Bauman e o medo moderno: “o que faz nossos medos particularmente dolorosos, insuportáveis, é a falta de clareza sobre suas causas”

“A conclusão a que cheguei, ao tentar entender a ansiedade dos contemporâneos, é a seguinte: o que faz nossos medos particularmente dolorosos, insuportáveis, é a falta de clareza sobre as suas causas. Em outras palavras, o que nos faz sofrer mais do que qualquer outra coisa, envenenando nossos prazeres cotidianos e provocando pesadelos, é a própria incerteza, tanto sobre a condição humana como sobre nossa ignorância. É uma verdade antiga, contida no Livro de Jó e esquecida: ainda que houvesse razões sensíveis para as catástrofes que se abatem sobre nós, seríamos incapazes de compreendê-las, a despeito de nossa sabedoria e lógica. Goytisolo nota que o nosso conhecimento do mal se dá apenas quando olhamos para trás, retrospectivamente. É uma observação aguda a sua, referendada pela quase imperceptível erosão de nossos direitos e liberdades individuais nos tempos que correm. O processo todo só pode ser entendido em retrospecto, quando é tarde demais para restaurar aquilo que está perdido. Nos países que se consideram democráticos as pessoas já se renderam sem resistência: admite-se que “suspeitos” sejam seguidos pela polícia ou mantidos presos sem julgamento, ou ainda que sejam deportados sem provas legais – apenas como “medida de segurança”. A maioria das pessoas aceita essas arbitrariedades, seguras de que atingem apenas uma minoria. Mas o fato é que, desrespeitados os direitos humanos, não há como impedir a avalanche que vem por aí.”
~Sygmunt Bauman, em O Estado de S.Paulo (via Instituto Humanitas Unisinos)

 

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Jornalista autor do Dharmalog, terapeuta na Hridaya Terapia (São Paulo) e proprietário do Dharma Office.

7 Comentários

  • “Se antes de cada ato nosso, pudéssemos prever todas as consequências dele, e pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis… Não chegaríamos sequer a mover-nos porque o nosso primeiro pensamento nos teria feito parar!” — José Saramago.
    E não criaria medo e sim Amor.

    Afinal, ““Você é meu outro Eu” (sacerdote Arturo Bañuelas)não tem sentido temê-lo. Nac♥

  • Sinceramente, acho muito difícil que se chegue a um entendimento claro da origem dos nossos medos. A aceitação das arbitrariedades de outros sobre alguns, por exemplo, é um mistério da mente humana que considero dos mais desafiadores. Quando lemos “A servidão Voluntária” de Etienne De La Boétie, humanista francês que viveu entre 1530 e 1575, vemos que, do ponto de vista do comportamento humano, seu discurso pode até ser considerado “moderno” e que desde os mais remotos tempos essa questão do medo já nos atormenta. Sempre há um medo a tornar a nossa já precária existência ainda pior.

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