“A natureza quer que eu faça duas coisas, agir e dedicar-me à reflexão”: Sêneca em Da Tranquilidade da Alma

“O nosso pensamento invade as barreiras do céu e não se contenta em saber apenas o que está ao nosso alcance. Alguém poderia perguntar, afirmando: “examino o que está localizado além de nosso mundo para saber se é uma grande vastidão ou está circunscrito por alguns limites; qual a forma dos elementos estranhos; são disformes ou confusos ou com igual volume em cada parte; se estão ligados com o nosso mundo ou dele separados; se vagueiam pelo espaço; se é com elementos indivisíveis que se compõe tudo o que surgiu ou surgirá; ou, ainda, se a matéria de tudo isso é espessa e móvel ao mesmo tempo; se os elementos são opostos entre si ou se não estão em conflito já que contribuem para um mesmo fim por caminhos diferentes”.

Uma vez que veio ao mundo para descobrir tais problemas, vê como é pequeno o tempo de que o homem dispõe, embora se dedique a isso por inteiro. Ainda que não permita que lhe perturbem nem se descuide, ainda que controle seu tempo com muito cuidado e estenda as suas horas até o fim de sua vida, desde que o destino não retire nada do que recebeu da natureza, o homem é por demais mortal para compreender as coisas imortais.

Assim, vivo segundo a natureza, já que a ela me entreguei totalmente, já que sou seu admirador e servo. Entretanto, a natureza quer que eu faça duas coisas: agir e dedicar-me à reflexão.

Tanto uma quanto outra realizo, pois não pode “Mas faz diferença”, dizes, “dedicar-se ao estudo da natureza apenas levado pelo prazer, não pedindo nada mais que a contemplação, sem visar a qualquer outro objetivo, uma vez que ela, com seus atrativos, já proporciona satisfação?”

A isso, respondo que é importante saber qual o propósito de dedicar-se à vida pública, ou seja, se é apenas para estar sempre ocupado e sem tempo para voltar os olhos das coisas humanas para as divinas.

Da mesma forma que desejas as coisas sem o mínimo apreço pelas virtudes, sem cultivar o espírito, agindo de forma injusta através de atos não dignos de aprovação – já que todos os elementos devem estar ligados –, assim uma virtude distanciada da vida retirada é um bem imperfeito e doente, uma vez que inativa não demonstra nenhuma aprendizagem haver contemplação sem alguma forma de ação.”

~ Lúcio Aneu Sêneca (4 AC-65 DC), trecho de “Da Tranquilidade de Alma” (tradução de Guilio Davide Leoni)

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Jornalista autor do Dharmalog e terapeuta na Hridaya Terapia, em São Paulo.

1 Comentário

  • Mau Carma ou Vamos ‘experimentar’ em campo para ver como funciona?

    #Um epicurista no olho do furação#
    (tutor e conselheiro de Nero – o do “incêndio” e matricida -, que tb o condenou a cometer suicídio)

    “Não desejar é mesmo que possuir”

    #Um amante da frugalidade: RICO#:

    “Séneca foi então muito criticado pela fraca oposição à tirania e à acumulação de riquezas, incompatíveis com as concepções estoicas. Conforme concluiu o emérito professor Giulio Davide Leoni, o destino foi em parte malvado para com Séneca, fez chegar até nós acusações e perderam-se as defesas. Da leitura atenta de suas páginas, do modo como aceitou e caminhou para a morte, como Sócrates, faz surgir um juízo sincero que as reticências dos historiadores e estudiosos, muitas vezes, acabam por ofuscar.” (Wiki)

    Como orador e advogado, fico imaginado SE e o QUANTO Sêneca é citado nos atuais julgamentos:

    “Às vezes , mesmo contra a nossa vontade devemos aceitar um benefício: quando é dado por um tirano cruel e iracundo, que reputaria injuria que tu desdenhasses seu presente. Não deverei aceitar?” (Sêneca) – pelos Advogados de Defesa …

    E assim, apesar de ser rico, vivia modestamente: bebia apenas água, comia pouco, dormia sobre um colchão duro.

    Fácil não deve ter sido. Complicado para quem viveu sempre tão junto ao Poder de Roma (inclusive por matrimônio), execer a filosofia que o norteava. Contudo em sua obra há coerência com que acreditava e buscava (serenidade), em contraponto com uma vivência palaciana hedonista (o máximo de prazer com um mínimo de sofrimento).

    Ironia (ele era um Mestre nessa ‘arte’) de seu destino? Pisc*
    Grata. Boa Sorte, Norma

    +++++++++++++

    No Epicurismo o prazer deve ser sereno e calmo. E seu seguidor deve procurar evitar a dor e as perturbações, levar uma vida longe das multidões, porém não solitário, dos luxos excessivos, se colocando em harmonia com a natureza e desfrutando da paz e cultivando a Amizade.

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