“O Jardim Interno Intocado”: Pedro Tornaghi explica o amor latente no coração, intocado por incompreensões e violentações

“Sua tarefa não é procurar amor, mas apenas procurar e achar todas as barreiras dentro de você que foram construídas contra o amor.”
~ Helen Schucman (UCEM)

Falar da capacidade humana de amar e da natureza profunda do coração não é fácil, mas o professor de meditação e astrólogo Pedro Tornaghi teve o dom ao escrever o artigo abaixo em seu site, intitulado “O Jardim Interno Intocado” — replicado aqui com a gentil permissão do autor. A experiência e realização do sentido profundo aparecem nessa visão ampla e esclarecedora sobre o Amor, esse conceito tão explorado e perseguido e desvirtuado em tantas direções. Mais do que um artigo, é um convite a reflexões sobre o modo de viver de cada um de nós.

Segue o artigo de Pedro Tornaghi.

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O JARDIM INTERNO INTOCADO
Por Pedro Tornaghi

A palavra Anahata, que nomeia o Chakra do Coração em sânscrito, significa invicto, inviolado. Se carregamos mágoas no peito, elas se hospedam no espaço externo desse Chakra, encobrindo-o e impedindo nosso contato com ele, mas não penetram no íntimo dele. No momento em que entramos em contato com o chakra, percebemos que a essência de nosso sentimento nunca foi violada por nada que possa ter contrariado nossas vontades e convicções.

O centro do Anahata Chakra é um espaço onde a pureza e a inocência estão intocadas e preservadas. Esse espaço secreto é o Shangri-lá que todos temos no peito, nosso jardim secreto, com flores de uma fragrância especial e divina, de um aroma íntimo, que revela os segredos da inspiração e da felicidade. Ao tocá-lo, evaporam-se quaisquer sentimentos de rancor, vingança ou mesquinhez. O Chakra do Coração traz consigo a possibilidade de entrarmos em contato com um espaço interno que permanece puro e intocado por todas as incompreensões e violentações de nossa biografia. Nesse lugar, nos percebemos plenos, sadios e capazes de lidar com cada situação nova à nossa frente, de maneira harmônica. Muitos dizem que esse chakra possui uma infinita capacidade de regeneração emocional, mas, na verdade, ele permite o contato com algo que nunca chegou a ser maculado e não precisa ser regenerado – a capacidade de amar, que se mostra inteiramente viva dentro de nós. No caminho até o centro do chakra podemos encontrar barreiras, nuances, sinuosidades e até caminhos tortuosos. Se anteriormente fomos estimulados a abafar a manifestação do chakra, as dificuldades se apresentam, mas o caminho até ele existe. E, se fomos nós quem o tampamos por inconsciência, podemos desimpedí-lo com a meditação. De qualquer modo, o centro do chakra permanece intacto e fresco. O tesouro permanece aí, inviolado.

O Anahata Chakra promove regularidade à vida, sem que essa regularidade se confunda com monotonia. No centro dele é possível escutar o “anahata-nada”. Nada, na Índia ancestral, significa som. O Anahata-nada é um som contínuo, não corrompido, sem início e sem fim, que podemos escutar desde o princípio até o final dos tempos – se é que existe o final dos tempos. É um som infinito e ao escutá-lo, temos – só por esse ato – uma conexão direta com o infinito, uma conexão de nossa alma individual com a alma universal e ilimitada.

A palavra Anahata também pode ser traduzida por “não tocado”. Este chakra – do coração e do afeto – nos leva a uma sensação de virgindade em relação ao mundo, nos sentimos virgens em cada novo instante que vivemos, limpos e livres para viver o momento de uma maneira totalmente fresca e nova. Quando se chama o conteúdo desse chakra de “não tocado”, evidencia-se que o amor experimentado anteriormente é diferente do amor que brota agora. E será sempre diferente, a cada vez. É como ilustra a parábola de Heráclito: “não se pode pisar duas vezes no mesmo rio”; você pode dar o mesmo nome ao rio que está à sua frente e ao que estava ontem, mas a água que está passando nele é outra. Ele é outro. O amor é sempre inédito, é sempre verde, é sempre algo surgindo do nada dentro de nós. É uma força brotando do zero.

Brahman

A expressão “não tocado” remete ao imanifestado: Brahman. Brahman é o nome que se dá na Índia à essência divina que não tem forma. Esse chakra permite uma intimidade tal com Brahman – o impalpável – que parece que ele foi apalpado. Ele permite sentir a fragrância do não manifestado, ouvir o som do silêncio maior. Por um lado, percebemos que a sua essência é tão sutil que não pode ser tangida, mas, por outro lado, tão próxima que parece tateável. Aqui podemos vivenciar o que não pode ser tangido pelos dedos, o que as mãos emitem, mas não podem segurar: o amor. O amor, essa substância formadora da própria existência. São Francisco de Assis dizia: “Amor clamam todas as pedras”.

O amor quando o experimentamos, percebemos que tudo em volta grita por ele, tudo em volta o almeja, o quer, o deseja ardentemente, anseia por ele, tudo em volta se alimenta dele e se desenvolve a partir dele, da energia dele. A expressão “não tocado” faz referência ao som que se ouve quando se penetra fundo no Anahata Chakra, o som de Brahman, a perfeita melodia do silêncio. É um som não expresso, não é proferido por nós – ele é apenas escutado, apenas percebido. Quando o contatamos o espaço onde ele ecoa, não podemos mais interferir, só podemos usufruir, curtir.

O coração físico cuida do ritmo da circulação. O Chakra do Coração, quando funcionando na plenitude, ordena as funções do coração e organiza os diversos ritmos do corpo. Ele sintoniza o pulsar do coração físico com o emocional, o vital, o mental e o espiritual, proporcionando a harmonização entre os ritmos dos seus diferentes corpos.

Nesse estado de integração, ele nos evidencia Brahman – o criador – dentro de nós e dos outros. Ele evidencia a presença do “Não manifestado” dentro de cada objeto existente, seja ele vivo ou inanimado. Ele nos leva a descobrir o amor de Brahman e a perceber o que há de mais digno dentro do que antes podia parecer indigno. O Anahata Chakra muda a concepção de julgamentos que possamos ter dos que estão em volta de nós. Ao meditarmos no “Quarto Chakra” e nos afinarmos com Brahman, um sentimento profundo de afeto nos invade e contatamos com o lugar de onde toda a criação vem. Sentimos uma entusiasmada afeição por tudo que é criado ou incriado e percebemos que a própria essência da criação é o amor. Com isso, nossas palavras se tornam mais inspiradas e com uma música própria. Elas fluem de maneira original e tocam o coração do outro, tornando-o receptivo. Quando as palavras vêm da mente, parecem arrumadas de uma forma lógica, quando fluem do coração, têm uma delicadeza genuína e exalam frescor e poesia.

Meditar no Anahata Chakra restaura a inocência e o sentimento de pureza, levando-nos a enxergar cada coisa que vivemos como algo especial e de maneira totalmente original e fresca. Aumentamos a nossa capacidade de compreensão, e nos sentimos invadidos por um sentimento de generosidade e alegria. Encontramos uma incrível capacidade de aceitação e de compaixão e nos vemos vivendo numa atmosfera de receptividade e aceitação. A abertura emocional que acontece em nós, aliada à sintonia e sensação de eixo, nos levam a uma bondade espontânea e a uma constante sensação de auto-estima e felicidade.

Por tudo isso, o Anahata Chakra equilibra as diversas intenções e tendências dentro de nós e tem a chave de todos os equilíbrios. Ele é o chakra que, com suas meditações, mais facilmente aproxima o mestre do discípulo. E o ser comum do mestre interior.

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

14 Comentários

  • Gostaria muito de dizer, mas o silêncio muitas vezes é preferível às palavras.
    O silêncio fala do interior do imanifestado de cada um, Parabrahmã no estado de Vibhuti, onde Lakshime e o Bhodisatwa aguardam para despertar em nós a essência universal de Brahmã Saguna…
    Doze pétalas e mais duas representam os quatorze pedaços de Oziris que a Deusa Isis terá de recolher; e os quatorze trabalhos de Hercules que a cada um cabe fazer.
    Mas a palavra é bela, quando revela ciência e amor.

    • Oi Julio,

      Viajei ao passado até Monteiro Lobato, dei um passeio pela Mitologia Grega e acabei com Alice Bailey.
      Só 12 são os trabalhos de Hércules. citados. Vc pode desenvolver a tua referência aos 14?

      Desde já, grata.
      Boa Sorte, Norma

  • Oi, Norma7! Dos 14 trabalhos de Hércules, 12 dos tradicionais relativos ao trabalho do neófito, mais dois referem-se aos dois signos ocultos, que na verdade seriam em termos simples os seus pais, enquanto os Gêmeos Espirituais, tanto para o Avatara Cíclico, quanto para o discípulo em valores de sua Alma: Kamamanas em termos orientais que significa Emoção e Razão, ALMA quando em seu elevado alter-ego, coroada com os 12 trabalhos…
    Há também uma certa corrente que fala em dois pares de sete, masculino e feminino na formação do 14; e há ainda o ciclo universal de sete em sete comandando a evolução, na razão de Deus ser Um em essência, Três na manifestação e Sete na evolução; há ainda o grupo de 12 pétalas do chakra cardiaco, mais as duas do Vibhut, formando as duplas de sete grupos de Skandas e as sete Nidanas que o discípulo tem de transformar etc.
    Por Exemplo: no caso mais próximo, os doze signos em relação com os doze discípulos, mais Jeoshua e Moriah (Jesus e Maria)
    Mas está bem nos doze tradicionais,e não desejo mudar essa beleza de simbologia que trata do trabalho de iniciação e superação, antes de tudo das 12 pétalas do cardíaco, quando o Bodhisatwa e a Lakshimi despertam e o verde se mistura com o vermelho dessas duas pétalas ocultas e o discípulo se ilumina, elevando ao alto no coronário o amarelo ouro do cardíaco, e o púrpura do Vibhuti: verde e vermelho.

    Desculpe, se não consegui expressar-me melhor.

    Obrigado

    • “…se não consegui expressar-me melhor.”

      Julio,
      Foi o “devidamente apropriado” para o meu entendimento, sensibilidade e alegria (carac. do cardíaco).
      Agradeço tua inclinação em compartilhar o ‘1/2 copo’; de servir mais quando solicitado e por ter sido minha a sede.

      _/\_ Boa Sorte, Norma

      (entrelinhas são sempre significativas – Pisc*)

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