3 trechos de “O Inverno do Nosso Descontentamento”, de John Steinbeck: nós, o dinheiro, os problemas e o outro

inverno descontentamentoO Inverno do Nosso Descontentamento” (The Winter of Our Discontent), livro de John Ernst Steinbeck Jr. (1902-1968) cujo título é uma homenagem à frase de abertura de “Richard III“, de William Shakespeare, não é considerada a melhor obra do escritor americano Nobel de Literatura de 1962, mas certamente tem grandes reflexões e momentos, alguns deles interessantes e ricos para nosso contexto aqui. Abaixo, três selecionadas:

Sobre as ilusões e limitações do dinheiro e as profundidades do ser:

“Ontem à noite mesmo, a Ellen me perguntou: ‘Papai, quando vamos ficar ricos?’. Mas eu não lhe disse o que sei: ‘vamos ficar ricos logo, e você que lida mal com a pobreza, vai lidar mal com a riqueza do mesmo jeito’. E é verdade. Na pobreza, ela é invejosa. Na riqueza, pode ficar esnobe. O dinheiro não transforma a doença, apenas os sintomas”.
~ trecho de “O Inverno do Nosso Descontentamento“, de John Steinbeck, Capítulo VII, pg 78

Sobre os problemas crescentes ou já grandes demais:

“Quando um problema se torna demasiado vasto, o homem tem sempre o recurso de tentar ignorá-lo. Mas ele infiltra-se, penetra no espírito, mistura-se ao que já ali se encobria e dá origem ao descontentamento e à inquietação, a um sentimento de culpa, a um desejo de se manifestar antes que seja demasiado tarde. Talvez os nossos psicanalistas não se ocupem já de complexos, mas simplesmente daquelas ogivas prestes a transformarem-se em terríficos cogumelos de fumo. Parece-me que cada um de nós se agita com uma alegria forçada e barulhenta, como aquela que exibem os foliões numa noite de fim de ano. Esqueçamos o passado e beijemos a mulher do vizinho”.
~ trecho de “O Inverno do Nosso Descontentamento“, de John Steinbeck, Capítulo X, pg 117

Sobre conhecer verdadeiramente o outro:

“Nunca a tinha visto verdadeiramente. A quantas pessoas no decurso da minha vida olhei sem as ver? É espantoso. Aí está mais um assunto para reflexão. Quando duas pessoas se encontram, cada uma é mudada pela outra, e assim nascem dois indivíduos novos. Talvez isso queira dizer… Meu Deus, como é complicado. Pensarei em tudo isto à noite, quando não puder dormir.”
~ trecho de “O Inverno do Nosso Descontentamento“, de John Steinbeck, Capítulo IV, pg 46

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

22 Comentários

  • Um tema tão interessante e uma abordagem tão pobre! Que decepção. Vez por outra o site Dharmalog, me surpreende assim. Vejo um enunciado rico, com postagem tão insignificante. Lamentável.

    • De facto, também eu esperava, numa primeira reacção, comentários do Dharmalog mais desenvolvidos sobre o livro mas depois reflecti e achei que, muito provavelmente, a intenção tinha sido apenas (o que é muito mais e muito mais nobre do que aquilo que você e eu estamos a fazer)divulgar o texto para que cada um possa fruir do mesmo. Obrigada pelo vosso trabalho, Dharmalog. Abraço.

    • Prezadas amigas e amigos,

      Uma das essências do blog é a curadoria, buscar, conhecer, selecionar e trazer para nossa “visitação interior” temas, textos, ensinamentos, reflexões, livros, etc, que estejam sintonizados com o assunto principal. Em alguns casos não é necessária nenhuma elucubração, e outras eu nem tenho muito a acrescentar ao que foi escrito ou transmitido, e é bom que não acrescente, acredite. Às vezes o mais adequado é ser apenas o curador e deixar quem lê voar livremente. Sobre isso, e para além disso, é preciso que saibamos andar com nossos próprios pés sobre o mundo, o que também é parte FUNDAMENTAL do que é feito aqui. De que adianta buscarmos auto-conhecimento se queremos que sempre exista uma digestão ou um apoio alheio? Quando tivermos que e não conseguimos andar (sozinhos), é vital ir em frente com habilidade, participando da discussão (“você poderia desenvolver?” talvez fosse uma participação suficiente para isso de fato acontecer), e não simplesmente desqualificando um trabalho com simples adjetivos. Isso é desrespeito e não permite que o outro (no caso, eu) saiba porque um conteúdo foi considerado o que foi considerado. Não acrescenta nada – o que, não por acaso, é justamente do que acusa o comentário.

      Maria, obrigado. É por aí mesmo, agradeço.

      E se quisermos ir além desenvolvendo os assuntos aqui, vamos em frente. Só temos que saber por onde começar.

      Namastê,
      Nando

    • Cada vez mais me impressiona o quanto tem sido comum pessoas entrarem no blog alheio para despejarem descortesias.

      Me ocorre que um blog é como uma casa onde eu faço o que quero, como quero. No blog é a mesma coisa escreve-se o que quer, da forma que deseja. Espontaneamente. Apenas uma forma de expressão pura e simples.

      Quando eu abro a porta da minha casa será que alguém teria a coragem de, sem ser convidado, apenas porque a porta está aberta passar pela rua, entrar, andar pela casa criticando a disposição dos móveis, abrindo a geladeira e comentando sobre o que está lá dentro, rabiscando nas paredes, sentando no sofá e colocando o pé na mesa… pelo pouco que sei, aqui fora isso é considerado invasão de domicílio e em alguns casos assalto quando além de entrar sem ser chamado a pessoa além de criticar ainda leva alguma coisa que não lhe pertence.

      Por que será que existe essa falta de cerimônia de algumas pessoas em serem deselegantes nos blogs?
      Aliás, pensando bem, onde foi parar a elegância?
      Por que precisamos marcar posição, marcar território e deixar claro que não gostamos de de alguma coisa?
      Que diferença isso vai fazer?
      Se não gostou por que não apenas fechar a página e sair procurando coisas melhores?

      Sei lá, ando pensando nisso ultimamente…a intolerância anda campeando no mundo real e descambando para o virtual. Uma pena, esse poderia perfeitamente ser o território da delicadeza…

  • “Steinbeck fazia tais personagens exemplares dos mais universais sentimentos humanos: a luta pela dignidade humana, a dificuldade das relações de afeto frente à crueldade do mundo e da vida, e a solidão, na sua acepção mais ampla e passível de ser compartilhada por todos os homens.”

    Fonte: biografia do autor inserida em “Ratos e homens”

    Familiar e atemporal, (Bazinga! – ‘sinto’ que o autor diz para seus leitores, com o sentido de: “Te peguei!”, do Shelton)

    Gosto dos personagens oriundos de camadas inferiores da pirâmide dos trabalhadores, sentindo (ainda) os reflexos da Grande Depressão e/ou do ‘New Deal’ e se perdendo (sofrendo) em NOBRES questionamentos, diante da dureza do mundo e a falta de caráter de alguns. Contudo, não cobram de terceiros comportamentos, que em seus foros íntimos, estão cientes de não serem capazes de executarem, sejam quais forem os motivos.
    Sua moralidade rege o seu ato – sem conflito, mas com aguda observação do que ‘reina’ ao seu redor.
    O seu ‘julgamento’ é filosófico e não crítico. Constata, porém não cria expectativas. Só em ‘trilhas’ devidamente mapeadas – há cobranças. Os dignos… são dignos e não camuflados, simulacros.

    É óbvio que o ‘Nobel’ não vai para qualquer para um que APENAS demonstre a maior capacidade de empatia,:

    “Conseguimos encontrar tantas dores quando a chuva cai…” (J.Steinbeck)

    mas uma ‘menção’ póstuma, pelo seu “idealismo e simpatia humana”, por sua fé no homem, já tem o meu voto. :)

    Assim eu o vejo, mas o que sei eu sobre “Ratos e Homens”?
    Apenas o que diariamente aprendo sobre mim mesma.
    (E sobre os outros? Estes são os que + me ensinam sobre mim. Excelentes mestres! ).

    Agradeço a excelência da escolha dos textos que compõe o Post.
    Boa sorte, Norma

  • Oi, Marcos,

    Suponho que o teu reply foi ao meu coment.
    Que bom que ajudou.
    Agora, vc viu a Tag em que o Post foi colocado: “Frases & Reflexões”?
    E o dicionário diz (+/-): retorno do pensamento sobre si mesmo, com vista a examinar mais profundamente uma ideia ou uma situação. Portanto, se vc entendeu o ‘porquê” de apreciá-lo é porque você já tinha chegado a essa conclusão por si só. Só não tinha organizado…
    Fique bem, Norma

  • ED,

    Eu não conhecia a frase =D

    Entretanto, no pé das páginas dos Posts tem uma caixinha “DHARMALOG”. Clicando em “Saiba mais…”, lê-se:

    “O propósito é sempre trazer luz, provocar, inspirar e acordar nossa capacidade de finalmente conhecer a nós mesmos e de viver em liberdade.”

    O parágrafo acima é maior que o ALMA – Atacama Large Millimeter Array -, focando no objetivo que busco e (quando ‘atenta’) encontro, nesse (nosso comunitário)’espaço’:

    ACORDAR nossa capacidade (…) de conhecer A NÓS MESMOS (…). – mais claro que isso, para mim, só voltando à prancheta (em tua homenagem – rs.)

    Dedo? Que dedo, moço? Tô procurando a Lua!

    Boa sorte, Nac

  • NANDO, continue postando o que seu coração e mente consideram valioso. Não tenho o Dharmalog como fonte para esnobação e discussão com fins de melhorar a erudição e cultura de quem o lê, mas para nos enriquecermos e nos transformarmos em bons seres humanos. Louvo e aplaudo o seu benéfico trabalho. Críticas, manifestação de frustração com o que foi postado por você, não combina com o seu grandioso e valioso propósito. Vá em frente e lembre-se sempre das “oito preocupações mundanas” para não cair em sua armadilha por “flechadas” que podes receber de alguns leitores.
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    Oito preocupações mundanas

    B. Alan Wallace (EUA, 1950 ~):

    A tradição budista lida com as preconcepções sobre o sucesso como prioridade com um diagnóstico diferencial de oito partes chamado de “as oito preocupações mundanas”, oito direções para a busca da felicidade baseadas em suposições não investigadas. A fixação nessas preocupações subverte nossos melhores esforços, conduzindo ao sucesso falso ou frustração real.

    As oito preocupações mundanas consistem em quatro pares de prioridades: buscar aquisições materiais e evitar sua perda; buscar o prazer dirigido pelo estímulo e evitar o desconforto; buscar o elogio e evitar a crítica; e manter a boa reputação e evitar a má reputação. Essas oito preocupações resumem, em geral, nossa motivação pela busca da felicidade, e este é exatamente o problema. As oito preocupações mundanas — que não são erradas em si — são a base de nossa motivação, e é a motivação, mais do que qualquer outro fator, que determina o resultado da prática espiritual.

    Não há nada de errado em adquirir bens materiais — um carro, uma casa; e, inversamente, a pobreza não é necessariamente uma virtude. Não há nada de errado em aproveitar um pôr-do-sol, um bom livro, uma conversa agradável ou uma bela música. Não é errado ser elogiado. Ser amado e respeitado pelos outros também não é errado.

    Por outro lado, não é ruim ser criticado pelos outros se você estiver levando uma vida benéfica e significativa. Muitos praticantes bem-sucedidos no darma estão contentes e felizes vivendo em total pobreza. A reputação pode melhorar e piorar, mas é possível que o contentamento permaneça constante. A verdadeira fonte da felicidade não está no domínio das oito preocupações mundanas. Ricos, pobres, elogiados, criticados, estimulados, entediados, respeitados, ultrajados — nenhuma dessas preocupações mundanas em si são fonte de felicidade. Nem impedem a felicidade.

    O problema é que, quando nos concentramos nas preocupações mundanas como um meio para a felicidade, a vida se torna um jogo de dados. Não há garantias. Se você aspira à riqueza material, pode não conquistá-la, e se conseguir, não há garantias de que será feliz. Se aspira ao prazer, quando o estímulo acabar, a satisfação também terminará. Não existe felicidade duradoura em sair correndo atrás do prazer. As pessoas que são respeitadas e famosas tendem a ter os mesmos problemas pessoais que as outras.

    A deficiência fatal das oito preocupações mundanas é que elas são Darma falsificado, modos mal dirigidos de buscar a felicidade e — ao confundir habitualmente as preocupações mundanas com o Darma genuíno — nossos esforços para atingir a felicidade genuína são continuamente sabotados.

    “Buddhism with an Attitude” (2001, pg. 15)

    • Paulo, obrigado pelas palavras e por esse rico trecho do B. Alan Wallace, que é um das luzes que mais admiro e sempre que há algum fóton lançado por ele gosto de trazer pra cá. Muita gente também, como você. :) Especialmente esse trecho trouxe uma luz particular para o que acabou predominando na conversa desse conteúdo. Agradeço muito.

      Vou republicar para todos, em tempos de uma busca massificada da felicidade, identificar o “Dharma falsificado” é um grande serviço.

      Namast&e,
      Nando

  • Cada dia que vivo me regozijo mais com as possibilidades infinitas que cada momento vivido, cada frase proferida, cada reação e cada ação nos dar oportunidades para praticar os ensinamentos que muitos mestres nos tem ensinado. O conhecimento é importante, mas a prática dele é fundamental. Tolerância, paciência e compaixão são práticas muito ricas e que transformam as pessoas.

  • Norma.

    Me surpreendeu você não conhecer essa frase:“Quando um dedo aponta para a lua, o tolo olha para o dedo.”
    (Provérbio Chinês)
    Fiquei surpresa devido ao fato de sempre fazer uma grande explanação sobre os assuntos… e mais surpresa de você crer que o comentário foi direcionado a você, não ao todo.
    E a perspectiva da lua, realmente será melhor que o dedo, Moça!
    Fique em paz…
    Isa.

    • Oi Isa,

      Realmente, não a conhecia. (Sei muito pouco sobre as coisas ou ‘dedos’ – rs) AGORA, conheço a frase, mas … (ainda) SÓ sei que nada sei! :)

      Quanto ao comentário do ED, eu tenho noção de que não foi para mim. (Foi como a molecadinha diz: “Pra geral”). Certeza que me vem do fato dele ser uma pessoa que ‘cultiva’ à gentileza, não por algum ato meu.

      O Ed é arquiteto (coments. em Posts anteriores), daí a minha BRINCADEIRA “de volta à prancheta”, com o sentido de : “Quer que eu desenhe?”, para exemplificar o fato que o DHARMALOG é bem claro em especificar ao que se destina e como seus leitores poderão se beneficiar das suas matérias. (Há excelentes espaços tratando especificamente de literatura, na WEB, nos quais, só eventualmente poderei focar sobre autoconhecimento, especificamente).

      Aqui, se o meu entendimento for coerente, trata-se de ‘refletir’ como um assunto ‘cai’ na pessoa, como ela sente/vê à matéria, em busca de melhor se conhecer = autoconhecimento, tipo: eu, comigo mesma diante da situação ou afirmativa – como reajo.

      Isa, moço/a é um tratamento carinhoso que dou àqueles com os quais me identifico, seja em que área for, mesmo sem conhecê-los pessoalmente. NÃO é gerador de intimidades e.. que bom que vc o usou para comigo!

      A acrescentar, só o fato de não conhecer o Curador do Dharmalog, portanto, a minha presença aqui, como quase uma “sócia-atleta”, dá-se ao fato do tanto que aprendo/recebo. Minhas frequentes participações podem ser vistas como um LOGbook (diário de bordo, referente sobre o meu ‘andamento’) e também por supor que alguém que administra um Blog com a abordagem/PERFIL do Dharmalog, espera mais que apenas leitores eventuais ou repassadores dos seus textos: Quer feedback. Quer aprender junto com TODOS sobre si mesmo, certo?

      Às vezes, penso que alguém poderá tirar algum proveito do que escrevo, nos coments. Às vezes, não.

      No dia em que o meu “dedo” ficar maior que a Lua, mudarei as coordenadas e o meu ‘ALMA’ vai vasculhar outros quadrantes. Isso eu já aprendi. (*.*)

      Bom fim de semana e fique bem, Norma

      P.S.: “mea culpa, mea maxima culpa” – Sim! Não fui agraciada com o dom da SÍNTESE. Mas prometo me policiar :)

  • Oi Patty,

    :)

    Moça, os cientistas agora estão dizendo que o corpo não pode ter sintomas que o cérebro desconheça. Algo floresceu? Então a semente (e solo) já estavam aí. Há mérito sim. E ele é todo seu.

    Boa sorte, Norma

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