A carta de Fernando Pessoa a Sá Carneiro contando seu abalo total depois de descobrir as doutrinas teosóficas

Em dezembro de 1915, o poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu uma carta ao amigo e também poeta português Mário de Sá Carneiro (1890-1916), contando sua “necessidade psíquica absoluta” de revelar sua descoberta recente da Teosofia e dos escritos de Helena Petrova Blavatsky (1831-1891), a autora de “A Doutrina Secreta“, “A Voz do Silêncio” e outras grandes obras do ocultismo — muitas delas que o próprio Pessoa viria a traduzir [veja post de ontem: “Cada tentativa sincera ao seu tempo recebe seu prêmio”: a voz do silêncio, de Helena Blavatsky, por Fernando Pessoa]. Dizendo-se “psiquicamente cercado”, Pessoa revela seu encontro “banalíssimo” com a obra de Blavatsky e o grande impacto que o causara, mudando várias de suas crenças e perspectivas a respeito do universo. O encontro pode ter sido banal, mas certamente não foi ao acaso, já que Pessoa tinha uma profunda inquietação existencial e admirava escritores com sabedoria diferenciada a respeito da vida e do universo, especialmente William Shakespeare e Walt Whitman.

Perguntado por um amigo o que pensava acerca do Ocultismo, Pessoa respondeu o seguinte em carta em 1935: “Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, sutilizando-se até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. (…)”.

Segue a carta de Fernando Pessoa a Mário de Sá Carneiro, disponível no ArquivoPessoa.Net.

Lisboa, 6 de Dezembro de 1915

 

Meu querido Sá-Carneiro:

 

Como lhe escrevo esta carta, antes de tudo, por ter a necessidade psíquica absoluta de lha escrever, V. desculpará que eu deixe para o fim a resposta à sua carta e postal hoje recebidos, e entre imediatamente naquilo que ficará o assunto desta carta.

 

Estou outra vez presa de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica, desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado.

 

Renasceu a minha crise intelectual, aquela de que lhe falei mas agora renasceu mais complicada, porque, à parte ter renascido nas condições antigas, novos factores vieram emaranhá-la de todo. Estou por isso num desvairamento e numa angústia intelectuais que V. mal imagina. Não estou senhor da lucidez suficiente para lhe contar as cousas. Mas, como tenho necessidade de lhas contar, irei explicando conforme posso.

 

A primeira parte da crise intelectual, já V. sabe o que é; a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento com as doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi, como V. sabe, banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de forca, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobreOs Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me «hante». Não me julgue V. a caminho da loucura creio que não estou. Isto é uma crise grave de um espírito felizmente capaz de ter crises desta. Ora, se V. meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão—no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus — e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu Panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (V. compreende?) essenciais, atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental» (é este o nome que eu dou ao modo de pensar a que havia chegado), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito. E o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma. Um pavor metafísico, meu querido Sá-Carneiro!

 

V. seguiu bem todo este labirinto intelectual? Pois bem. Repare que há outros dois elementos que ainda mais vêm complicar o assunto. Quero ver se consigo explicar-lhos lucidamente…

(…)

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