Sem fuga, sem tranquilizantes, sem medo: a bravura da honestidade e da abertura, pelo “guerreiro” Chogyam Trungpa

Chogyam Trungpa Warrior GuerreiroComo receber essas palavras do grande mestre tibetano de meditação Chögyam Trungpa Rinpoche (1939-1987) senão como precioso e sábio ensinamento para a vida, sobre um assunto que é um dos maiores, e talvez o maior, divisor de águas do caminho interior e da busca da verdade? Do relativamente novo livro Smile at Fear: Awakening the True Heart of Bravery (sem título em português, mas algo como “Sorria para o Medo: Despertando o Verdadeiro Coração da Bravura“, 2010) vem esse trecho do capítulo “O Caminho do Guerreiro“, uma expressão que o próprio Chögyam Trungpa esclarece que não tem nada a ver com guerra ou violência, mas como coragem de enfrentamento interior. São palavras de amizade profunda que ele nos envia “sem nos conhecer”, ensinando que a honestidade consigo mesmo não tem limites nesse mergulho interior, assim como a coragem auto-compassiva para encarar frontalmente os próprios medos, todos, até que seu “lugar no mundo” esteja aberto e destemido.

A marca conhecida de Chögyam Trungpa, o alerta para o materialismo espiritual, aparece aqui de novo quando ele fala que “as pessoas podem usar tranquilizantes ou yoga para suprimir seus medos”. Muitos de nós, aqui mesmo neste blog, por exemplo, incluindo eu que escrevo agora, estamos mais passíveis de embarcar nos furados cruzeiros do materialismo espiritual do que gostaríamos de admitir. E acredito que quem já andou verdadeiramente algum quilômetro pra dentro de si mesmo, no atual estado do mundo ocidental, já deve ter pego pelo menos uns dois ou três barcos furados desses. Entendo que reconhecer o valor da coragem e da honestidade consigo mesmos são o fio da meada que nos faz descer dos engodos e seguir em frente.

Há outros posts aqui com palavras de Chögyam Trungpa, como em A “fraude gigantesca” que é o ego e como distorce a espiritualidade e até a meditação, por Chögyam Trungpa (07/08/2012).

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SORRIA PARA O MEDO: DESPERTANDO O VERDADEIRO CORAÇÃO DA BRAVURA” [TRECHO]
From Part One: The Way of the Warrior
Por Chögyam Trungpa

Parte 1: O Caminho do Guerreiro

Se tornar um guerreiro e encarar a si mesmo é uma questão de honestidade mais do que auto-condenação. Olhando a si mesmo, você pode descobrir que tem sido um bom menino ou uma boa menina, e pode se sentir péssimo a respeito de si mesmo. Sua existência pode parecer penosa, completamente apagada, como o Buraco Negro de Calcutá. Ou talvez você veja algo bom sobre si mesmo. A idéia é simplesmente encarar os fatos. A honestidade tem um papel muito importante. Apenas veja a verdade simples e direta sobre você mesmo. Quando você começa a ser honesto consigo mesmo, você desenvolve uma genuína intuição sobre a verdade. Isso não significa necessariamente se diminuir. Descubra simplesmente o que está lá, simplemente veja, e então pare! Então, primeiro, olha para si mesmo, mas não se condene. É importante estar focado nos fatos, presente. Apenas olhe, e quando você ver a situação na sua plenitude, então você começa a ser o guerreiro.

Capítulo 1: Encarando a Si Mesmo

Nosso assunto é o guerreiro. Qualquer um que esteja interessado em ouvir a verdade, que no Budismo chamamos de dharma; qualquer um interessado em encontrar a si mesmo; e qualquer um interessado em praticar meditação é basicamente um guerreiro. Muitas abordagens em relação à espiritualidade e à vida em geral são influenciadas pela covardia. Se você tem medo de ver a si mesmo, pode usar a espiritualidade ou a religião como uma maneira de olhar a si mesmo sem ver nada de si mesmo. Quando as pessoas tem vergonha de si mesmas, não há destemor envolvido. Entretanto, se alguém tiver vontade de olhar a si mesmo, quiser explorar e praticar consciência aqui mesmo, então é um guerreiro.

“Guerreiro” aqui é uma tradução da palavra Tibetana “pawo”. Pa significa “bravo”, e wo a transforma em “a pessoa que é brava”. A tradição de guerreiros que estamos falando aqui é uma tradução de bravura. Você pode ter uma idéia sobre um guerreiro como alguém que incita a guerra. Mas nesse caso, não estamos falando de guerreiros como aqueles que vão pra guerra. A guerra aqui se refere à bravura e destemores fundamentais.

A bravura é baseada na superação da covardia e de nosso senso de ser machucados. Se nos sentimos fundamentalmente feridos, podemos ter medo que alguém possa colocar pontos em nós para curar as feridas. Ou talvez já tenhamos os pontos, mas não queremos que ninguém os tire de nós. A abordagem do guerreiro é encarar todas essas situações de medo e covardia. O objetivo geral da guerra é não ter medo. Mas o fundo da guerra é o próprio medo. Para ser destemido, primeiro temos que encontrar onde o medo está.

O medo é o nervosismo, o medo é a ansiedade, o medo é o senso de inadequação, um sentimento que não somos capazes de lidar com os desafios da vida diária. Sentimos que a vida é opressiva. As pessoas podem usar tranquilizantes ou yoga para suprimir seus medos: tentam flutuar sobre a vida. Elas podem fazer intervalos ocasionais para ir ao Starbucks ou ao shopping. Temos todos os tipos de truques e mecanismos que usamos para que podemos experimentar o destemor simplesmente tirando nossas mentes do nosso medo.

De onde vem o medo? Vem do nosso espanto ou desorientacão mais básico. De onde vem o espanto mais básico? Vem da incapacidade de harmonizar e sincronizar a mente e o corpo. Na pratica sentada da meditação, se você se posicional mal no assento, será incapaz de sincronizar corpo e mente. Você não tem uma percepção do seu lugar ou da sua postura. Isso se aplica ao resto da vida também. Quando você não se sente fundamentado ou adequadamente fixado no seu mundo, voc&e não pode se conectar com sua experiência ou à do resto do mundo.

Então o problema começa de uma maneira muito básica. Quando o corpo e a mente não estão sincronizados, você se sente como uma caricatura de si mesmo, quando como um idiota ou palhaço primordial. Nessa situação, é muito difícil se relacionar com o resto do mundo.

Essa é uma versão simplificada do que é conhecido como a mentalidade do sol-se-pondo: ter perdido completamente o caminho da harmonia de ser humano. A idéia do sol poente é que o sol já está se pondo no seu mundo, e você não pode ir além da escuridão. Você sente que só existe miséria, nuvens, a masmorra, vida na sarjeta. Para compensar por isso, você pode ir a um calabouço muito escuro com péssima luz, onde você se embebeda. Isso é chamado de um clube. Voc&e dança como um macaco bêbado que se esqueceu das bananas e de sua casa na floresta há muito tempo. Então se diverte com cerveja barata enquanto balança seu rabo. Não há nada com a dança per se, mas neste caso é uma forma de fugir ou de evitar o medo. É muito triste. É o sol se pondo. É um beco sem saída.

Em contrasto com isso, o Grande Sol do Leste é o sol que está plenamente nascendo em sua vida. É o sol da consciência, o sol da dignidade humana. É Grande porque representa a ascensão e as qualidades da abertura e da suavidade. Você tem um sentido austero da sua postura e lugar no seu mundo, que nós chamamos ter boa cabeça e pescoço. Está no Leste porque você tem um sorriso em seu rosto. O Leste é o conceito do nascente. Quando você olhar pra fora na primeira hora da manhã, você vê a luz vinda do Leste, mesmo antes que o sol apareça. Então o Leste é o sorriso que você tem quando acorda. O sol está para nascer. O ar fresco está chegando com o nascer. Por isso o sol está no Leste e é Grande.

Aqui, o sol é um sol completamente maduro, o sol que você vê no céu pelas 10 da manhã. É o oposto da imagem do macaco bêbando dançando à meia-noite na luz de lâmpadas elétricas. O contrasto é a visão estupenda e absolutamente extraordinária do Grande Sol do Leste que é austero e consciente, fresco e preciso.

Podemos ir mais a fundo nos detalhes mais tarde, mas primeiro deveríamos discutir a compreensão fundamental do medo e do destemor. Um dos principais obstáculos ao destemor são os padrões habituais que nos permitir nós nos frustarmos. Ordinariamente, não nos permitimos experimentar a nós mesmos plenamente. Digo, temos medo de nos encararmos. Experimentar o âmago mais interior de nossa existência é constrangedor para muitas pessoas. Várias pessoas tentam encontrar um caminho espiritual onde não tenham que encarar a si mesmas mas onde possa ainda assim libertarem – libertarem-se de si mesmas, na verdade. Na verdade, isso é impossível.

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

23 Comentários

  • *** – O MÊDO: É A ESPADA DE ” DÂMOCLES SOBRE AS SOCIEDADES: MODERNAS, ANTIGAS E DE TODOS OS TEMPO!

    * – SOMENTE A PARTIR DE: FREU; YOUNG; E /OU … OUTROS CIENTISTAS DA MENTE; É QUE CIENTIFICAMENTE ISSO TUDO PASSOU A FAZER PARTE DO CID-CÓDIGO INTERNACIONAL DE DOENÇAS ! E TAMBÉM A PSICOLOGIA; PARAPSICOLOGIA ETC. ETC. (PARA, NÃO ME ALONGAR NESTE COMENTÁRIO ! ( A ORDEM CRONOLÓGICA, NÃO ESTÁ ORDENADA!O K. ? * – NAMASTE. * – E, HÁ: MUITO, MAIS E MAIS A SER DESCOBERTO !

  • Que dádiva poder ler isso nessa manhã de aceitação, de responsabilidade por ser quem sou nesse nascer diário que me faz lembrar da possibilidade diária de renascimento da minha experiência de conexão corpo e mente, conexão com o mundo.

    desbravandooser.blogspot.com.br

  • Gostaria de aplaudir a ideia do blog. Tenho divulgado muito para amigos e até desconhecidos. Tem conteudos que, para quem busca o conhecimento, é de um valor muito grande. Quero mais conteudos. E uma dica, que tal um espaço para dicas de livros? E talvez um espaço para discução de temas? Vejo que o pessoal que frequenta aqui é tem uma bagagem de conhecimento muito importante, imagine um forum com tudo isso. Seria um templo de conhecimento.

    • Obrigado Diovani, pelas palavras e pela divulgação. E também pelas sugestões, que já estão em andamento, principalmente a dos livros. Mas estou pensando também no melhor formato de um fórum, ou Perguntas & Respostas (aberto), ou temático, enfim, analisando um espaço que a gente possa conversar, usar os posts, trazer compreensões individuais. Espero que em breve esteja aqui.

      Um abraço grande,
      Nando

  • Libertar de si mesma? Vixê! Não vai funcionar. Só vai jogar sua Alma lá para fundo (depressão)- fracionando-a.

    Libertar-se em si mesma. Ao seu lado, amorosamente, vendo-se como um Ser em pleno aprendizado, que em alguns aspectos já se encontra apto a lecionar, em outros, ainda aprendendo a desenhar as letras. Gentileza com quem aprende: seja sério, mas flexível…

    Com apoio incondicional, mas sem condescendências banais. Aprendendo sobre a pessoa mais importante da sua Vida: você mesmo e como tudo, tudo mesmo, bate e funciona em você. Se é verdade EM você.
    E isso não é Ego. É Respeito, é Amor pelo ser que habita aí dentro e sabe que e quando deu um passo adiante.

    E como posso compartilhar a sensação tida, ao meditar (me recolher), num momento díficil, extremamente cansada, de estar dando colo a mim mesma? Como passar ao interlocutor o aconchego, o apoio e a recuperação das energias físicas e mentais doadas e recebidas por mim mesma, naquele instante?
    Meditação? Facilite a sua vida: Se faça esse carinho!
    Boa Sorte, Norma

    P.S.: Bem estiloso o nosso Mestre acima (vide a foto do outro Post, tb). Aprovadíssimo! :*)

    P.P.S: Ouvi dizer que na Maçonaria há um exercício feito com espelho, onde a pessoas fita-se nos olhos longa e detalhadamente. Deve ser bom, afinal a gente se olha, mas não se enxerga com frequência (só vê a superfície e no automático)e qdo. calha de se ‘ver’na real, até se assusta ou cai de amores (bem mais raro) – risos. Nac♥

  • Lamentavelmente, fomos aculturados pela tradição judaico-cristã e outras expressões religiosas castradoras da liberdade e do bom senso, a não exercitarmos o enfrentamento interior, pois caso contrário, suas lideranças não mais conseguiriam escravizar e dominar as consciências de seus profitentes por meio de dogmas e teologias complexas que pouco ou nada favorecem a auto-iluminação e o crescimento psicológico da criatura humana. Mas felizmente, nesse tipo de lavoura, igualmente floresce o trigo bom da sensatez, do verdadeiro amor e da lídima sabedoria. Nesse contexto, podemos citar a figura exponencial de Santo Agostinho, o qual em sua magistral Obra – Confissões – nos ensina que o lírio da virtude pode emergir igualmente do terreno pantonoso de nossa inferioridade moral, basta tão somente que tenhamos coragem, determinação e muita fé em si próprio e em Deus. Mas para isso é imprescindível, afirma o notavel filósofo da Patrística, que mergulhemos sem temor no oceano profundo de nossa interioridade, e faceemos nosso lado sombrio, pecaminoso e enfermiço, mesmo que isso nos cause a princípio um mal estar ou inomináveis angústias. Foi esse enfrentamento interior, que libertou Aurélio Agostinho se libertasse das algemas que o prendiam a sexolatria e a viciação sexual. Essa experiência de Agostinho, corrobora a tese de que O SANTO É O PECADOR QUE NÃO DESISTIU DE LUTAR, isto é de enfrentar desassombradamente seus medos, suas culpas e suas crenças irracionais e castradoras.

    • Lamentavelmente, fomos aculturados pela tradição judaico-cristã e outras expressões religiosas castradoras da liberdade e do bom senso, a não exercitarmos o enfrentamento interior, pois caso contrário, suas lideranças não mais conseguiriam escravizar e dominar as consciências de seus profitentes por meio de dogmas e teologias complexas que pouco ou nada favorecem a auto-iluminação e o crescimento psicológico da criatura humana. Mas felizmente, nesse tipo de lavoura, igualmente floresce o trigo bom da sensatez, do verdadeiro amor e da lídima sabedoria. Nesse contexto, podemos citar a figura exponencial de Santo Agostinho, o qual em sua magistral Obra – Confissões – nos ensina que o lírio da virtude pode emergir igualmente do terreno pantonoso de nossa inferioridade moral, basta tão somente que tenhamos coragem, determinação e muita fé em si próprio e em Deus. Mas para isso é imprescindível, afirma o notavel filósofo da Patrística, que mergulhemos sem temor no oceano profundo de nossa interioridade, e faceemos nosso lado sombrio, pecaminoso e enfermiço, mesmo que isso nos cause a princípio um mal estar ou inomináveis angústias. Foi esse enfrentamento interior, que libertou Aurélio Agostinho das algemas que o prendiam a da viciação sexual. Essa experiência do autor de Confissões, nos ensina que O SANTO É O PECADOR QUE NÃO DESISTIU DE LUTAR, basta portanto, que enfrentemos desassombradamente nossos medos, culpas e crenças irracionais e castradoras introjetadas ao longo do nosso processo de desenvolvimento antropossociopsicológico.

  • Oi, A.Salomão:

    (…) nos ensina que o lírio da virtude pode emergir igualmente do terreno pantanoso de nossa inferioridade moral, basta tão somente que tenhamos coragem, determinação (…).

    (nossa inferioridade moral = a nossa + a dele. Lótus?)

    Gostei muito de você ter lembrado e trazido Sto Agostinho, esse grande Professor da Igreja e por quem tenho uma considerável apreço intelectual:

    “Comecemos com a palavra corrupção. Ela tem origem na teologia. Antes de se falar em pecado original, expressão que não consta na Bíblia mas foi criada por Santo Agostinho no ano 416 numa troca de cartas com São Jerônimo, a tradição cristã dizia que o ser humano vive numa situação de corrupção. Santo Agostinho explica a etimologia: corrupção é ter um coração (cor) rompido (ruptus) e pervertido. Cita o Gênesis: “a tendência do coração é desviante desde a mais tenra idade”(8,21). O filósofo Kant fazia a mesma constatação ao dizer:“somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas retas”.
    L.Boff

    e uma considerável antipatia pessoal, que me faz virar o seu (o dele) retrato para parede, tipo o “teu passado tecondena” (tá difícil justificar o que ele e sua genitora (Sta Mônica) fez com uma simples mãe).

    Meu comentário para o L. Boff, quote:
    “É impressionante o tanto que aprendo com o senhor. Hoje, a linda definição s/corrupção de Sto Agostinho, por quem nutro certa antipatia (Vita Brevis – A carta de Floria Emília para Aurélio Agostinho.*) e profunda admiração intelectual. Obrigada por me ensinar sobre Ética mais que compêndios e quase tanto quanto o meu coração. Boa Sorte! Norma” unquote

    (*) “Flória Emília amou profundamente Aurel, entregando-se a ele e aos prazeres sensuais em que ele era mestre. Foi sua companheira fiel nas horas difíceis e dele gerou um filho. Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua santa e piedosa mãe. Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria. Mesmo assim, jurou fidelidade eterna a Aurel, a ele que se tornaria exemplo cristão, bispo de Hipona, Padre da Igreja católica e por fim santo – Santo Agostinho. E agora, Flória Emília escreve-lhe esta carta …
    (descrição de “Submarino” )

    Norma
    P.S.: Quem pegou o “VITA BREVIS” na ‘Bibl. Carlos Drummond’ e ‘esqueceu’ de devolver, se estiver lendo o presente, favor cometer essa gentileza. Gostaria de relê-lo. Nac

    • Norma, muito obrigado por seu comentário fecundo e rico de considerações oportunas, ante a nossa despretensiosa e humilde reflexão. Não ignoro esse aspecto biográfico de Agostinho e tampouco o condeno, de vez que todos nós podemos em determinadas circunstâncias da vida, cometer desatinos e irracionalidades. Não estou querendo dizer com isso que contemporizo o comportamento equivocada e infeliz do venerando Bispo de Hipona. Longe disso! Mas é importante que tenhamos em vista, que após esse inditoso fato, Aurélio perdeu a paz e a tranquilidade interior, porquanto ninguém é feliz infelicitando a outrem. Acometido de remorsos e culpas indescritíveis, quase perpetrou o autocídio, só não o fazendo por conta da assistência amorosa de sua genitora. Todavia, um dia cansado de sofrer, busca apoio na espiritualidade cristã por meio da qual consegue lenitivo e consolo interior. Tempos depois o vemos com base em sua experiência de vida – conhecimentos, erros e quedas morais – auxiliando criaturas sofredoras e escrevendo livros de elevada erudição filosófica-religiosa. É verdade que ele erigiu muitas doutrinas que não coadunam com a mentalidade do homem pós-moderno, mas não podemos menoscabar que a semelhança da Fenix mitológica, conseguiu ressurgir das cinzas de seus clamorosos erros, nimbado de santidade, virtude e luminosidade espiritual, vindo a se tornar um exemplo de auto-superação e guerreiro espiritual para todo homem que se encontra preso nas grades invisível da culpa e do desespero. Muita paz e Luz!!!

  • “Doze anos coabitou com ele, embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua santa e piedosa mãe.”

    Oi,A.Salomão

    Estamos falando de fatos compreendidos no período entre 354/430 D. C.

    Sem nenhum julgamento de valor sobre a superação e sua posteior orientação para vida espiritual. Como disse acima, tenho admiração intelectual por ele. Porém, lamento profundamente, a decisão de pessoas tão pias que julgaram ‘conveniente’ impedir que uma mãe usufruísse da presença de seu único filho. Quanto ao voto de fidelidade praticado por Flória, creio de não lhe restasse muitas alternativas se pensarmos que a idade média compreende o período entre situado entre os anos de 476 e 1453, ou seja posterior a eles. A minha grande ‘surpresa’ prende-se ao fato dela ser letrada.

    Como personagens históricos acho-os riquíssimos.

    Foi prazeiroso ter o teu retorno e por isso te agradeço,
    Boa sorte, Norma

    • Me desculpe Norma, mas duas colocações suas ensombraram minha mente de dúvidas. Por essa razão, a título de ampliar meu entendimento, lhe endereço duas indagações. Primeira:Por que você lamenta “profundamente, a decisão de pessoas tão pias que julgaram ‘conveniente’ impedir que uma mãe usufruísse da presença de seu único filho.”? O que voc? faria se estivesse na situação de Agostinho? Segunda: Por que a sua “grande ‘surpresa’ ante o fato “dela ser letrada”? Paz seja contigo!

  • Oi, A. Salomão,

    (antes queria colocar uma frase que vivo repetindo para mim mesma: Quando mais eu cito, menos eu digo!
    O que eu escrevo e que não venha entre aspas ou citada a fonte é minha opinião/conclusão, reflexa, após o uso de material constante da minha ‘caixinha de ferramentas’ e passível de se ‘trocada’ por uma ‘ideia’ que se apresente ‘melhor’, se assim for aprovada por meus ‘filtros’. Não é grande coisa, mas é minha! :)

    Como você se apresenta via uma linguagem formal (que dependendo das circunstâncias, prefiro), acho que cabe aqui uma informação: (repito-me) A minha forma
    de me despedir ‘Boa Sorte”, não tem cunho ligado à superstição. É a forma que o grupo (Budismo) a que sou ligada se despede. Contudo, acho a tua forma “Paz seja contigo!” perfeita e completa e me sinto realmente abençoada por um semelhante).

    Isso posto (e desconhecendo se pertences a alguma Ordem ligada a Sto Agostinho ou mesmo sejas um ex-aluno do Colégio), vou com a “Navalha de Ockham” = a mais simples é a correta.)

    1a) “Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo.” Jesus Cristo.
    (“Foi sua companheira fiel nas horas difíceis”, “Então, foi abandonada, expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho, que nunca mais veria”.)
    Mônica gostaria de nunca mais ver/saber do seu filho Aurel?

    1b) Permitiria o contato/criação/supervisão de Flória Emília com o filho, pelo menos até à pré-adolescência, deixando para ele a decisão (não sei quando se era considerado adulto naquela época) de continuar ou interromper o vínculo.

    O fato dela ter se comprometido a um amor sem o menor chance de processo de continuidade (juramento de fidelidade) diante da escolha de vida abraçado pelo seu ‘amado’ – diz respeito a ela -, um ‘curativo/band-aids’ para não sucumbir a tal dor. amputação/ablação total da presença física do filho = prova de que “Aurel” existiu em sua vida)

    (“expulsa de repente, sem nem poder dizer adeus ao amado filho”)

    2) Surpresa? Sim! Há um paradoxo!

    (embora pertencesse a uma casta inferior e, por isso, fosse malvista pela família de Aurel, sobretudo por sua santa e piedosa mãe.)

    Uma MULHER (tem alma? não tem?), casta inferior (= árvore genealógica e/ou $$$), num período compreendido, digamos, baseando-nos nos anos de vida (76 anos) do Doutor da Igreja Santo Agostinho (Tagaste, 13 de novembro de 354 – Hipona, 28 de agosto de 430) sabendo ler e escrever nessa época, quando a Idade Média média compreende o período entre situado entre os anos de 476 e 1453?

    Alguma coisa está errada aí. Faltam dados para preencher essa lacuna…
    Boa sorte, Norma

    • Norma, muito obrigado por seus esclarecimentos. Suas palavras de agora, me fizeram divisar uma angulação nova. Confesso-vos que nunca havia parado para reflexionar a respeito dos inenarráveis padecimentos íntimos da “companheira fiel” de Agostinho. Dizem que por “detrás de todo homem notável, existe uma grande mulher.” Parafraseando esse adágio popular, afirmo que ao lado de todo grande homem sempre existiu o apoio de uma notável mulher. Logo, se não fosse a presença anônima de Flória na vida do filho de Mônica, talvez não teríamos “Santo” Agostinho no panteão da cristandade e na galeria dos grandes filósofos da humanidade. Lembre-se minha amiga, que o Sol nos ilumina e nos vitaliza sem fazer fazer barulho. Mais uma vez, muito obrigado. Paz seja sempre contigo e com os seus.

      PS: Sou professor de Biologia no Colégio Militar de Juiz de Fora (MG) e Mestre em desenvolvimento sustentável. Sou de orientação filosófico-religiosa espírita, porém de coração ecumenicamente aberto a todas as crenças e ideologias promotoras do crescimento humano. Como dizia Gandhi: “Sou hinduísta, muçulmano, budista, cristão…” Tento ensinar para minha e minha esposa e a minhas filhas, essa visão de inclusividade, explicando a elas que o verdadeiro sábio é aquele que não olha o dedo do mestre, mas a lua que o mesmo está apontando.

  • Norma, muito obrigado por seus esclarecimentos. Suas palavras de agora, me fizeram divisar uma angulação nova. Confesso-vos que nunca havia parado para reflexionar a respeito dos inenarráveis padecimentos íntimos da “companheira fiel” de Agostinho. Dizem que por “detrás de todo homem notável, existe uma grande mulher.” Parafraseando esse adágio popular, afirmo que ao lado de todo grande homem sempre existiu o apoio de uma notável mulher. Logo, se não fosse a presença anônima de Flória na vida do filho de Mônica, talvez não teríamos “Santo” Agostinho no panteão da cristandade e na galeria dos grandes filósofos da humanidade. Lembre-se minha amiga, que o Sol nos ilumina e nos vitaliza sem fazer fazer barulho. Mais uma vez, muito obrigado. Paz seja sempre contigo e com os seus.

    PS: Sou professor de Biologia no Colégio Militar de Juiz de Fora (MG) e Mestre em desenvolvimento sustentável. Sou de orientação filosófico-religiosa espírita, porém de coração ecumenicamente aberto a todas as crenças e ideologias promotoras do crescimento humano. Como dizia Gandhi: “Sou hinduísta, muçulmano, budista, cristão…” Tento ensinar para minha e minha esposa e a minhas filhas, essa visão de inclusividade, explicando a elas que o verdadeiro sábio é aquele que não olha o dedo do mestre, mas a lua que o mesmo está apontando.

    • A. Salomão,

      Meu amigo: BINGO! Perfeita colocação.

      Pela segunda vez hoje, escrevo palavras de Ananda (primo e discípulo de Buda): “ASSIM EU OUVI”, em relação ao teu coment.,como poderia citar Shijo Kingo (discípulo de Nitiren Daishonin), já que ambos seguiram o verdadeiro “caminho de mestre e discípulo”.

      Sentes, Salomão (que ‘verniz’ bom tem o teu nome e que responsabilidade!) a necessidade do contraponto para o ‘realce’, da, digamos, ‘escolha’ de posição na vida do Outro, no Teatro da Vida?

      Sim, feminismo à parte, com uma visão espiritualista: Não existiria em toda sua grandeza e sabedoria, esse grande Doutor da Igreja, esse sábio talvez não viesse à tona sem sua vivência mundana e sem o ‘papel’ desempenhado por Flória. Quando a ‘luz’ é muito grande… dar para imaginar a ‘sombra’ que ela projeta…
      Ambos desempenharam lindamente suas doloridas ‘funções”.

      P.S.: 1) Wow! :) Mas vou continuar a te tratar por Salomão, se assim vc me permitir.

      2) É. Não sei como funciona nos teus ‘círculos’ + próximos. Para mim, no “Aqui & Agora”, está irretocável a tua postura e me sinto honrada com a tua atenção.

      P.P.S.: Eu não conhecia esse ‘ditado” (acreditas ?). Aprendi aqui (e quase ‘apanhei’ por desconhecê-lo – rsrsrs)

      Gassho, Norma

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