Se você for um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de papel: “interser”, por Thich Nhat Hanh

O primeiro capítulo do livro “O Coração da Compreensão” é um clássico do monge Zen vietnamita Thich Nhat Than, um dos líderes espirituais e melhores tradutores das sabedorias budistas da atualidade. Intitulado “Interser“, reproduzido abaixo, é um comentário simples e poderoso sobre a introdução ao célebre “Sutra do Coração” (Mahaprajnaparamita Hridaya Sutra), ensinamento essencial do Budismo que trata da interdependência de todas as coisas, ou, como o próprio Thich Nhat Hanh frisa, da inter-existência de todas as coisas. Contendo o sutra e os comentários integrais em apenas 86 páginas, o livro é uma preciosidade para todos os interessados em auto-conhecimento, em conhecimento da compreensão búdica da realidade das coisas e, além disso, da suavidade e clareza deste monge — autor também de “Corpo e Mente em Harmonia: Andando Rumo à Iluminação, “Cultivando a Mente do Amor” e “Velho Caminho, Nuvens Brancas: Seguindo as Pegadas do Buda”.

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Segue o capítulo “InterSer“, em português (Editora Bodigaya, 2000).

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INTERSER” (de “O Coração da Compreensão”)
Por Thich Nhat Hanh

“Se você for um poeta, verá claramente que há uma nuvem flutuando nesta folha de papel. Sem uma nuvem, não haverá chuva; sem chuva, as árvores não podem crescer e, sem árvores, não podemos fazer papel. A nuvem é essencial para que o papel exista. Se ela não estiver aqui, a folha de papel também não pode estar aqui. Logo, nós podemos dizer que a nuvem e o papel intersão. “Interser” é uma palavra que não está no dicionário ainda, mas se combinarmos o prefixo “inter” com o verbo “ser”, teremos este novo verbo “interser”. Sem uma nuvem, não podemos ter papel, assim podemos afirmar que a nuvem e a folha de papel intersão.

Se olharmos ainda mais profundamente para dentro desta folha de papel, nós poderemos ver os raios do sol nela. Se os raios do sol não estiverem lá, a floresta não pode crescer. De fato, nada pode crescer. Nem mesmo nós podemos crescer sem os raios do sol. E assim nós sabemos que os raios do sol também estão nesta folha de papel. O papel e os raios do sol intersão. E, se continuarmos a olhar, poderemos ver o lenhador que cortou a árvore e a trouxe para ser transformada em papel na fábrica. E vemos o trigo. Nós sabemos que o lenhador não pode existir sem o seu pão diário e, conseqüentemente, o trigo que se tornou seu pão também está nesta folha de papel. E o pai e a mãe do lenhador estão nela também. Quando olhamos desta maneira, vemos que, sem todas estas coisas, esta folha de papel não pode existir.

Olhando ainda mais profundamente, nós podemos ver que nós estamos nesta folha também. Isto não é difícil de ver, porque quando olhamos para uma folha de papel, a folha de papel é parte de nossa percepção. A sua mente está aqui dentro e a minha também. Então podemos dizer que todas as coisas estão aqui dentro desta folha de papel. Você não pode apontar uma única coisa que não esteja aqui- tempo, espaço, a terra, a chuva, os minerais do solo, os raios do sol, a nuvem, o rio, o calor. Tudo coexiste com esta folha de papel. É por isto que eu penso que a palavra interser deveria estar no dicionário. “Ser” é interser. Você simplesmente não pode “ser” por você mesmo, sozinho. Você tem que interser com cada uma das outras coisas. Esta folha de papel é porque tudo o mais é.

Suponha que tentemos retornar um dos elementos à sua fonte. Suponha que nós retornemos ao sol os seus raios. Você acha que esta folha de papel seria possível? Não, sem os raios do sol nada pode existir. E se retornarmos o lenhador à sua mãe, então também não teríamos mais a folha de papel. O fato é que esta folha de papel é constituída de “elementos não-papel”. E se retornarmos estes elementos não-papel às suas fontes, então absolutamente não pode haver papel. Sem os “elementos não-papel”, como a mente, o lenhador, os raios do sol e assim por diante, não existirá papel algum. Tão fina quanto possa ser esta folha de papel, ela contém todas as coisas do universo dentro dela.”

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Foto de theaucitron (licença de uso BY-SA Creative Commons).

Escrito por

Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

7 Comentários

  • muito lindo e poético. porem pura distração, pois todo esse movimento só existe pq DEUS existe, podemos substituir todos os elementos, a nuvem por agua encanada, o sol por lampadas, o lenhador por maquinas, o trigo por energia eletrica, o papel pela tela de do pc e a poesia poderia existir, mas a unica coisa que nao podemos substituir é DEUS, e Deus é um só, se revelou por seu Filho, que tambem nao pode ser substituido, assim com o Pai, e nós deu a salvação e a vida eterna, desde que sejamos dignos de tal seguindo sua lei…

    • Uosou, o objetivo do esclarecimento não me parece ser o de substituir nada por nenhuma outra coisa nem ninguém, mas o de ver a interdependência de todas as coisas. Não é só lindo e poético, é uma reflexão sobre a Verdade. Você diz que “isso tudo existe pq Deus existe”, ótimo, e Thich Nhat Hanh está refletindo sobre COMO tudo isso existe.

      Não só ele, na verdade é o Sutra do Coração, uma das obras mais apreciadas e valiosas do Budismo.

      Namastê,
      Nando

  • Bom Dia Uosou,

    Eu gostaria de te contar como as tuas palavras e a Fé demonstrada ( já que ela para mim – está acima de QUALQUER Sistema de Crenças Religiosas) – e que transparece ser acompanhada p/ti de Prática e Estudos – , iluminou o meu dia. Obrigada!

    Eu, também, concordo com tuas palavras: Thich Nhat Hanh foi muito feliz em seu texto! É realmente muito lindo e poético (que bom que te distraiu e te levou a uma esfera acima, criando o apregoado ‘distanciamento’, citado por tantos cientistas e teólogos, como método para encontrar soluções).
    E considerando o verbo distrair (descende do latim distrahere), com o seu significado “puxar para diversas partes”, como uma ampliação da visão – para contemplar toda a Floresta e não só certas espécimens de Árvores -, considero a escolha do termo ‘puro’ = sem nódoa, como perfeita para à grandeza do feito.

    E como não apreciar palavras como:
    (…)
    Sem obstáculos na mente.
    Sem obstáculos e por isso sem medo.
    Muito para além das ilusões, Nirvana é aqui.

    (…)
    Sutra do Coração

    OM, homenagem à venerável perfeição da sabedoria!

    Lembrou-me, também o título do livro de poemas Distraídos venceremos, de Paulo Leminski, poeta das situações do dia-a-dia e das grandes indagações. Certo =) ?.

    Só lamento Jesus Cristo não ter sido citado textualmento no seu comentário, quando o Post fala exatamente sobre “Coração” e da inteligação de todas as coisas… Não há como eu desatrelar sua figura (histórica ou não) de AMOR e principalmente de BELEVOLÊNCIA para com os ‘diferentes’.

    Alterado minha forma usual de despedir, Uosou, e agradecendo mais uma vez:
    ADeus! (recomendo-vos a Deus!)
    Norma

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