressão que ela trocou o desconforto da correria pelo desconforto de assumir o ritmo da filha que não era o dela. Whatever.
      Por outro lado, o tema ‘interromper a hereditariedade’ é absolutamente crítico, necessário, importantíssimo, e até hoje sempre pensei esta função como sendo atribuição filial.
      Foi interessante observar isto acontecendo por iniciativa da mãe. Bacana mesmo.
      Obrigada de novo!

    • Nossa, obrigado Parvati! :)

      Entendi seu ponto quando você cita a parte do “demanda um esforço concentrado”. Quando realmente há um esforço hercúleo, provavelmente a pessoa está operando no paradigma passado ainda, acredita firmemente (no fundo) que não precisaria ter paciência. Ou quem é um “favor”. Ou algo assim. Uma vez que ela percebe que é realmente a coisa a ser feita, o grande esforço diminui. É o que vc diz de “consciência de verdade”.

      PS: O Thich Nhat Hanh falou disso em relação ao perdão num post semana passada. Ele diz que “só vontade de perdoar não é suficiente”, que precisava compreender e sentir a dor do outro. Aí não tem esforço, o perdão vem mais natural.

      Namastê!
      Nando

  • SIMPLESMENTE VIDA… ESTA ÉA VERDADEIRA RAZÃO DE VIVER!!! CURTIR OS FILHOS E PRESTAR ATENÇÃO DIA A DIA NOS MÍNIMOS DETALHES DE SEU FILHO,NÃO TEM PREÇO… “OBRIGADA MINHA FILHA POR ME ESCOLHER COMO MÃE” (NICOLY, 3 ANOS E NOVE MESSES)

  • Passei um longo tempo com esse. Eu já tinha determinado que “algum dia” não existia, mas eu precisava de um plano. Na verdade, eu precisava de um plano mágico, algo que faria tudo se alinhar perfeitamente. Não há planos mágicos. Qualquer coisa pode dar errado com qualquer decisão que você tome, não importa o quão informado você esteja. Não cometa o erro que cometi. Não espere que seus planos sejam perfeitos. Não espere que a “fada do plano” vir e torná-lo mágico. Pegue seu objetivo e começa a andar em direção a ele. Seja paciente consigo mesmo e corrija os erros que você faz no caminho. Simplesmente comece. Você nunca vai aprender a nadar se você nunca entrar na água, tenha você um bom plano ou não.

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